Desencanto e amadurecimento
Hoje foi um dia histórico na nossa cidade e do nosso povo! Um momento muito
bonito em que pessoas de diversas classes sociais, cores, gêneros, idade e
visões de mundo diferentes foram às ruas para lutar pelos seus direitos e
tentar construir um projeto de mundo melhor, mais justo e humano. Uma
mobilização da juventude tão grande e que não se via desde muito tempo. Lutando
por democracia real e direta. Foi tão inspirador ver as pessoas nos apoiando
com bandeiras brancas, do Brasil ou máscaras do Anonymous e todos os
manifestantes repetindo o coro “Vem pra rua!”. Ou ontem na reunião quando
apareceram dois homens querendo bater boca e brigar, as pessoas gritaram “Sem
violência!” e eles apertaram as mãos e a reunião pode seguir sem tumulto.
Eu posso ficar mais tranquilo sabendo que estou fazendo a minha parte nessa
luta e dividindo esse momento único com cada uma das pessoas que saíram de casa
sem medo da possível repressão da PM ou mesmo de fazer uma grande marcha sob a
chuva. A nossa geração finalmente saiu do marasmo, conformismo e fatalismo e
está se fazendo ouvir por toda a sociedade e por quem está no poder. Só poso
expressar a minha gratidão a todos que foram e que acreditam que um outro mundo
é possível.
Agora, como nem tudo são flores, preciso falar do lado negativo. Qual é a
principal crítica a partidos de esquerda? A questão de algumas correntes
políticas de esquerda mais radical serem stalinistas, autoritárias, enxergarem
o mundo como se nós vivêssemos no século XIX e que é possível construir uma
sociedade mais justa com violência ou suprimindo a liberdade de expressão. Qual
a crítica que muitas pessoas tem de militantes de esquerda? Que são fanáticos e
que querem impor seu ponto de vista aos outros e seguem uma cartilha partidária
e não podem pensar por si mesmos. Em vários casos isso é até verdade, mas eu
acho que todos esses comportamentos eu vi hoje por uma parcela dos
apartidários. Gritando “Sem partido” ou até de forma mais violenta “Pega essa
bandeira e enfia no c..” ou “PSTU, vai tomar no c..”. Para contextualizar, é
preciso lembrar que os partidários e apartidários estavam negociando a questão
do uso de camisas e bandeiras de partido. Tinha tentado se chegar a um meio
termo: as pessoas só vão utilizar camisas de partido, por que nós não podemos proibir
as pessoas de se vestirem do jeito que quiserem e camisa é algo individual, não
dá a ideia de que é algo que representa o grupo todo. Sabe, eu já até estava
apoiando esse meio termo para a gente poder partir para a discussão das pautas
que a gente quer exigir do prefeito e do governador. Só que depois do
comportamento de turba, por natureza violento e irracional, de hoje e a falta
de respeito com que parte dos apartidários tratou os manifestantes, agora acho
que isso nem deve mais ser negociado.
Não sei se em SP essa questão das bandeiras, camisas e militantes foi tão
polêmica, por que eles tiveram que enfrentar uma PM truculenta e violenta que
queria impedi-los de fazer a sua manifestação pacífica (algo inconstitucional e
que nenhuma autoridade tem poder de fazer), talvez por isso o foco tenha sido
as causas em comum, a liberdade de se manifestar e de lutar pelos seus
direitos. Felizmente a PM daqui do Pará não quis fazer o mesmo com a gente e
colaborou com o movimento e por isso a gente teve paz pra marchar. Na minha
leitura do que aconteceu hoje, vi que uma parcela dos apartidários adotou para
si o papel de PM e resolveu reprimir as pessoas que não obedeceram a imposição
deles de não levar bandeira. Isso sem falar em o quanto essa gritaria e xingamentos
lançados pela turba apartidária serviram para desmobilizar, dividir e tirar o
foco da nossa manifestação. Eu realmente tenho que perguntar: essas pessoas só
têm duas palavras no vocabulário ou não tem propostas? Por que ficaram a
manifestação inteira esbravejando e se esgoelando, tal qual cães raivosos,
contra os seus companheiros de manifestação.
Essa parcela dos apartidários afirma que o movimento é do POVO, esse conceito
abstrato, que eles acreditam que seja monolítico e homogêneo. A questão é que
isso não é verdade, o povo brasileiros é formado por diversos povos de
diferentes regiões. Dentro da nossa região, por exemplo, existem pessoas de
diversas etnias, cores, gerações, classes sociais, visões de mundo, ideologias
políticas. Enfim, é todo um universo cheio de diversidade e beleza. Com isso
não quero dizer que é impossível que as pessoas possam se unir e lutar pelas
causas populares e por direitos humanos, mas que as pessoas têm diferentes
formas de se organizar e se manifestar. Negar isso, por definição, é fascismo.
Esperar que toda a sociedade siga uma forma única de pensamento, uma única
corrente política, uma cultura e mentalidade únicas, é fascismo, não tem outro
termo.
Eu acreditava que o nosso movimento era plural. Como essa parcela dos apartidários
pode ficar, que nem crianças birrentas, a MANIFESTAÇÃO INTEIRA xingando as
pessoas e repetindo “Sem partido!”?! Enquanto os militantes de partido
batucavam, dançavam e puxam coro, no setor em que estavam, por diversas
questões: pelo passe livre, em oposição a Belo Monte, em indignação contra o
desvio de verbas e paralização do BRT. O pessoal do PSOL, parte onde eu estava,
não cantaram hinos do partido ou da juventude o PSOL. Eles estavam puxando esse
coro de questões que, não tenho dúvida, são defendidas por muitos de nós. Eu
acho muito escroto, violento, opressor e burro ficar mandando eles irem se
foder ou ir embora da manifestação, enquanto não se propõe outra questão ou
pauta ou o que seja!
Por outro lado, eu entendo o clima de indignação com o nosso sistema e com os
partidos políticos, mas acho que vocês tem que refletir algumas questões que o
Tony Leão já escreveu em um post anterior: “2. Se é movimento plural, que não
apresenta uma “bandeira” em particular, mas sim um discurso mais amplo de cidadania
e direitos para tod@s, também me parece que seria incoerente proibir
participação de partidos que pretendam somar à essa característica pluralista.
3. Temos que ter cuidado com uma visão atualmente comum de considerar que TOD@S
os partidos políticos são ruins, pois TOD@S os políticos são corruptos por
natureza.
4. Esse discurso se encontra generalizado, mas ele tem uma história que precisa
ser considerada. Qual seja:
a) Parte significativa desse discurso contra partidos se deve a uma inquietação
da sociedade frente a casos de corrupção em vários setores da vida pública.
Inegavelmente a corrupção existe e atinge a vida política do país. Criticar e
se indignar é justo e democrático.
b) Contudo, é importante considerar que a corrupção se deve tanto a CORRUPTOS
quando a CORRUPTORES. Temos que nos perguntar também quem são os corruptores.
Seria aquele personagem invisível, mas onipresente chamado capital? Se sim,
quais os partidos que claramente representam os interesses do capital e quais
se colocam abertamente contra ele?
c) Nesse caso temos que pensar a questão da reforma política no Brasil e ai
entra o tema da eleição não obrigatória e do financiamento público de campanha
(questão complexa, mas que por isso mesmo mostra que não basta ficarmos contra
partidos, temos que ter uma alternativa, se não o discurso esvazia). Já temos
uma alternativa para o dia seguinte à “revolução”, quando questões práticas
como ir à padaria e quem vai “governar” esse país vão se colocar para nós?
d) Parte do discurso antipartido foi criado por setores da impressa hegemônica
(Globo, Veja, etc) numa clara oposição ao PT. A imprensa hegemônica se
configura com um partido político na Brasil. É esse partido que chama os
ativismos das ruas de “baderna”. Não podemos ser ingênuos de achar que a
corrupção começou com o PT e que nunca houve corrupção antes dele e nem terá
depois. Esse discurso do “basta”, “todo político é corrupto” em parte reforça
uma tentativa da imprensa conservadora (PIG) de desestabilizar o governo e
retomar o poder na figura dos velhos partidos como PSDB, DEM, etc. E vejam bem,
não estou defendendo o PT aqui, não sou do PT, mas alerto apenas para o aspecto
ideológico subjacente ao discurso contra partidos. Ajuda a quem esse discurso
agora?”
Pra finalizar, faço os seguintes questionamentos: como a gente vai poder gritar
o coro “Vem pra rua!” pelas ruas, se para muitos apartidários, os partidários
não podem participam se eles não se adequarem ao que os apartidários acreditam
que é a única forma legítima de se manifestar? Qual o sentido da gente gritar
“Sem violência!”, se a gente vai ficar se xingando, agredindo e querendo
resolver as coisas no berro nas manifestações entre nós, tal qual um bando de
esquizofrênicos protestando contra os companheiros manifestantes? Em SP tem
bandeira de partido de ESQUERDA (por que o papel, segundo a minha ideologia e
posicionamento político, da direita é manter o status quo e os privilégios de
empresários) e o movimento deles é um estrondoso sucesso! Qual o medo de vocês?
E a gente não pode resolver as coisas em reuniões através do debate civilizado?
Espero que sim, por que eu não quero fazer parte de um movimento totalitário e
fascista.