Os vovôs, as
vovós e eu costumamos andar na praça Brasil, de manhã. Enquanto eu caminho,
percebo que todas televisões estão sintonizadas no canal da Igreja Universal da
Exploração da Fé, no jornal policial, as pessoas realizam o seu fascínio por
sangue e a violência, eu somente olho pelo canto do olho a ira muito seletiva
da justiça burguesa. Um dia é o traficante pé de chinelo, outro dia é algum
pobre diabo semianalfabeto que o Estado só interviu com o seu braço armado. Me
parece uma cena de ficção científica ruim ou distopia.
Por outro lado,
nem tudo na minha visão é cinzento. A endorfina começa a ser bombeada no meu
cérebro, meu coração se acelera e o álbum do The Stooges circula pelos meus
tímpanos. Começo a observar tudo o que me cerca. Vejo o bar Meu Garoto e penso “poutz,
seria legal matar a sede com uma breja”, aí lembro que é contrassenso ficar
caminhando e depois beber cerveja. Ando mais um pouco e um vendedor de café da
manhã grita “Corno fofoqueiro!”, quase olho pro lado e digo com meus olhos “quem, eu?”.
Passo em frente
ao tribunal, vejo os pinguins e marrecas (qual o feminino de pinguim? Não vou
pesquisar no google, me diga você aí) entrando e saindo. As pessoas que vieram
resolver alguma cagada mediada pelo Estado, ficam em frente ao faraônico prédio
(ah esse poder judiciário e seu complexo de pinto pequeno...). Isso só me
faz pensar: putz, que bom que escolhi ser professor!
Dou outra volta na praça, vejo o verde dos gramados, de árvores grandes e belas
(que não sei o nome e não tem sentido botar aqui, afinal de contas não sou biólogo) que já estavam lá quando eu era criança, pombos e passarinhos voam,
uma mulher tatuada segura seu bebê e conversa com um amigo sentados num banco,
mas isso não é um idílio, carros buzinam, alunos vão para suas escolas e
pessoas vão para seus trabalhos, a vida se move ao meu redor, mas apesar de eu
ter o controle desse relato, não sou um orador onisciente, sou tão carne e
osso, sangue, contradições e limitações, tanto quanto as pessoas que eu observo e a
sociedade em que vivo. Não, não olho de cima o que relato, me sintia parte desse
momento em que estava, mas não no sentido “singing in the rain”, “tudo é mágico”,
Amélie Poulain e esse tipo de bobagem, só observo essas coisas e ao observar e
contar isso, me sinto vivo.