quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A juventude dá voltas

A juventude é uma nuvem na qual a gente flutua, as vezes ela se dissipa, sem aviso nenhum, como um sonho bom que a nossa mãe nos acordou pra ir pra escola. A gente cai e se quebra em mil pedaços e que voltar a esse estado, mas é tão impossível quanto tentar controlar a vida.
Acho que o que nos coloca de volta é a noção de que vivemos algo real. Pra mim isso pode ser coisas bem simples, o primeiro gole de cerveja que tomo e antes da minha consciência turvar, olho pro céu, pra um prédio, depois volto pro chão e percebo o vento e uma folha que vai fugindo pela esquina. Uma mulher interessante que eu flerto e que flertar comigo, ou ao menos é o que eu pensava, até ela beijar sua bela namorada. Um amigo que sempre me faz rir e que compartilhamos as mesmas angústias e anseios. Não somos mais tão jovens, mas todos esses momentos e pessoas fazem a vida adulta não parecer tão cinzenta e nem tão sufocante. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Cotidiano

Os vovôs, as vovós e eu costumamos andar na praça Brasil, de manhã. Enquanto eu caminho, percebo que todas televisões estão sintonizadas no canal da Igreja Universal da Exploração da Fé, no jornal policial, as pessoas realizam o seu fascínio por sangue e a violência, eu somente olho pelo canto do olho a ira muito seletiva da justiça burguesa. Um dia é o traficante pé de chinelo, outro dia é algum pobre diabo semianalfabeto que o Estado só interviu com o seu braço armado. Me parece uma cena de ficção científica ruim ou distopia.
Por outro lado, nem tudo na minha visão é cinzento. A endorfina começa a ser bombeada no meu cérebro, meu coração se acelera e o álbum do The Stooges circula pelos meus tímpanos. Começo a observar tudo o que me cerca. Vejo o bar Meu Garoto e penso “poutz, seria legal matar a sede com uma breja”, aí lembro que é contrassenso ficar caminhando e depois beber cerveja. Ando mais um pouco e um vendedor de café da manhã grita “Corno fofoqueiro!”, quase olho pro lado e digo com meus olhos  “quem, eu?”.

Passo em frente ao tribunal, vejo os pinguins e marrecas (qual o feminino de pinguim? Não vou pesquisar no google, me diga você aí) entrando e saindo. As pessoas que vieram resolver alguma cagada mediada pelo Estado, ficam em frente ao faraônico prédio (ah esse  poder judiciário e seu complexo de pinto pequeno...). Isso só me faz pensar: putz, que bom que escolhi ser professor!
Dou outra volta na praça, vejo o verde dos gramados, de árvores grandes e belas (que não sei o nome e não tem sentido botar aqui, afinal de contas não sou biólogo) que já estavam lá quando eu era criança, pombos e passarinhos voam, uma mulher tatuada segura seu bebê e conversa com um amigo sentados num banco, mas isso não é um idílio, carros buzinam, alunos vão para suas escolas e pessoas vão para seus trabalhos, a vida se move ao meu redor, mas apesar de eu ter o controle desse relato, não sou um orador onisciente, sou tão carne e osso, sangue, contradições e limitações, tanto quanto as pessoas que eu observo e a sociedade em que vivo. Não, não olho de cima o que relato, me sintia parte desse momento em que estava, mas não no sentido “singing in the rain”, “tudo é mágico”, Amélie Poulain e esse tipo de bobagem, só observo essas coisas e ao observar e contar isso, me sinto vivo. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ressaca moral

Toda manhã depois de um consumo excessivo de álcool, quando você abre os olhos e pequenos pedaços de memórias começam a voltar, é um momento Jekil and Hyde, mas o Hyde é um disfarce que as pessoas se escondem, por que não querem encarar as palavras ou atos que fizeram que fujam da normalidade, ou o impulso de ser infiel (realizado ou não, depende do tipo de pessoa que você é), ou a vontade de dizer o que você realmente pensa sobre alguém (é tão bom chamar um academicista pelo que ele realmente é, ou mandar um reaça ir se foder).
Por outro lado, o clichê diz: “o que as pessoas fazem quando estão embriagadas, é o que elas não tem coragem de fazer sóbrias”. O que torna meio explicar por que algumas pessoas urinam em igrejas ou escalam prédios históricos ou quebram garrafas em paredes.
Uma vez li um historiador, ele disse que a loucura é uma resposta inconsciente a uma sociedade opressora, acho que a embriaguez pode assumir essas formas. As vezes as pessoas se sentem sufocadas pelas limitações da rotina ou de uma vida sem perspectivas ou de penúria, tal como o João Mau tempo, que se enforca em uma árvore, logo no início de “Levantado do chão”.

A vergonha é algo engraçado, por que a gente se importa com o que as outras pessoas vão pensar de nós, mas não ligamos realmente para o que fizemos e esses momentos tendem a se esvair como fumaça ou aquela poeira que podemos ver quando tem um feixe de luz solar, por isso a regra de ouro, não dita, entre os bebedores: não filme ninguém e cuide da sua vida. Acho uma ótima regra em vista que as pessoas são singulares e tem diferentes níveis de sensibilidade e reagem de formas diversas a situações humilhantes (vide o caso das garotas que cometeram suicídio com os vídeos de “revenge porn”).  De toda forma, isso não é um convite à inconsequência, simplesmente é um pouco de cinismo sobre as engrenagens que giram e movimentam nossas mentalidade e sociedade.
  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Alguns pontos sobre "O caminho para Wigan Pier" ou Uma breve reflexão sobre o pobre de direita

Esta obra de Eric Arthur Blair (e provavelmente a vida dele) tem o mérito de propor um socialismo horizontalizado, democrático e diretamente ligado com a classe trabalhadora. Seu nível de compromisso chega a um nível tão alto, provavelmente nunca vou me aproximar nem a milhares de quilômetros dele (participação na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas). Além disso, sua autocrítica sobre preconceitos de classe é muito válida e ainda relevante para qualquer pessoa de esquerda e que seja oriunda da classe média ou de elite, mas não somente para elas.
A condenação que o autor faz da visão de mundo de alguns socialistas, seus contemporâneos, desconstrói a ideia de que a sociedade está dividida entre proletários e elite e tenta fazer uma reflexão sobre o porquê da classe média e da classe trabalhadora se afastarem do socialismo. Por outro lado, acredito que ele culpa excessivamente o dogmatismo e vanguardismo dos socialistas (além de algumas afirmações anti-feministas e uma frase homofóbica, o posfácio do Mário Sérgio Conti já discute isso, recomendo a leitura) e não reconhece que ambas as classes são influenciadas por instituições bastante conservadoras (Família, Igreja, Mídia e Escola) e que fazem com que essas pessoas introjetem valores conservadores e desprezem partidos e movimentos que questionem o status quo.
Eu acho que não se pode relativizar o conservadorismo do povo brasileiro, especialmente o da classe trabalhadora. É preciso reconhecer que dificilmente um ambiente conservador, doutrinário e limitador forma pessoas libertárias, mas também que simplesmente chama-los de “burros” ou “alienados” não serve para explicar o nosso contexto histórico. Por outro lado, não engulo a relativização de que a classe trabalhadora “não é tão conservadora assim” ou que a culpa é da esquerda por não ter a capacidade de dialogar e atrair as classes oprimidas, ao menos não totalmente.

Bom, depois da minha vivência nas jornadas de junho de 2013 e de ver os arroubos nacionalistas e antipartidários (especialmente contra a esquerda), acho que é preciso reconhecer que boa parte da população (não só a classe trabalhadora) pode ser facilmente cooptada quando se utilizam conceitos como Nação, Família e Religião, além do espantalho da corrupção, “nenhum partido presta, mas vote no PSDB”. A esquerda tem que saber dialogar com diversos segmentos da sociedade, mas acho que não tem como dialogar com fascistas e conservadores enrustidos. É importante “separar o joio do trigo” e gastar energia de forma inteligente e estratégica com quem tem interesse de conhecer uma visão de mundo alternativa à revista semanal ou às perorações do comentarista da Globo. A alternativa é ficar gritando para os três ventos e ser engolido pelo mar de reacionarismo e fascismo. 

sábado, 11 de outubro de 2014

O “mistério” da noite

Uma forma aleatória que uma bebida vagabunda, cor de sangue, forma no piso da praça, essa provavelmente é a única coisa de nova que eu experimentei. Um amigo bêbado e emotivo me fala mentiras “sinceras” e me fornece o único momento real que tive.
Os corpos se movem ao meu redor, influenciados por olhares alheios. O cenário não é tão diferente e os personagens são os mesmos. Tudo tem um ar de farsa. É isso que essa noite pôde me dar.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Fogos de artifício

Um fogo de artifício explodiu no céu. Minha janela se encheu de um colorido e me lembrei que tem vida lá fora e que o mundo continua girando, tanto faz as minhas neuras e problemas. Esse tipo de clichê.
Isso me lembra quando a chuva passa, o contorno dos prédios, o horizonte cinzento e misterioso, vou andando pela rua até a minha casa, passando pelas ruas que cortam e vendo possibilidades de desviar de caminho. Isso as vezes me faz pensar sobre a possibilidade de escolher outros caminhos e sobre outros tantos caminhos que não tomei ou o acaso me impossibilitou de tomar. Não é bem um devaneio ou uma vontade de fuga da opressão e do tédio da realidade e dos limites do possível, assim como não é uma neura ou síndrome de Peter Pan. Acho que é só um desses momentos em que a gente sente a vida e as coisas parecem mais maleáveis, em que a gente se pergunta se realmente está onde deveria e se está fazendo algo significativo.
Sentir o cheiro do asfalto molhado, os carros passando rápido num borrão, as pessoas andando ao meu redor e os meus pés caminhando um depois do outro, tudo isso parece meio irreal as vezes.
Quando eu era criança, me lembro do igarapé Nazaré, perto do Xingu. Pensava que o meu pai era dono dele, mas nesse estado em que memória e fantasia se misturam. Nessas imagens em que a inocência torna tudo mais belo e singelo, em que a gente não consegue distinguir bem a realidade do sonho. Parecia um lugar quase mágico, me lembro do rio seguindo da nossa casa até lá e dos pássaros voando e nadando lá. Depois voltei no igarapé, já com 12 anos , provavelmente efeito das madeireiras, mais do que o sonho que se dissolvia, parecia um lugar tão desolado, comum e deprimente. Quase como os igarapés na beira da estrada de Mosqueiro. Me pergunto se a vida adulta não é uma série de momentos assim. 

Três anos depois

 Empacotei as tuas coisas, com calma e sem raiva, organizei tudo. Metodicamente apaguei os teus vestígios do meu quarto. Não estava com sono e precisava de algo para me distrair além de ler as bobagens acadêmicas repetitivas.
É estranho como esses rituais tornam o surreal mais aceitável. Sempre foi um conceito estrangeiro para mim o de fingir que não sinto dor e competir em quem está melhor sem a companhia de alguém que dizia nos amar e quem nós retribuíamos esses dizeres, nem sempre mecanicamente. Talvez pela mesquinharia desse esforço, talvez por que não sou um bom ator e por que sempre preferi meus poucos e bons amigos, do que vários robôs arrogantes e plastificados sugando ar ao meu redor.
Não mentiria e negaria que esses anos não deixaram uma marca em mim e que não cresci com a possibilidade de me preocupar com outro umbigo e outros pares de olhos.  De certa forma, espero que o aprendizado e a troca sejam mais duradouros do que a amargura e o cinismo.
É claro que não sou tão estoico ou uma criatura tão nobre e reluzente, não sou mais o menino que espernearia e bufaria por que alguém fez algo que ele não esperava, mas ainda assim sou o homem que está em uma situação na qual ainda não se acostumou, como um sapato que ainda não cedeu ou como se não me sentisse mais confortável em sua própria pele. É possível que eu quebre ou perca algumas coisas no caminho, mas talvez elas nem valiam a pena serem mantidas. É provável que eu quebre alguns vasos enquanto tateio esse novo lugar, mas as minhas pegadas vão sumir tão rápido quanto a água que jazia na terra e, de qualquer forma, não acho que muita gente seja capaz de percebê-las.  

domingo, 5 de outubro de 2014

Ridículo

Acho que todo mundo se sente ridículo. Todo mundo comete gafe, fala bobagem ou age de forma inadequada, em qualquer contexto que seja. Talvez a verdadeira medida do ridículo não seja o constrangimento que sentimos no momento ridículo, não é a nossa percepção e nem a de terceiros, mas o quanto tempo a gente remói o que consideramos ridículo, não só por ser uma construção humana, variável no espaço e tempo, mas acho que por que é um tempo demasiado grande de vida que gastamos pensando na opinião de outras pessoas (pior ainda quando não são importantes, mesmo se forem, ainda é um pouco bobo, enfim...).
Você pode ser super confiante ou ser um(a) sociopata e nunca ter esses sentimentos. Aí acho que você talvez seja ingênuo ou não seja capaz de perceber as outras pessoas, o que é um defeito bem comum, muitas vezes ele tem cura.
Eu acho que as pessoas podem passar a vida inteira sendo ridículas, mas é ridículo não reconhecer que o grau de ridiculidade é pré-definido pelo referencial, pelas nossa cultura e visão de mundo. O tiozão reaça que tem opiniões reaças não me parece tão ridículo, talvez o jovem que cresceu em um ambiente menos opressor e pense que ache que homem não chora e que não pode demonstrar afeto, seja mais ridículo. Talvez a pessoa que represente politicamente e forme a opinião desses milhões de tiozões reaças sejam os verdadeiros criminosos.

Talvez todo esse meu pensamento seja ridículo e uma perda de tempo, mas acho que depende com que tipo de nudez você se sente confortável e da leveza que você sinta depois de cada coisa que você faz. Bom, talvez isso seja um pouco "Polyana", mas e daí?! Não me importo tanto assim com o julgamento...