Caí.A minha perna e a parte a cima da minha cintura ficaram rochas e depois verdes. A dor passou e segui o meu caminho. As últimas gotas de chuva caíam, as cores de um dia novo e a possibilidade de eu construir castelos de areia se escondiam mais a frente.
Ser professor se parece com construir castelos de areia. Tem bastante trabalho tedioso, pode vir algum moleque e chutar o teu trabalho, talvez até a tua mão. Por outro lado, podemos achar alunos que queiram nos ajudar a construir. Isso nos dá ânimo pra seguir em frente, apesar de toda a indignidade e assédio moral.
A analogia de que somos castelos de areia, lentamente sendo consumidos pelo mar, ou levados para algum lugar distante, não me parece lá muito original, nem mesmo a de que nós olhamos demais para o céu ou para terra. Talvez, algo mais verdadeiro seria dizer que as vezes eu sinto um grande vazio, como um buraco dentro de mim, uma falta ar, um pedaço faltando, ou uma sensação incômoda de que algo está faltando pra girar as minhas engrenagens, ou que talvez tudo esteja errado.
Nada disso seria novidade se eu dissesse que me sinto sozinho mesmo rodeado de gente, por isso ser verdade desde que era criança, mas também porque isso já foi dito milhares de vezes por outras pessoas. Acho que o que seria uma tentativa melhor de fazer essas palavras falarem e levarem algum resquício da minha vida e da minha angustia é dizer que, as vezes, meus olhos parecem cobertos de cataratas e sob esse véu leitoso eu olho e escuto as pessoas ao meu redor, enquanto a minha mente some para algum lugar que lembre vagamente a dor na costa que costumo sentir.
Isso tudo parece uma grande reclamação, de fato, parece por que é mesmo. Se você não sentiu insatisfação em algum momento, talvez você seja burr@ demais pra estar viv@. Por outro lado, todo esse lamento e pesar seja a expressão de algo que não tem nome. Esse sensação de ser o vira-lata que busca comida no lixo, mas também o passarinho colorido que pousa no fio elétrico e voa pra onde a sua vontade o empurrar. Gosto de matar carapanãs, uma prof me perguntou se eu já tinha testado a minha sanidade, outra já falou em tom jocoso sobre a imaginária loucura dela e tarja preta como forma de intimidar os alunos. Tente tirar sentido desse texto, ou de eu ter escorregado de uma escada e batido a minha costela e torcido o pé, até gatinhos sendo moídos pode ser algo engraçado se tiver a música correta e uma boa dose de doutrinação sobre o que é certo e errado.
terça-feira, 26 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
E agora?
Pra quem é estudante de História, acho que todos nós estamos em um estado de estupor e incredulidade. Golpe parecia algo que poderia ocorrer em um país predominantemente rural, onde não tinha internet e o Estado era ainda mais autoritário do que agora. Isso parece uma piada de mau gosto. Na verdade, tá mais pra uma tragédia anunciada por aqueles microfones voadores do Globo repórter, porém depois do choque nós já pensamos em toda as repercussões que essa quebra do Estado democrático de direito representa.
Professores reaças ou analfabetos políticos falam que o Cunha é o próximo, essa ingenuidade e/ou canalhice é tão deprimente que até me bate uma sensação de vazio.
Depois dessa sensação de absurdo, desse choque de realidade sobre a nossa cultura política e as nossas instituições autoritárias e sem espaço para a participação popular, enfim, depois que conseguiram empurrar esse porco putrefato pela primeira porta rumo à suspensão da nossa "democracia" representativa burguesa, precisamos nos organizar e protestar. Acho que a nossa geração não vai mais poder romantizar ou idealizar 64, nós estamos sentindo um outro tipo de amargor e assalto aos nossos direitos e esperanças por um país menos desigual e conservador.
Professores reaças ou analfabetos políticos falam que o Cunha é o próximo, essa ingenuidade e/ou canalhice é tão deprimente que até me bate uma sensação de vazio.
Depois dessa sensação de absurdo, desse choque de realidade sobre a nossa cultura política e as nossas instituições autoritárias e sem espaço para a participação popular, enfim, depois que conseguiram empurrar esse porco putrefato pela primeira porta rumo à suspensão da nossa "democracia" representativa burguesa, precisamos nos organizar e protestar. Acho que a nossa geração não vai mais poder romantizar ou idealizar 64, nós estamos sentindo um outro tipo de amargor e assalto aos nossos direitos e esperanças por um país menos desigual e conservador.
terça-feira, 19 de abril de 2016
Tabula rasa
Sabe, hoje dei minhas aulas e parei pra pensar sobre alguns comentários que fiz. Acho que preciso pedir desculpas pelo ódio que destilei contra Manaus, não que o povo daqui não seja mais conservador do que o de Belém, por que é sim, mas, simplesmente por que misturei as coisas. Estou longe da minha família e amigos, as poucas pessoas legais que conheci aqui, ainda não fiz amizade além de facebook e da gente se esbarrar em manifestação. Enfim, não digo isso por auto piedade, é só que imigrar é foda. Acho que tem algo de muito errado com os gringos pra isso ser tão natural pra eles. Minhas raízes tão em Belém, apesar de não comer açaí, não dançar carimbó e nem ser um hipster, branco de classe média e barrista.
Divago... agora, cansado depois de um dia exaustivo respondendo que: sim,é pra copiar, ou mandando curumim se sentar, ou evitando que eles se quebrem na porrada. Parei pra pensar que por mais sacrificante que seja, tem sentido no que faço e eu gosto de ser professor, me recuso a me entregar ao cinismo ou ao fatalismo. Pra além disso, me dei conta de que em milhares de salas de professores do Brasil, ontem, tinha um senhorzinho defendendo um golpe de agora e a ditadura civil militar de então, algum direitista (que ainda não sabe que é direitista) falando sobre pedaladas fiscais, alguns outros direitistas rindo do circo que foi a votação do impeachment, gente que não participa da mobilização dos professores e ainda fica ressentida com quem participa. Estatisticamente e empiricamente nós sabemos que isso é verdade. Sem falar no assédio moral que é corriqueiro nas escolas, no nepotismo na SEDUC e no clientelismo na escolha dos diretoras e diretoras.
Concluindo, essa escrotidão não é privilégio de Manaus (apesar de aqui ser mais provinciano que Belém) e como alunos de História, nós, apesar de estarmos envolvidos e sofrendo com esses eventos, precisamos refletir sobre o contexto maior e sobre durações mais longas, do contrário, podemos bem ser como os leigos que ficam reféns da enxurrada de chorume de eventos produzidos pela velha mídia, que tenta reduzir o debate público de acordo com seus interesses.
Esse processo vem se desenrolando desde a Carta ao povo brasileiro e a traição que o Lula e sua corrente no PT fizeram aos trabalhadores, a todas as pessoas verdadeiramente de esquerda que construíram o partido e se orgulhavam dele.
Vamos estudar, conversar, nos mobilizar e nos manifestar, isso é mais eficaz do que nos entregar a histeria. A luta continua! Mesmo que seja simplesmente para viver ou tentar ajudar nossos semelhantes a terem uma vida mais digna e com mais direitos. Olhando as crianças pra quem dou aula, sei que isso não é inútil. Receber apoio dos meus companheiros de profissão e de luta também renova as minhas esperanças.
sábado, 9 de abril de 2016
Como ser professor sem elouquecer?
Vi um meme que defendia a ideia de que ser professor em um país que não valoriza a educação é uma forma de resistência. Entretanto, vivendo em um estado: onde não existe sindicato de verdade; onde é preciso explicar pra professor (aliás, os mesmos são defensores ardorosos da militarização/privatização da educação pública) que direito social não cai do céu (!); que deu medalha de direitos humanos pro Bolsonaro; onde alunos cristãos fundamentalistas se recusaram a fazer um trabalho sobre religiões afro, enfim, nesse contexto todo, ser professor as vezes parece mais ser uma disposição de espírito quixotesca ou niilista.
Não me entenda mal, isso não é auto piedade, ou, muito menos, um pedido pela piedade de ninguém, até porque não sei qual das duas é mais sem sentido. A questão é: como viver em um contexto tão hostil, manter a sanidade e a visão de um contexto mais amplo? Acho que é justamente incomodar a maioria à ação. Tentar trabalhar no limite do possível, tanto no sentido político, quanto no cotidiano de educador (sou rodeado por coxinhas, mas também trabalho em uma escola que ainda não tem livros didáticos e estamos em abril! Ah, e que supostamente é bilíngue, mas só os alunos da sexta série tem aulas de japonês. Sem falar que não possui impressoras pros professores passarem atividades e provas, ou seja, temos que pagar pra trabalhar).
Por último, continuar apoiando a luta coletiva das professoras e professores que não são acomodados/submissos e fatalistas. Acho que só isso pode preservar a esperança e algum significado para esse trabalho, apesar de manter em mente que esse contexto não é algo que pode ser mudado da noite pro dia. Isso me parece melhor do que ficar reclamando de braços cruzados.
Por último, continuar apoiando a luta coletiva das professoras e professores que não são acomodados/submissos e fatalistas. Acho que só isso pode preservar a esperança e algum significado para esse trabalho, apesar de manter em mente que esse contexto não é algo que pode ser mudado da noite pro dia. Isso me parece melhor do que ficar reclamando de braços cruzados.
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