Caminhando
na rua, comecei a perceber um bicho esquisito. Tinha um jeito de se portar e um
olhar diferente. Ia descendo uma rua do centro, impassível, entre belas
jovens e mulheres, entretanto, em nenhum momento esse mamífero
improvável disse alguma obscenidade, interpelou, ou atrapalhou de qualquer forma
o trajeto dessas pessoas.
Fiquei
tão intrigado que intensifiquei meu olhar e consegui decifrar os recantos mais íntimos
da mente desse espécime. Ele nunca tentou manipular suas semelhantes para as fazer
acreditar que era seu amigo. A ideia de tentar manipular outras pessoas para
conseguir relacionamentos, companhia ou sexo lhe parecia absurda. Não entendia
como um macho poderia fazer isso e, ao ser rejeitado, pensar que era um “cara
legal” que foi injustiçado por uma “puta”, ou outro termo curioso que esses
cérebros cheio de testosterona e excremento inventam.
Ele
me olhou e naquele instante eu sabia que esse ser nunca se arrogaria direitos
de proprietário sobre o corpo alheio: de namoradas, esposas ou ex-companheiras.
Ele era belo e sensível demais para forçar o seu desejo sexual sobre uma pessoa
vulnerável que não estava em condições de consentir (por ser menor de idade,
por estar inconsciente ou embriagada; ou se aproveitar de qualquer outra
relação de poder desigual, se utilizar da hierarquia para fazer valer
impulsos vis e animalescos).
Estava andando ao
lado desse ser brilhante e inspirador. Ele não era eu, talvez fosse o que o meu
filho pode ser, ou mesmo, o filho dele. Espero dar alguns passos nessa
trajetória e sobreviver nessa ideia, compartilhada por diversas pessoas. Talvez nós inspiremos outras gerações a superarem nossas limitações e barbárie.