quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Animal raro na Amazônia e no mundo

Caminhando na rua, comecei a perceber um bicho esquisito. Tinha um jeito de se portar e um olhar diferente. Ia descendo uma rua do centro, impassível, entre belas jovens e mulheres, entretanto, em nenhum momento esse mamífero improvável disse alguma obscenidade, interpelou, ou atrapalhou de qualquer forma o trajeto dessas pessoas.
Fiquei tão intrigado que intensifiquei meu olhar e consegui decifrar os recantos mais íntimos da mente desse espécime. Ele nunca tentou manipular suas semelhantes para as fazer acreditar que era seu amigo. A ideia de tentar manipular outras pessoas para conseguir relacionamentos, companhia ou sexo lhe parecia absurda. Não entendia como um macho poderia fazer isso e, ao ser rejeitado, pensar que era um “cara legal” que foi injustiçado por uma “puta”, ou outro termo curioso que esses cérebros cheio de testosterona e excremento inventam.
Ele me olhou e naquele instante eu sabia que esse ser nunca se arrogaria direitos de proprietário sobre o corpo alheio: de namoradas, esposas ou ex-companheiras. Ele era belo e sensível demais para forçar o seu desejo sexual sobre uma pessoa vulnerável que não estava em condições de consentir (por ser menor de idade, por estar inconsciente ou embriagada; ou se aproveitar de qualquer outra relação de poder desigual, se utilizar da hierarquia para fazer valer impulsos vis e animalescos).
Estava andando ao lado desse ser brilhante e inspirador. Ele não era eu, talvez fosse o que o meu filho pode ser, ou mesmo, o filho dele. Espero dar alguns passos nessa trajetória e sobreviver nessa ideia, compartilhada por diversas pessoas. Talvez nós inspiremos outras gerações a superarem nossas limitações e barbárie.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Uma noite ruim e dois ovos podres

Tive uma noite meio ruim. É, esse blog tem tomado um tom de “querido diário”, já me adianto ao seu julgamento, ou o que eu penso que seria o seu suposto julgamento, querid@ leitor(a). Talvez, realmente, quem saiba, o meu conteúdo seja bem pubescente (será?). Acho que no futuro posso escrever sobre Baudelaire e literatura francesa do século XVIII e XIX (ou algum tema nessa linha Darntoniana*).
Pois é, depois de fazer toda essa divagação, tive uma noite meio ruim. Cheguei em casa e fui fazer um omelete de atum. Separei 3 ovos. Quebrei um ovo, tudo bem, depois quebrei o outro, só que ele estava podre. Enojado, joguei essa bagaça fora. Fiz o mesmo processo de novo, porém, aconteceu a mesma coisa, na mesma ordem. Eu poderia ser supersticioso, ter um pensamento mágico e relacionar os ovos podres com a minha noite ruim. Para botar de outra forma, poderia ser místico, ou, pra dizer o que eu realmente penso sobre essa categoria: pessoa ocidental, privilegiada e com nível superior, mas que tá cagando pro método científico e acredita em milagres, horóscopo ou em um deus pessoal que responde às suas orações, mas não tem muito tempo para resolver as atrocidades que os macacos sem pelo cometem.
Esse é o ponto da discussão/divagação que tenho que alertar que estou falando sobre religiões monoteístas hegemônicas. Eu sei que europeus, gringos e brancos se utilizam/ram da ciência para justificar colonialismo e opressão dos povos indígenas, africanos e asiáticos.  Eu sei que a produção científica não é neutra e que muitos intelectuais estão/estiveram do lado de impérios e legitimam/legitimaram inúmeras opressões.
Dito tudo isso, sei que tem, talvez, um milhão de pessoas que foram cozinhar ovos e tiveram o azar de quebrar ovos podres. Nesse universo, estou entre as pessoas que tiveram uma noite ruim. Talvez eu seja um cientificista e uma série de outras coisas escrotas, mas me lembrei que se você botar o ovo em um copo d’água e ele não boiar, então tá de boa, por que só ovos podres boiam, parece que as bactérias produzem metano e isso faz a podridão flutuar [insira uma metáfora bonitinha]. Segui esse conhecimento e, muito importante, passei um pouquinho de óleo na coisinha de fazer omeletes e ele não se despedaçou, aparentemente é uma falha de caráter se você deixa ele se despedaçar.


*Robert Darnton, historiador gringo.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O aborto masculino


      O aborto masculino nunca é posto em evidência no debate público, o que diz muito sobre a nossa sociedade.Por isso aquela frase de protesto faz tanto sentido: anticoncepcional para não engravidar e aborto legalizado para não morrer.

     É impressionante que quando um pai solteiro cumpre a obrigação dele (se tanto), é um herói. Agora quando é uma mãe solteira, a coisa muda de figura, recaem uma série de preconceitos sobre ela, o seu caráter e seu direito de exercer sua sexualidade são policiados e escrutinados.
     Quando um pai aborta, isto é, se desobriga dos seus deveres, aí surgem teses filosóficas em defesa da negligência, egoísmo e irresponsabilidade masculinas. Se um dia eu tiver a sorte de ter filhos, espero criar um filho com a mesma noção de responsabilidade e cobrar dele as mesmas coisas que cobraria de uma filha.

http://www.geledes.org.br/a-safada-que-abandonou-seu-bebe/#gs.Gp5onxQ

Um beija-flor na janela

Saí do quarto e tinha um beija-flor na área aqui de cima. Me aproximei e olhei ele melhor. Estendi a mão devagar e abri a janela, ele voou e desapareceu no céu.
Só sei que foi uma boa forma de acordar, mágica de certa forma, e me senti bem.

Alguns comentários sobre Castaway On The Moon

Achei do caraleo esse filme. Os dois personagens principais: um homem que tenta se matar pulando de uma ponte, mas acaba em uma ilha no meio da cidade. Uma mulher que não sai do próprio quarto em 3 anos.
Curti a história de amor, mas para além do "amor heteronormativo redentor", o filme me tocou, porque ele fala (ou faz alguma alusão) sobre solidão, expectativas internas/externas de sucesso e a busca por aprovação e se encaixar em uma sociedade absurda e opressora. 
É muito empolgante ver o homem abrindo mão de documentos e, principalmente, cartões de crédito que restringiam a liberdade dele. Depois disso, a gente fica meio que ao lado dele, pensando como sobreviver com o mínimo possível.
Filme pra ver com a namorada ou ao menos um (a) amig@, pra você que é forever alone ( um(a) gato (a) também é uma boa companhia). Me lembrei de Little miss sunshine, que revi recentemente com a minha namorada.

https://www.youtube.com/watch?v=QrGvhwwWP8Q&feature=youtu.be

sábado, 3 de outubro de 2015

Um filme e um documentário que se complementam

https://www.youtube.com/watch?v=uiamX7iYdRE
"Labirinto de mentiras":Um filme bom sobre o julgamento dos nazistas no pós-guerra e a importância da preservação da memória para que a democracia possa amadurecer e formar uma sociedade mais justa. Algo que não ocorre com a memória da escravidão no Brasil e nem mesmo com a Ditadura civil-militar, porque torturadores foram anistiados.
Só destaco o documentário "Difamação", no qual o autor destrincha o uso do Holocausto, pela direita israelense, para dar carta branca ao governo israelense e silenciar as pessoas que se opõe ao colonialismo e ao apartheid imposto por Israel ao povo palestino.
A forma de tentar calar as pessoas:botar as pessoas que fazem críticas legítimas ao governo israelense, com neonazistas e outros tipos de grupos de ódio. Inclusive, um intelectual como  Norman Finkelstein (cujos pais são sobreviventes do Holocausto) já foi tachado de neonazista, barrado de entrar em Israel e teve sua carreira acadêmica sabota por grupos sionistas norte-americanos.
Para quem é professor, é bem interessante a reflexão que os  sobre a doutrinação que os educadores fazem com as crianças israelenses, ao incentivarem a crença do excepcionalismo do povo judeu e do genocídio perpetrado pelos nazistas. Além de incentivarem nos jovens um clima de medo e a crença de que o neonazismo ainda é muito proeminente no mundo.  
https://www.youtube.com/watch?v=KwVe0-yS3d0

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Masculinidade/ manhood

Não consigo chorar sem álcool. No máximo, choro em situações extremas ou em enterros, mas nem sempre. Geralmente presencio o sofrimento de pessoas próximas sem externar nada, mas compartilhando a dor e com a minha mente borbulhando.
Fui criado pela minha mãe, nunca fui tolhido por demonstrar meus sentimentos e ideias, muito pelo contrário. Acho que essa minha “constipação emocional” é algo cultural, algo que introjetei subconscientemente, dos meus parentes homens ou da nossa sociedade.
Já tive uma namorada chorona. Sempre invejei ela por ter essa válvula de escape. No meu caso, só posso chorar nas ocasiões supracitadas. Se falar questões desse meu universo interior e das minhas emoções, por álcool ou não, sinto vergonha.

É uma pena que sejamos tão retardados emocionais. Gostaria de poder demonstrar mais livremente o meu afeto e ser livre pra ser o que eu quisesse, isso é algo a ser construído. A questão toda é: provavelmente tem outros homens que se sintam como eu. Vamos fazer algo a respeito.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Meio sentimental e meio racional

Engraçado as substâncias que o nosso cérebro libera quando nos exercitamos. Não sei se foi só impressão minha e estou relacionando coisas sem relação. Os humanos costumam fazer isso, segundo um comediante falou. Cai um raio e as pessoas não sabem que é um rolo lá com eletricidade, então criam deuses e mitologia para explicar isso (para mim o monoteísmo também é isso, só para deixar claro).
Enfim, divaguei, estava voltando da caminhada. Passando pelo ponto que gosto, a Oliveira Belo com a Generalíssimo. Curto por causa das árvores da Oliveira; por causa da Santa Casa e da História que está impregnada ao nosso redor, mesmo que desconheçamos ainda; pelo bar Paladino e também por um relato, contado por um tiozão reaça, sobre como costumava ser a Generalíssimo. Por que isso me fez pensar no passado recente de Belém e da relação da minha família com ele, especialmente os que já se foram, mas também os que, felizmente, ainda estão presente e em todas as pequenas partículas de vida, com seus segredos, sonhos, pesares e alegrias, que fizeram parte da vida da minha mãe.

Durante a caminhada temos alguns momentos de clareza, momentos estáticos ou o que quer que seja, por olhar as pessoas ao redor, o céu e os detalhes da cidade. Bom, lá estava eu naquele ponto, limpando o suor dos olhos, cansado e esperando o sinal abrir. Quando me veio uma lembrança de quando era criança/pré-adolescente. Um garoto mais ou menos da minha idade, pardo ou negro, não me lembro, e provavelmente pobre, furtou a bolsa de uma mulher jovem. Eu voltava do colégio e presenciei o desfecho: um trabalhador braçal, também pardo ou negro, tinha agarrado o garoto e batia nele, enquanto a mulher aflita pedia para ele parar. No momento, não tive maturidade para fazer nenhuma reflexão além do susto e medo da situação. Agora, com alguns anos a mais de vivência e educação formal, já posso avaliar melhor a situação.

Agora é o ponto em que eu poderia discutir sobre o fenômeno do “pobre de direita/conservador”, do papel dos programas policialescos no desenvolvimento dessa mentalidade de turba linchadora, mas prefiro somente reconhecer os meus privilégios de classe, raça/etnia e gênero. Tive acesso à educação de qualidade (bom, ao menos instrumental para formar mão-de-obra qualificada); tenho uma família estruturada; nasci com a cor, gênero, orientação sexual e a classe social certas para meus direitos e dignidade serem reconhecidos. Me pergunto onde esse garoto, que cometeu um crime, mas que não perdeu sua humanidade e nem seus direitos humanos básicos e fundamentais, está hoje? Provavelmente morto ou preso. 
Acho que sou grato pelas oportunidades que me foram dadas e espero fazer algo, por menor que seja, para viver em um país menos desigual e que valorize a vida acima da propriedade privada.