domingo, 16 de outubro de 2016

A minha irmã e eu acreditávamos que maturidade não existe. As pessoas só envelhecem. Se embrutecem, mais ainda do que já eram. Ninguém é vinho, o sonho do pequeno burguês, não, nós somos leite esquecido em uma caixa aberta que empesteia a geladeira.
Ela e eu achávamos que as pessoas não são vinhos, não amadurecem, não melhoram. Elas são leite: podre, rançoso e algo distorcido do que costumavam ser.
Talvez eu seja esse leite. Ou talvez não.Ainda sinto a opressão de sempre no meu âmago, essa sensação que não me deixa ser acomodado e nem uma pessoa escrota que vive muito satisfeita com a sua idiotização e por ser um opressor. Posso ainda ser um idiota, mas ao menos sempre minha mente se pergunta pq sou do jeito que sou.
Acho que isso não importa de verdade. Até certo ponto, ficar mais maduro é bom, mas nós, em grande medida, ao envelhecermos, perdemos nossa identidade, autenticidade e alegria de viver.
Envelhecer é sentir vergonha dos teus defeitos, mas também, principalmente, é sentir vergonha de quem você é e do que você fala e faz.
Pra gente, uma criança, as vezes, é algo ridículo. Entretanto, já parou pra pensar que elas são livres, humanas, sensíveis e reais?
A gente vai amadurecendo, alguns de nós tentam ser pessoas menos escrotas.
Até certo ponto, envelhecer significa ser conformista e opressor.
Uma menina de 12 anos colou na minha mesa, na sala de aula. Já parou pra pensar que a atitude dela não é absurda, mas sim a nossa resignação em seguir regras burras, rotina e regras de gente que quer que profs e pobres se fodam?
*a escola, até certo ponto, é um ambiente pras pessoas se encaixarem em algum modelo útil pra plutocracia mais recente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A flor de ontem

Sonhei com o sítio do meu tio. O igarapé que antes se podia pescar, agora era um esgoto das casas que foram ocupando esse espaço.
Nunca houve esse igarapé no sítio do meu tio. De repente, é o igarapé no Xingu, na terra grilada pelo cara que engravidou a minha mãe.
Estava num ônibus aqui em Manaus e pensei  sobre a vida de assalariado. A maioria de nós vende o pouco tempo que temos aqui fazendo algo que odiamos. A vida adulta se resume a tédio, repetição, obrigação e monotonia.
Nós todos somos essa flor. Éramos uma semente. Brotamos  e nos expomos em um mundo burro e violento. Cada passo que damos nos aproxima do momento em que seremos descartados em um lixo e substituídos
Depender de outra pessoa é uma merda, mas ninguém avisa a gente que se emancipar só significa dar o "play" em um jogo da vida adulta. Esse teatro se consiste em cenas após cenas, cada uma mais difícil que a anterior. Os "atores" ficam tão cansados que esquecem que um dia tinham sonhos. Seguem como autômatos nessa rotina massacrante. De passo em passo, todos sozinhos, até o fim da linha no abatedouro. Provavelmente essa imagem não é a mais adequada, mas nós não deixamos de ser gado nos encaixando nesse sistema.
Dia após dia, como um vazamento em uma torneira, nossa vida escorre pela calçada. Esse dia não foi melhor nem pior que o anterior. Talvez um dia a gente acode e perceba que tudo só vai ficar pior a partir de agora. A gente percebe que nossos amigos eram distrações pra eles e pra nós. Nós gastamos nossas horas tentando nos encaixar em  modelos e receber aprovação. Quem sabe até a gente pode conseguir outras pessoas pra lamberem as nossas botas. Um dia vamos todos usar fraldas geriátricas, a papa batida que vão empurrar goela abaixo da gente tem a mesma consistência que essa baboseira que acreditávamos enquanto éramos jovens.Nós somos flores esperando o descarte. A flor de ontem é uma lembrança dos nossos sonhos. Murchos, apodrecendo e pálidos, algo que nos constrange porque sentimos e que não se adapta com a nossa realidade atual, mas também uma lembrança de coisas que tentamos fazer e não deram certo, pela nossa falta de vontade, ou por que era afrontoso demais ao nosso meio. Talvez um dia a gente ande descalço em um gramado sem fim, cheio de árvores frutíferas e com pessoas humanas. Vamos deitar na grama, sentir o vento e olhar o céu. Isso é a paz.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Quem sou eu?

Mais do que esse clichê batido de metamorfose ambulante. Acho que alguns traços da nossa personalidade são como pedras. Pedras expostas à chuva ácida e  sujeitas ao capricho de babuínos com marretas que, intencionalmente, tentam nos esmagar. A gente vai se moldando a esse mundo hostil, brutal e caótico ao nosso redor, podemos nadar contra a corrente e manter nossa humanidade e nossos ideais. Claro, conforme envelhecemos, vamos encontrando um meio termo entre a idealização e a prática.
Esse é o ponto mais assustador de entrar na vida adulta (se você tem um pingo de sensibilidade que seja e/ou é de esquerda), me encontro nesse lodaçal tortuoso, bastante tolkienesco, em que vários que caíram ao longo do caminho (ou nem sabiam que existia outro caminho, além de olhar para os seus pés presos na lama e esqueceram o céu, não algo bobagem religiosa, mas como um símbolo das possibilidades que podemos buscar e que por sermos sujeitos históricos, temos um potencial transformador, mesmo que, as vezes, não seja suficiente para alimentar a nossa megalomania) precisam nos segurar para se sentirem seguros em sua zona de conforto, na sua desistência em buscar o papel social do educador e na manutenção da utopia de um mundo mais justo, humano e fraterno.

Até certo ponto, a influência externa, as centenas de pequenos probleminhas nos vão deixando cansados, as pessoas que constroem barreiras para o nosso avanço profissional, os colegas (os poucos que respeitamos) que se entregaram a esse  conformismo, tudo isso é importante. Entretanto, aprendi há algum tempo que somos sujeitos da nossa própria vida, parece baboseira, mas foi o que me fez quebrar barreiras auto impostas, ou construídas por terceiros. Nós temos que assumir o protagonismo da nossa vida, não com complexo de super homem ou de deus. É mais sensato buscar a proximidade com pessoas que tem esses mesmos anseios e fortalecer propostas pedagógicas, as quais devem ser mais ligadas com a realidade dos nossos alunos, do país em que vivemos e do contexto histórico conturbado e de retrocesso pelo qual estamos passando.

Agora a parte que dos dados repetitivos e que não necessariamente revelam muita coisa: sou um jovem adulto de 29 anos (lá se vão meus 20), muita coisa aconteceu nesse tempo, uma dose cavalar de sofrimento e humilhação (bullying etc e tal, além de outras coisas muito pessoais). Eu gosto de dar aula, mas aquela aula em que os alunos são cativados, tentam participar e é algo prazeroso para nós. Eu gosto de ler. Historiografia prefiro os autores que não se acham importantes de mais e esqueceram completamente a objetividade do método científico, ou seja, não gosto de quem tem um ego inchado e escreve de forma chata e esotérica. Um dos últimos livros que me cativou foi "Caetana diz não", da Sandra Lauderdale (procurem aí).
Ando sem lenço, nem documento pelas ruas de Manaus, mas apesar: do povo mala (alguns eram gente boa) que me indispus; desse ser o meu primeiro ano; do choque cultural; da ausência de família e amigos; do isolamento, enfim, eu continuo de pé e nem um filho da puta vai me derrubar.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A futilidade de tudo

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-180314/
Um amigo de trabalho me indicou o filme. De fato, é bastante parecido com a realidade da maior parte dos trabalhadores. Nós vendemos o nosso tempo para podermos existir e sobreviver. Muitos de nós somos condenados a fazer trabalhos repetitivos, enfadonhos e burocráticos para o resto das nossas vidinhas cinzentas. Quando esse momento final chega, pra quem não acredita no homem mágico no céu, algumas dessas pessoas se dá conta de que não fez absolutamente nenhuma diferença para tornar o mundo um lugar menos injusto, bárbaro e violento (violência física ou simbólica).
Muitos conseguiram viver burguesmente. Foram bons consumidores e ajudaram a reforçar essa lógica capitalista predatória e desumana. Outros votaram no fantoche da direita ou da EXquerda e participaram da farsa da "democracia" representativa burguesa.
Vivemos cercados por linhas imaginárias que nos dividem, aprisionados por desejos consumistas que nos foram incutidos desde jovens e pelo medo de fugir da "normalidade" que nos doutrinaram na Família, Igreja, Mídia e Escola. Bovinamente seguimos em frente, juntando dinheiro pra comprar o carro do ano, comprar um vinho caro, viajar pra Europa e preencher um vazio que é impossível de ser preenchido. Somente podemos esperar enquanto as pessoas que realmente controlam tudo nos impulsionam em uma corrida desvairada rumo à nossa própria extinção.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Como botar em palavras toda a vida?!

Caí.A minha perna e a parte a cima da minha cintura ficaram rochas e depois verdes. A dor passou e segui o meu caminho. As últimas gotas de chuva caíam, as cores de um dia novo e a possibilidade de eu construir castelos de areia se escondiam mais a frente.
Ser professor se parece com construir castelos de areia. Tem bastante trabalho tedioso, pode vir algum moleque e chutar o teu trabalho, talvez até a tua mão. Por outro lado, podemos achar alunos que queiram nos ajudar a construir. Isso nos dá ânimo pra seguir em frente, apesar de toda a indignidade e assédio moral.
A analogia de que somos castelos de areia, lentamente sendo consumidos pelo mar, ou levados para algum lugar distante, não me parece lá muito original, nem mesmo a de que nós olhamos demais para o céu ou para terra. Talvez, algo mais verdadeiro seria dizer que as vezes eu sinto um grande vazio, como um buraco dentro de mim, uma falta ar, um pedaço faltando, ou uma sensação incômoda de que algo está faltando pra girar as minhas engrenagens, ou que talvez tudo esteja errado.
Nada disso seria novidade se eu dissesse que me sinto sozinho mesmo rodeado de gente, por isso ser verdade desde que era criança, mas também porque isso já foi dito milhares de vezes por outras pessoas. Acho que o que seria uma tentativa melhor de fazer essas palavras falarem e levarem algum resquício da minha vida e da minha angustia é dizer que, as vezes, meus olhos parecem cobertos de cataratas e sob esse véu leitoso eu olho e escuto as pessoas ao meu redor, enquanto a minha mente some para algum lugar que lembre vagamente a dor na costa que costumo sentir.
Isso tudo parece uma grande reclamação, de fato, parece por que é mesmo. Se você não sentiu insatisfação em algum momento, talvez você seja burr@ demais pra estar viv@. Por outro lado, todo esse lamento e pesar seja a expressão de algo que não tem nome. Esse sensação de ser o vira-lata que busca comida no lixo, mas também o passarinho colorido que pousa no fio elétrico e voa pra onde a sua vontade o empurrar. Gosto de matar carapanãs, uma prof me perguntou se eu já tinha testado a minha sanidade, outra já falou em tom jocoso sobre a imaginária loucura dela e tarja preta como forma de intimidar os alunos. Tente tirar sentido desse texto, ou de eu ter escorregado de uma escada e batido a minha costela e torcido o pé, até gatinhos sendo moídos pode ser algo engraçado se tiver a música correta e uma boa dose de doutrinação sobre o que é certo e errado.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

E agora?

Pra quem é estudante de História, acho que todos nós estamos em um estado de estupor e incredulidade. Golpe parecia algo que poderia ocorrer em um país predominantemente rural, onde não tinha internet e o Estado era ainda mais autoritário do que agora. Isso parece uma piada de mau gosto. Na verdade, tá mais pra uma tragédia anunciada por aqueles microfones voadores do Globo repórter, porém depois do choque nós já pensamos em toda as repercussões que essa quebra do Estado democrático de direito representa.
Professores reaças ou analfabetos políticos falam que o Cunha é o próximo, essa ingenuidade e/ou canalhice é tão deprimente que até me bate uma sensação de vazio.
Depois dessa sensação de absurdo, desse choque de realidade sobre a nossa cultura política e as nossas instituições autoritárias e sem espaço para a participação popular, enfim, depois que conseguiram empurrar esse porco putrefato pela primeira porta rumo à suspensão da nossa "democracia" representativa burguesa, precisamos nos organizar e protestar. Acho que a nossa geração não vai mais poder romantizar ou idealizar 64, nós estamos sentindo um outro tipo de amargor e assalto aos nossos direitos e esperanças por um país menos desigual e conservador.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Tabula rasa


Sabe, hoje dei minhas aulas e parei pra pensar sobre alguns comentários que fiz. Acho que preciso pedir desculpas pelo ódio que destilei contra Manaus, não que o povo daqui não seja mais conservador do que o de Belém, por que é sim, mas, simplesmente por que misturei as coisas. Estou longe da minha família e amigos, as poucas pessoas legais que conheci aqui, ainda não fiz amizade além de facebook e da gente se esbarrar em manifestação. Enfim, não digo isso por auto piedade, é só que imigrar é foda. Acho que tem algo de muito errado com os gringos pra isso ser tão natural pra eles. Minhas raízes tão em Belém, apesar de não comer açaí, não dançar carimbó e nem ser um hipster, branco de classe média e barrista.
Divago... agora, cansado depois de um dia exaustivo respondendo que: sim,é pra copiar, ou mandando curumim se sentar, ou evitando que eles se quebrem na porrada. Parei pra pensar que por mais sacrificante que seja, tem sentido no que faço e eu gosto de ser professor, me recuso a me entregar ao cinismo ou ao fatalismo. Pra além disso, me dei conta de que em milhares de salas de professores do Brasil, ontem, tinha um senhorzinho defendendo um golpe de agora e a ditadura civil militar de então, algum direitista (que ainda não sabe que é direitista) falando sobre pedaladas fiscais, alguns outros direitistas rindo do circo que foi a votação do impeachment, gente que não participa da mobilização dos professores e ainda fica ressentida com quem participa. Estatisticamente e empiricamente nós sabemos que isso é verdade. Sem falar no assédio moral que é corriqueiro nas escolas, no nepotismo na SEDUC e no clientelismo na escolha dos diretoras e diretoras.
Concluindo, essa escrotidão não é privilégio de Manaus (apesar de aqui ser mais provinciano que Belém) e como alunos de História, nós, apesar de estarmos envolvidos e sofrendo com esses eventos, precisamos refletir sobre o contexto maior e sobre durações mais longas, do contrário, podemos bem ser como os leigos que ficam reféns da enxurrada de chorume de eventos produzidos pela velha mídia, que tenta reduzir o debate público de acordo com seus interesses.
Esse processo vem se desenrolando desde a Carta ao povo brasileiro e a traição que o Lula e sua corrente no PT fizeram aos trabalhadores, a todas as pessoas verdadeiramente de esquerda que construíram o partido e se orgulhavam dele.
Vamos estudar, conversar, nos mobilizar e nos manifestar, isso é mais eficaz do que nos entregar a histeria. A luta continua! Mesmo que seja simplesmente para viver ou tentar ajudar nossos semelhantes a terem uma vida mais digna e com mais direitos. Olhando as crianças pra quem dou aula, sei que isso não é inútil. Receber apoio dos meus companheiros de profissão e de luta também renova as minhas esperanças.

sábado, 9 de abril de 2016

Como ser professor sem elouquecer?

Vi um meme que defendia a ideia de que ser professor em um país que não valoriza a educação é uma forma de resistência. Entretanto, vivendo em um estado: onde não existe sindicato de verdade; onde é preciso explicar pra professor (aliás, os mesmos são defensores ardorosos da militarização/privatização da educação pública) que direito social não cai do céu (!); que deu medalha de direitos humanos pro Bolsonaro; onde alunos cristãos fundamentalistas se recusaram a fazer um trabalho sobre religiões afro, enfim, nesse contexto todo, ser professor as vezes parece mais ser uma disposição de espírito quixotesca ou niilista.
Não me entenda mal, isso não é auto piedade, ou, muito menos, um pedido pela piedade de ninguém, até porque não sei qual das duas é mais sem sentido. A questão é: como viver em um contexto tão hostil, manter a sanidade e a visão de um contexto mais amplo? Acho que é justamente incomodar a maioria à ação. Tentar trabalhar no limite do possível, tanto no sentido político, quanto no cotidiano de educador (sou rodeado por coxinhas, mas também trabalho em uma  escola que ainda não tem livros didáticos e estamos em abril! Ah, e que supostamente é bilíngue, mas só os alunos da sexta série tem aulas de japonês. Sem falar que não possui impressoras pros professores passarem atividades e provas, ou seja, temos que pagar pra trabalhar).
Por último, continuar apoiando a luta coletiva das professoras e professores que não são acomodados/submissos e fatalistas. Acho que só isso pode preservar a esperança e algum significado para esse trabalho, apesar de manter em mente que esse contexto não é algo que pode ser mudado da noite pro dia. Isso me parece melhor do que ficar reclamando de braços cruzados.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Realidade demais 2

O diretor falando que quem tiver 3 atrasos consecutivos vai levar falta (qual o respaldo em legislação pra esse absurdo? Foi o que pensei na hora que ouvi); não podemos pagar faltas depois que o mês acaba; falei que era muito trabalho ter que carregar a tv pras salas de aulas (não existe uma sala de multimídia, só um auditório que vai acabar servindo como isso) e uma prof prontamente me disse que carregou sozinha (parabéns pra você, mas não estou exercendo o cargo de estivador, não que eu queira desrespeitar quem faz trabalho manual. Foi o que pensei) e outro logo que falou que a gente tem que se adaptar. Pois é, o que esperar de um meio que acha certo aceitar tudo o que alguém mais alto na hierarquia diz. Mesmo que não faça o mínimo sentido e até seja ilegal.
Ah e pra fechar com chave de ouro: retiro o que disse sobre dar aula numa escola de periferia. Dou aula onde boa parte dos estudantes são de periferia e da minha semi-periferia.
A escola de cima, Jacimar alguma coisa, essa sim é de periferia. Não tem guardas pra controlar a entrada das pessoas e garantir alguma pequena ilusão de segurança, por mais débil que seja.
Enfim, lá ia eu subindo a ladeira e vejo uma aglomeração de alunos da Jacimar. Um rapaz da escola estava com a maçã esquerda do rosto vermelha de um soco que levou. Ele carregava uma faca, pois, pelo que pude entender, alguém agrediu sua irmã.
Veio uma tiazinha da escola, sempre elas, com clitóris de aço, enxotou o moleque e seus amigos traficantes pé de chinelos da escola.
Ironia não tem fim: descendo outra ladeira escuto que o Ryan apanhou, justamente o nome do filho de um amigo meu, este também é prof. de História.
É realidade demais pra um dia. Não quero refletir e problematizar isso. Tô cansado demais. Prefiro pensar que hoje o aproveitamento das minhas aulas melhorou muito. Vou carregar a tv e passar "A guerra do fogo" pros moleques. É um clichê, mas estou meio saudosista.
Outro dia eu tento acumular capital emocional pra digerir o lado escroto dos dias.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Eu escolho viver consciente

Sou um cara branco, hetero, cis e de classe média. Sou prof de escola pública, isso é contraditório? Foda-se. Me sinto feliz e tranquilo por sentir que estou fazendo o que deveria estar fazendo e estou onde deveria estar.
Moro num bairro periférico de Manaus. Subo e desço ladeira todo dia pra dar minha aula. Faço parte da comunidade na qual dou aula.
Hoje, ouvi "Fim de semana no parque" do Racionais. Pensei na primeira escola que fui lotado, onde tinha uma menina na 7a série que é analfabeta, ou na história de uma menina de 14 que se envolveu com um homem de mais de 20 (estupro, né? E/ou pedofilia?) e está grávida; na escola que trabalho tem um garoto que já é pai, outro usa drogas e um terceiro é filho de traficante.
Eu bem poderia ser o playboy que as músicas deles citam, isso me incomodou inicialmente.  Depois parei pra pensar e vi que é a poesia de um povo oprimido e que é preciso contextualizar.
Por outro lado, não acho que tenham desculpa para o machismo escancarado para músicas deles como "Vadias", ou sobre o preto traidor da classe que consome roupas caras e "vadias" loiras. De certa forma, a violência do oprimido serve para nos conscientizar que vivemos em um país brutalmente desigual e segregado.
Não acho que mereça medalhas por desistir de alguns dos meus privilégios de classe, porém essa visão maniqueísta é bem simplista. Não foram (segundo Gabeira), em parte, jovens de classe média que se envolveram na luta contra a ditadura civil militar?  Entretanto, temo que isso soe parecido com um discurso "classe média sofre".
Outro dia ouvi Metallica, "The unnamed felling", depois "Purple Haze" do Jimmi Hendrix. Dias bons e dias ruins. Alguns dias da vida de "adulto" são tão amargos, poderia cuspir fel ou tomar um anti ácido pra ressaca da cerveja ansiolítico. Teoria, nossa formação e nosso aprendizado fora de classe, tudo flui pela privada quando você vomita depois de uma bebedeira de bud água. Um projeto político pedagógico feito em uma tarde e a militarização (privatização) do ensino. Bem poderia ser o Estado vomitando sangue ou chorume.
Subi e desci essas ladeiras de Manaus esses dias. Poderia ser Sísifo condenado a fazer uma tarefa inútil, ou, talvez, quem sabe, Atlas segurando o mundo nos ombros. Porém, esse romantismo juvenil e simplório não me afeta faz bastante tempo. Não sou vítima, pois sou sujeito histórico, e nem sou herói, pois não sou a pessoa que faz milagres para sobreviver em um país desigual, injusto e retrógrado.
Me lembrei de uma citação de Sartre, algo sobre a questão filosófica mais importante ser sobre decidir se você quer ou não se matar. Não li isso (não tenho tempo, energia ou ânimo pra ler mais um bunda mole francês colonialista), vi na série Fargo. Uma jovem cita isso, uma coroa (sempre os coroas com verdades prontas e certezas sobre tudo) diz que isso é bobagem de um francês. Nós temos que interpretar um papel na vida, segundo ela.
Acho que a maioria das pessoas passa pela terra como autômatos, sem saber quem são e nem quem ou o que as oprimem. Não se questionam sobre todas essas criações humanas ao nosso redor. Essas barreiras seriam tão frágeis se existissem mais pessoas que se permitissem voar pelo sonho e utopia. Porém, a realidade capitalista é essa coisa cinzenta, opressora e patética.
Cuspir fel, se embrutecer, virar fatalista, ou tentar achar algum sentido, ou significar as coisas, "racionalizar" tudo isso, me parece mais sensato. A maioria das pessoas que vivem vidas confortáveis e não saem de suas zonas de conforto não sabem que viver é uma escolha. Pra algumas pessoas, é uma batalha diária sair da cama e encarar um mundo limitador, opressivo e cheio de barbárie, pra outras é a urgência de uma barriga vazia, delx ou de seus filho@s.
Robin Williams cometeu suicídio, depois de anos vivendo com a depressão. Ele se enforcou. Pessoas mandaram fotos, via twitter, pra sua filha nas quais seu pai estava morto. Esse é o mundo que vivemos.
Pedro Paulo Funari diz que o mesmo país que produziu Hitler produziu Beethoven. Eu digo, dane-se essa postura colonizada. O Brasil produziu Bolsonaro, mas também "produziu" Cartola, Pagu, Zumbi e outras pessoas anônimas que tombaram em nosso solo e seu sangue formam a capilaridades que vão inundar e afogar fascistas, latifundiários, esquerdistas traidores e a limitação da "realidade" que aceitamos como se fosse imutável e não uma frágil e débil construção humana. Eu escolho viver consciente. Se você também escolher o mesmo, podemos dividir um guarda chuva e talvez os nossos pés molhados nos façam perceber que estamos conscientes.

sábado, 12 de março de 2016

Aos colegas professores


O que eu aprendi nessas semanas de docência foi simplesmente a ouvir. A reconhecer algumas qualidades importantes como: sensibilidade, comprometimento e vocação para o trabalho. Percebi que isso vem antes de outras coisas. Posicionamento político é fundamental, mas discursos desligados da prática são apenas fuligem ao vento.
Entretanto, não podemos nos posicionar como educadores se nos recusamos a refletir sobre a sociedade, sobre política e sobre o que essas instituições “democráticas” propõem como políticas públicas.
É aí que entra a minha grande divergência com muitas colegas e muitos colegas. Não concordo com a militarização da vida, nem com homofobia, machismo ou racismo na escola. Todo dia escuto sobre as deficiências dos alunos, todo dia vejo a discrepância entre a escrita deles e o aproveitamento da minha aula que varia de aluno para aluno, todo dia penso em como posso fazer melhor, mesmo isso sendo muito difícil( pelo cansaço e pelas minhas limitações). Porém, como podemos criticar os alunos por seus erros quando não temos nem a capacidade de fazer auto crítica?! Humildade é uma qualidade defendida aos 4 ventos, mas que é muito rara de se encontrar.
Eu estava me desgastando com as crianças, gritando e dificultando o meu trabalho, porém agora as vejo pelo que são: crianças.
Agora, qual a desculpa para um adulto reforçar preconceitos (os mesmos que os nossos tataravós já pensavam) em sala de aula?! Isso é o que tira as minhas forças e a de muitas e muitos educadores. Mesmo assim, é preciso lembrar que não estamos sós, que não devemos nos calar e que precisamos desenvolver uma rede de apoio, não só para resistir à violência e opressão, mas para crescer e plantar essas sementes. Criar parcerias e inovar. Uma professora de metodologia deu a ideia de trabalho de campo, um professor de japonês aprimorou a minha ideia de projeto de ciência na escola. Já perdi muito tempo rebatendo falácia e senso comum de quem não se preocupa com as mazelas da nossa sociedade. Agora quero gastar a minha atenção com quem procura alternativas.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Uma lágrima

Uma lágrima desceu do rosto de uma mãe. Caiu na costa da mão de seu filho. Talvez essa gota seja a coisa mais sagrada que possa existir em um mundo injusto e brutal.
Só uma gota pode conter todo o sofrimento do mundo, de todos os seres humanos que já se foram, de todas as palavras não ditas, ou as que foram desperdiçadas, por serem repetição ou violência.
Essa gota escorre pelo rosto, por um caminho tortuoso, é seguida por gotas que não aprenderam a decidir por elas mesmas. Talvez elas só respeitem esse caminho que todas elas tem que seguir, pois esse caminho marcado na pele já tem uma história de luta e  persistência.
Uma gota de água nunca foi tão universal quanto essas. Elas quebram as barreiras de tempo e espaço, quebram a insensibilidade, a hipocrisia e a arbitrariedade da condição humana.
Esses frágeis riachos correm no rosto dos seres humanos. Não gostaria de estar no interior de quem só veste um terno de pele humana. Viver é sentir essa dor, mas também é todas as coisas que dão sentidos a isso e que vão ou podem significar, ou que podemos tentar fazê-las significar algo, até que a gente feche os olhos pela última vez, ou abraçarmos essa mãe uma última vez. Talvez tudo isso tenha sentido aí.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Uma questão de geografia, história, teatro e percepção

Pensei que vir para Manaus seria um exílio, um degredo até. Por outro lado, antes disso pensava que seria um novo começo, longe de pessoas com ideias preconcebidas e o que eu pensava ser um ambiente acadêmico "provinciano". Hoje percebo como estava equivocado. Não é que um ou outro lugar seja melhor ou pior, mas o tempo e a "distância" que temos de questões dolorosas, humilhantes e ignóbeis.
Em Belém, durante  graduação e até muito recentemente, pensei que o meio acadêmico fosse uma questão de quem puxava saco melhor e de quem passava mais necessidade para aguentar assédio moral, de certa forma, ainda acredito que isso tem um fundo de verdade. Porém, meu amigo professor universitário e o professor da UFPA que me orientou quebram essa visão cinzenta de mundo. Aquele, por ser a pessoa mais disciplinada e metódica do meu ex grupo de amigos, sem falar que é uma pessoa humana realmente. O orientador por ser uma pessoa culta, politizada, compreensiva e que foi fundamental para eu conseguir finalizar essa fase tão tortuosa e sofrida da minha vida.
Poderia esbravejar contra as peixadas e os "esquerdomachos", ops, esqueci de falar sobre essa parte. preciso ser pedagógico. O que são "esquerdomachos"? Homens de esquerda e com educação formal, geralmente até o nível superior ou depois. Posso citar 3 casos: o 1o é o feminista de facebook e que tem um monte de fãs, mas que já agrediu uma ex namorada verbalmente (pensamos que ia chegar as vias de fato) e já foi acusado de ter agredido uma outra namorada (o esquerdomacho no 3 me contou); tem o no 2 que criticava até um peido meu, no período em que eu era só um pequeno burguês mimado, mas que continuou amigo desse cara supracitado, além de ter a petulância de julgar os outros; o 3o cara criticava os outros caras mais bem relacionados no meio acadêmico por poderem ser filhos da puta e saírem impunes (de fato, um deles transou com uma aluna de 13 ou 14 anos, varia a versão conforme quem é mais ou menos amigo dele), porém o no 3, ao menos na minha percepção, se revelou como uma pessoa que só se incomoda por não ter a liberdade de ser filho da puta, ou talvez, provavelmente, que só seja discurso e não tenha culhões ou clitóris para ter coerência na prática.
Sim, depois desse desvio de percurso, votamos ao caminho entre o mato, lama e as pedras da Colômbia, ou mesmo entre as ruas sem calçada e sinalização de Manaus. A vida que passou em Belém parecia cinzenta no período, pela depressão, claro, mas por que eu estava vivendo. Não é possível estar indo rio abaixo, num local desconhecido e ter todas as respostas. Agora sei que aprendi, ouvi um par ou mais de ótimos professores na UFPA, conheci pessoas únicas, peculiares, boas, ruins, verdadeiras, hipócritas, reais e de plástico. Tudo isso foi vida vivida. Uma bagagem para ser usada agora.
Poderia ter passado no mestrado e conviver com professores que falaram que: não discutiriam com uma moça pois o português dela é muito mal escrito; que só tal rock é música de verdade; que tá na moda gostar de porcaria (se referindo ao funk). Poderia ter que conviver com pessoas com nível superior, mas que compartilham Olavo de Carvalho, ou, pior, (talvez seja até mais constrangedor) que acreditam realmente em meritocracia no mestrado, os peixes, parentes e namorad@s de profs que o digam!
Talvez esse texto esteja amargo demais. Manaus, ou ao menos a docência aqui, é algo doce e amargo. Conviver com crianças e jovens e estar cercado de vida e de potencial humano é algo contagiante e que tirou o mofo, o cinismo e a sonolência de mim. Agora tem barulho e a urgência da vida ao meu redor, ao invés das excrescências de egos e adultos malformados e malparidos. Tudo ainda é novo, experimental e íntimo demais pra ser exposto aqui. Isso realmente é vida!


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Jesus era um esquerdista maconheiro

Deus estuprou Maria (a engravidou sem o seu consentimento), Jesus nasceu. Era um cara riponga, cabeludo e esquerdista. Não queria que apedrejassem uma mulher que viveu sua sexualidade de forma contrária do que a sociedade patriarcal de então (que se parece tanto com a de agora) prescrevia. 
Ele veio com um discurso paz e amor e contra o materialismo. Devia emputecer o pai dele, um militar, o ditador celestial, que deveria sofrer de algum distúrbio psiquiátrico muito grave, ou só era uma divindade muito cruel e sádica mesmo. Vira e mexe encomendava uns genocídios e inundou o planeta e matou até os pobres dos cachorros e gatos que só viviam a vida deles numa boa.
O Cristo deixou o pai reaça emputecido, aí este lavou as mãos onipotentes e deixou o filho ser crucificado pelos poderosos de então. Depois vieram homens e justificaram isso como um sacrifício pelos nossos pecados. Pois é, aparentemente bebês são pecadores, talvez porque nasçam de vaginas (com exceção de Jesus,  Maria o pariu e continuou virgem, teve gente que foi perseguido pela Inquisição por não acreditar nesse hímem milagroso), e rapaz....como esses homens que escreveram os textos odeiam as mulheres. Além do sangue que pode escorrer se você torcer a bíblia, é estupro, incesto e misoginia pra tudo quanto é lado. Ou talvez porque pra bebês nascerem, é necessário que duas pessoas fodam. Sexo consensual e prazeroso deve ser pecado. Talvez até a felicidade deve ser pecado pra esses homens violentos e tacanhos.
Passam uns 2 mil anos, aí tô aqui em Manaus, não dá pra girar um pedaço de pau sem bater em 3 igrejas evangélicas. A terra que deu medalha de direitos humanos pro Bolsonaro! (rs) Aqui perto de casa tem uma escola confessional com os dizeres: "O termor de Deus é o caminho do saber". Acho que rebanho e ovelhas é o termo apropriado para congregações religiosas, seguir cegamente os discursos de uma autoridade religiosa exotérica os torna muito eficientes em marginalizar, agredir e matar quem o livrinho de contos de fadas deles os diz para odiar. Estupro nem está entre os pecados capitais, isso já te faz pensar, né? Se bem que já tinha dito que as religiões monoteístas são patriarcais e odeiam as mulheres. Não que religiões afro ou indígenas também não tenham o potencial de serem opressoras também.
Felizmente veio Darwin e matou Deus.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

As coisas têm o significado que a gente dá pra elas, ou significar as coisas é o que nos faz humanos

https://www.youtube.com/watch?v=im6hPaxs_qw
Tava andando na rua aqui pelo centro de Manaus, perto do teatro Amazonas. Aí vi a uma placa "Palácio de Justiça" (ou Justice Palace para os gringos que vem pra esses mega eventos, pagos com enxurradas do nosso dinheiro público, e que de fato servem para engordar ainda mais aquela classe de bandidos chamada FIFA) Pensei: que nome apropriado, palácio lembra monarquia e o judiciário é um dos poderes mais antidemocráticos do nosso país, ao contrário do que acontece alhures, aqui ninguém é eleito, as pessoas recebem salários régios (imorais até, se você tiver um pingo de senso crítico).
Eu já até pensei em cursar isso e ser de classe média alta, porém, mesmo hoje em dia com as agruras que estou vivendo e as que ainda estão por vir, não me agrada a ideia de defender o Latifúndio, ser um burocrata sem alma, um gerente das elites ou simplesmente uma engrenagem que funciona no seu lugar predeterminado por Família, Igreja, Classe, tudo isso para manter as coisas exatamente como estão.
Lá estava eu, vi aquela placa e lembrei vários homens brancos que se hospedavam no mesmo hotel que eu, a perfeita imagem da meritocracia, eles e eu. Estavam na cidade disputando uma vaga para promotor público (não deixo de rir dessa classe média esquizofrênica que vota no PSDB, mas quer um emprego público). De todo modo, talvez isso soe recalque para você e se soar, pare de ler esse texto e vá para a puta que te pariu. Pra mim, só soa um pouco como a mesma coisa, os mesmos discursos, repetição e nada de original. Recentemente vi um esquerdomacho falando de burguesia, mas transou com uma paciente dele. Sem falar da multidão de gente que se diz de esquerda, mas o discurso não condiz com a prática, eu incluso.
É engraçado como as nossas mentes fazem conexões. Você já brincou disso? Pense em algo, isso te faz lembrar de algo e assim por diante, esse jogo pode durar um tempão. As vezes, no dia a dia, fazemos conexões com o que não tem nada a ver, desde algo que a tua visão periférica te engana e você pensa que é um espírito, até qualquer outra conexão sem pé nem cabeça que você já pode ter feito, ou podem ter feito sobre você.
Vi um comediante falando que nossas vidas são papéis que introjetamos, e que na verdade eles não passam de papéis, podem ser reescritos e moldados conforme a nossa vontade, bom, apesar do cara ser um europeu privilegiado, isso não deixa de fazer sentido, eu já interpretei o papel do cara endurecido e que não demonstrava afeto pelos meus amigos. Quais você interpreta? 
A vida tem muito de teatro, farsa, absurdo e ridículo. Nós assumimos papéis a maior parte da nossa personalidade, talvez até toda, se não tivermos muito cuidado, é moldada por influências externas.
Entretanto, para além de abstrações, existe a realidade: feia, dura e limitadora. Existe o nosso contexto histórico que não permite que voemos tão alto quanto podemos imaginar. Ainda é preciso explicar o óbvio. Algum coroa saudosista poderia dizer que a tecnologia nos aproxima, mas nos deixa mais isolados. Acho que sempre estivemos isolados, até a pessoa mais bovina e embrutecida está só em seu universo mental pessoal. Você nunca se sentiu rodeado de gente, porém completamente só? 
Divago e desvio do assunto, mas isso não é redação de ensino médio. A questão é que falar é mais fácil do que fazer. Anos e anos de dor, humilhação e disciplinamento nos fazem assumir papéis de gênero, classe e étnicos. Não é tão simples assim moldar isso. Tem gente que pode dizer o contrário, mas duvido que realmente acreditem ou vivem o que falam. Nem tudo é tão cinzento assim, hoje choveu, estava observando a chuva cair, as luzes da cidade e os garotos brincando na praça aqui perto de casa. No meio de tanta insensibilidade e barbárie podemos encontrara a beleza frágil, pude tomar café e compartilhar a chuva com meus semelhantes. No filme "A dama da água", um personagem relaciona a chuva com a purificação, para mim tem o sentido de transitoriedade, além de algo mais que ainda não descobri a palavra certa para a sensação de que passado, presente e futuro se encontram e a tristeza por de tudo que vivemos e todas esses momentos que não tivemos tempo ou sutileza de apreciar. Meu cérebro fez uma conexão e lembrei de uma tempestade de trovões (raios? relâmpagos? Ah! Que seja) no horizonte, enquanto estava num carro de tour, indo para o deserto de Uyuni, na Bolívia. As luzes cortavam o céu e não se ouvia barulho. Esses fenômenos existem há milhares de anos, mas eu presenciei isso. Tudo isso faz parecer surreal as criações humanas: dinheiro, rotina, trabalhos e tecnologias que fazem as pessoas infelizes (quando deveriam ser feitos para o nosso bem estar), classe social, hierarquia e a elusiva liberdade (estou falando de liberdade real e não de um mês de féria, ser um conceito tão assustador e por vezes até parece impossível). Por outro lado, nada disso sempre foi assim. Fatalismo não combina com o ensino de História. Como a chuva, tudo é transitório, no entanto, nós temos a capacidade (até certo ponto) de moldar a nossa vida e a "realidade". Ou não somos sujeitos históricos?





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Uma história de terror sobre um "psicólogo" em Manaus

Sou recém formado em História e passei no concurso  da SEDUC do Amazonas em 2014 e convocado no final de 2015. Para poder conseguir a a lotação dormi no auditório da SEDUC, porque esta não respeitou a lei: não empossou as pessoas de acordo com a classificação.
Toda essa experiência foi tão surreal. Tantos personagens que já sabia que ia encontrar (o professor "burn out" fedendo, querendo outra vaga e que já desistiu da docência , a "raposa velha" que já viu tudo e sabe que "a educação pública está perdida, o jeito é pular fora pra algum concurso burocrático que pague bem", ou mesmo jovens que já penaram o bastante, também querem o seu lugar ao sol, pois a docência é uma ponte para eles. Quem pode julgá-los?! É fácil ser inquisitorial quando se vota no PSDB ou se é de classe média.
Alguns personagens foram inusitados. Vi um professor, DE HISTÓRIA (!) CONCURSADO PARAENSE(!!) FALAR QUE OS PROFESSORES MANAUARAS SÃO ACABOCLADOS E NÃO TEM CONSCIÊNCIA POLÍTICA (!!!). Ele tava usando uma camisa do Remo ou Paysandu e não teve o pudor de falar baixo, quase morri de vergonha.
Entretanto, de todos os personagens mais improváveis, encontrei um cara quase coroa ( eu realmente gostaria de botar a foto e nome dele aqui, mas não quero ser processado), o conheci quando fui carregar o meu celular perto dele e de outro cara e eles me ofereceram coca cola, recusei, logo depois me convidaram pra jogar baralho, recusei. Até que pra não parecer mala eu sentei e joguei.
Na conversa, descubro que o cara é de esquerda e de movimentos sociais, como eu estava me sentindo muito apático, resolvi pedir o contato e tentar fazer parte do grupo. Ele me adicionou no whatsapp. 
Mais tarde fomos fazer um lanche num "podrão", o terceiro cara era da classe trabalhadora e não sacava dessa discussão, então nós monopolizamos o papo, aí é que a coisa começa a mudar de figura. O cara começa a dizer que trai a esposa, ok, eles são adultos e eu não sou padre, apesar de não concordar. Porém não para por aí, ele se gaba que está tendo um caso com uma "loira", e mostra uma foto de uma mulher que nossas mentes racistas imediatamente acham atraente . 
Depois de pouco tempo descubro que ele é um psicanalista e que ela costumava ser paciente dele, perguntei: -Isso não é antiético? Ele respondeu algo como: -Eu falei que não poderia mais atender ela. OK! Não pode mais atender a pessoa e nem se envolver romanticamente com alguém que está vulnerável, que se expôs, mas acima de tudo que você por ser homem e psicólogo pode tomar vantagem, na hora eu não achei nada demais (são dois adultos!). Agora vejo como praticamente um estupro e uma grande manipulação e falta de caráter.
 Pois é, essa foi a coisa mais repulsiva que eu vivi aqui nessa cidade, realmente gostaria de denunciar esse cara, mas não tenho dinheiro e nem provas além da minha palavra para isso, mas vale o aviso para quem precisar de tratamento psicológico.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Querido desconhecido



*escrito ouvindo esse álbum:https://www.youtube.com/watch?v=jvsow-V9_Hk&list=PL495CDDC52A2126E1 (sigur rós - ágætis byrjun)

Não, você não sabe de como eu me sinto.  Provavelmente ainda nem conseguiu adquirir maturidade suficiente para conquistar o auto conhecimento, falo isso sem julgamento (pra ser honesto,ao menos não muito), eu estou buscando isso e não é algo simples, a maioria das pessoas morrem sem nunca se preocuparem com isso.
Nós somos jogados em um mundo violento, onde homens roubaram e mataram o bastante para formar fronteiras imaginárias, hierarquias (de classe, gênero, etnia, orientação sexual, etc), metrópole e periferia e nós somos uma espécie que além de exterminar em larga escala nossos semelhantes e outras espécies, corremos alegremente para nossa própria extinção. Nesse contexto, acho que empatia é algo dificilíssimo, improvável até. Eu realmente poderia gostar de enxergar o mundo pelos olhos de outras pessoas, porque somente recentemente me dei conta de como sou privilegiado (homem, branco, hetero, cis e classe média).
Um dos meus cinco amigos me disse que lhe ocorreu, andando pela cidade, que nossa sociedade sociedade é voltada para o consumo e a reprodução dele. Ela é dividida em uma piramide entre os: sobreviventes, consu
midores e ostentadores. Eu e os fabricantes de Rivotril concordamos com ele.
Não me entenda mal, eu não quero simplificar ou negar o problema das doenças mentais como o André Dahmer fez neste quadrinho infeliz,

afinal, de forma muito publicamente,  como um gesto político até, publicizei que tenho depressão.
Entretanto, sim, existe abuso de ansiolíticos. Leonardo Boff, um grande nome na esquerda, para explicar essa questão, disse algo mais ou menos assim: esse buraco foi criado pela modernidade que tirou o ditador celestial do poder, e, na minha opinião, botou o deus mercado no lugar. Bom, paciência, o cara era padre, eu não preciso de um papai noel para adultos para preencher esse buraco na minha vida, mas, de fato existe um buraco. O consumo não vai preenche-lo. Felizmente, acho que esse impulso nunca foi tão forte em mim e não preenche nem na pessoa mais fútil e burra, daí a necessidade de se entorpecer.
Então qual o sentido da vida? Como suportar o vazio do existir?! (Já dizia aquela música idiota, não sei se do idiotinha ou do babaquinha) Tenho me perguntado, para a maioria das pessoas, ao menos as que eu tenho algum grau de convivência: trabalho, família e religião. Não necessariamente nessa ordem.
Eu penso que o trabalho de professor que vou iniciar vai preencher esse vazio que existe dentro de mim, mas não no sentido capitalista e sim no de função social.
Outra questão é a necessidade de estar conectado com outras pessoas que não justifiquem a desigualdade e não aplaudam a barbárie. É algo que possa me trazer felicidade.
Ajudar os outros é ajudar a si mesmo, me disse o amigo supracitado, sim, ele é real, e um ótimo amigo, por sinal. Porém, nada do que nós decidimos ser, fazer, (ou não) falar vem sem um grande custo, mas se crescimento pessoal fosse atingido somente com a felicidade e auto indulgência, Buda (se ele existiu mesmo) não teria saído da zona de conforto dele.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Um dia você vai ser considerad@ uma puta

Acho que todo mundo é ou vai ser tratado como "puta" em nossa sociedade, não me entendam mal, o que quero dizer é que: assim como as feministas dizem, basta ser mulher para ser chamada de puta. Porém, eu vou além, você pode ser "puta", além de obviamente de ser uma profissional do sexo, mas também se: for negro, ou pobre, se fugir da heteronormatividade e for transgênero, se for ateu, ou praticante de religiões afro-brasileiras. 
No meu caso, sou cheio de privilégios, nem precisa de muito esforço pra você reconhecê-los, mas também tenho algumas características que me fazem ser "puta" aos olhos da nossa sociedade conservadora, hipócrita e estúpida: sou ateu e tenho depressão.
O Cazuza na quela música "O tempo não para", fala:
"Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro"
Eu acredito que isso vale para mesmo para as relações interpessoais, desde a pessoa da base da hierarquia dessa nossa sociedade herdeira de escravismo, patriarcalismo e oligarquias, até o cara da periferia que bate na esposa, ou a mulher que chama que cria o filho para ser um machistinha babaca. Isso tudo é uma questão de poder.
A questão é que estava em um confraternização com uns amigos e tive o desprazer de ouvir a música "Ela é tarja preta". Parte do refrão diz o seguinte: 
"Ela é tarja preta, ela é tarja preta
É tarja preta, é tarja preta
Tem que ter receita
É tarja preta, é tarja preta
Pode fazer mal pra você"
Que tipo de mensagem é essa? Tem gente que realmente pensa que a arte não é política, assim como tudo ao nosso redor?! Ela pode reforçar preconceitos ou contestá-los. Até quando tarja preta vai ser insulto?! 
É claro que eu estou querendo que os artistas sejam obrigados a escreverem questões de protesto, "Shine on you crazy diamond", do Pink Floyd me faz pensar em tanta coisa, mas despertam coisas tão profundas e ligações tão bonitas na minha mente e eles nem abordam questões políticas. 
Me perdoem, não consegui descobrir quem é o autor da música, se é o apadrinhado Felipe Cordeiro, ou o "artsy fartsy" Arnaldo Antunes, mas de qualquer forma, vocês prestam um grande desserviço para a sociedade, ah e são uns babacas. 


*P.S: Não quero fazer uma competição de quem é mais oprimido.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Por que as pessoas leem?

Um dia desse andei pensando sobre essa questão. O ato de ler tem uma herança bastante aristocrática e excludente. Em um país como o nosso, em que teve um dos regimes escravistas mais longos do mundo e continua sendo campeão em desigualdade (e a pobreza tem cor), essa é uma questão mais interessante ainda de ser pensada e discutida.
A pobreza tem cor, mas as pessoas que ocupam assentos de universidade e posições de poder e prestígio também tem cor (menos de 3% dos médicos são negros, procure aí pelo google).
O salário mínimo vale menos de mil reais, quem não tem nível superior, ou não arruma um jeito de explorar outras pessoas, pode se preparar para uma vida árdua de semi escravidão assalariada.
Dito tudo isso, o que eu pensei de original foi: o fetiche por ler e tornar isso conhecido, é algo que faz muito sentido em uma sociedade desigual, racista e segregada como a nossa. É uma questão de poder. Eu mesmo já calei pessoas mais velhas que eu com o saber que adquiri através da educação formal. Por outro lado, obviamente essa megalomania e egocentrismo provavelmente é comum em todas as sociedades capitalistas, apesar de eu achar que no periferia dele isso ser mais exacerbado, ainda mais em uma província como o Pará.
Voltando a questão da educação formal, obviamente reconheço o valor da oralidade e dos saberes e culturas de povos tradicionais e a importância do respeito à diversidade, porém acho insanidade a ideia de algumas pessoas de que a instituição Escola não deveria existir ou do paternalismo que para alguns basta só um tipo de saber e não o outro.
Acredito que o que deve ser modificado é a forma como a escola é organizada
*pessoas que leem ressignificam o que leem 

O degredado

 É, o meu degredo se aproxima para uma terra de sol infernal, que deu medalha de direitos humanos pro Bolsonaro e sabe lá mais que surpresas maravilhosas me esperam.
Sobre o degredo sempre ouvi esses argumentos moralistas/ racistas sobre o "atraso" do Brasil: ah, foi colonizado com o que tinha de pior em Portugal: bandidos e putas. Somado a isso ainda misturaram com um bando de índio de preto.
A parte do racismo é tão estúpida que não vou me dar ao trabalho de discutir, mas a parte sobre o moralismo e os motivos do degredo são bem interessantes. No período Colonial essa legislação era bem ampla, ou seja, pequenos delitos podiam te fazer ser exilado. Talvez como uma política de colonização, não me lembro ou não tenho erudição o suficiente pra responder isso e pra falar a verdade, quem se importa?!
O argumento moralista é bem interessante, é como se as pessoas brotassem da terra, ao invés de serem produzidas por uma sociedade. Somado a isso, o racismo da implícito da nossa mentalidade nos deu professores medíocres que nos ensinaram uma visão fatalista, derrotista e revanchista de História e que implicitamente esconde o desejo da gente tomar o lugar das potências imperialistas e espoliar outras nações para financiar o desenvolvimento do nosso capitalismo predatório e assassino (quanta redundância, eu sei).
Poderia me rir dos meus algozes do passado agora que tenho uma conquista e que entrei no rol dos “cidadãos”, mas eu vejo que a vida é um grande teatro em que todos desempenham seu papel de comer o fígado um do outro e chafurdar na lama e merda que sua mente e essência produz. 

O nosso (doentio) modelo de masculinidade

Eu já tinha falado de como o machismo é nocivo para os homens também. A sociedade incute em nós a ideia de que não podemos chorar, não podemos demonstrar vulnerabilidade, ou afeto pelos nossos amigos. Abrace um amigo e veja como ele fica rijo e desconfortável. Com exceção dos italianos, dos gregos e acho que dos franceses, quem tem o hábito de se beijar no rosto? Pra um homem heterossexual machista demonstrar afeto para seu amigoigualmente machista, eles precisam se bater ou fazer algo "másculo".
Já foi falado bastante sobre como esse modelo de masculinidade é frágil, se você ganha menos que a sua companheira, é um absurdo, se você não resolve conflitos de forma violenta, meu deus, você é uma "bicha"!
O mais preocupante é que o nosso modelo de masculinidade é doentio e produz pessoas que não estão capacitadas para conviver em sociedade. Meninos vão virar homens que pensam que suas companheiras são sua propriedade, que elas são inferiores, que eles tem direito sobre o corpo e a sexualidade delas. Realmente tenho medo de ter uma filha em um país como o nosso.

Ideias para aulas de Medieval

 Tava num ônibus e vi que tinham várias lixeiras. Adorei a iniciativa. De fato, a prefeitura deveria investir em saneamento, Belém é uma cidade sem sistema de esgoto e sem lixeiras. Porém, acredito que nós podemos usar temas transversais, fazer trabalho de campo. Por exemplo: ao invés daquela velha lenga lenga da "Idade Média" francesa, podemos enfatizar a Ibérica, mas, além disso, trabalhar com a sobre a peste bubônica e outras doenças que acometiam essas pessoas, as formas como elas lidavam com esses problemas, a magia e a inquisição, sei lá, tem uma infinidade de opções (Vide "História na sala de aula" org. Leandro Karnal).
Enfim, o que eu quero dizer é que além da luta, o acesso à informação e à cultura (não só a erudita, a popular também, não só a escrita mas a oralidade igualmente precisa ser valorizada) mudam o mundo.