Sonhei com o sítio do meu tio. O igarapé que antes se podia pescar, agora era um esgoto das casas que foram ocupando esse espaço.
Nunca houve esse igarapé no sítio do meu tio. De repente, é o igarapé no Xingu, na terra grilada pelo cara que engravidou a minha mãe.
Estava num ônibus aqui em Manaus e pensei sobre a vida de assalariado. A maioria de nós vende o pouco tempo que temos aqui fazendo algo que odiamos. A vida adulta se resume a tédio, repetição, obrigação e monotonia.
Nós todos somos essa flor. Éramos uma semente. Brotamos e nos expomos em um mundo burro e violento. Cada passo que damos nos aproxima do momento em que seremos descartados em um lixo e substituídos
Depender de outra pessoa é uma merda, mas ninguém avisa a gente que se emancipar só significa dar o "play" em um jogo da vida adulta. Esse teatro se consiste em cenas após cenas, cada uma mais difícil que a anterior. Os "atores" ficam tão cansados que esquecem que um dia tinham sonhos. Seguem como autômatos nessa rotina massacrante. De passo em passo, todos sozinhos, até o fim da linha no abatedouro. Provavelmente essa imagem não é a mais adequada, mas nós não deixamos de ser gado nos encaixando nesse sistema.
Dia após dia, como um vazamento em uma torneira, nossa vida escorre pela calçada. Esse dia não foi melhor nem pior que o anterior. Talvez um dia a gente acode e perceba que tudo só vai ficar pior a partir de agora. A gente percebe que nossos amigos eram distrações pra eles e pra nós. Nós gastamos nossas horas tentando nos encaixar em modelos e receber aprovação. Quem sabe até a gente pode conseguir outras pessoas pra lamberem as nossas botas. Um dia vamos todos usar fraldas geriátricas, a papa batida que vão empurrar goela abaixo da gente tem a mesma consistência que essa baboseira que acreditávamos enquanto éramos jovens.Nós somos flores esperando o descarte. A flor de ontem é uma lembrança dos nossos sonhos. Murchos, apodrecendo e pálidos, algo que nos constrange porque sentimos e que não se adapta com a nossa realidade atual, mas também uma lembrança de coisas que tentamos fazer e não deram certo, pela nossa falta de vontade, ou por que era afrontoso demais ao nosso meio. Talvez um dia a gente ande descalço em um gramado sem fim, cheio de árvores frutíferas e com pessoas humanas. Vamos deitar na grama, sentir o vento e olhar o céu. Isso é a paz.