O filme trabalha com alguns temas muito difíceis de serem abordados: pedofilia, prostituição, estupro e Aids. Entretanto, não é preciso de tanto preparo emocional para assisti-lo, acredito que seja pelo fato dos personagens não serem unidimensionais ou caricatos. Podemos conhecer ou intuir um pouco da personalidade de cada um, vemos a vida familiar, os anseios e frustrações, as suas amizades. Enfim, vemos eles na sua totalidade e não somente reduzidos como vítimas de uma violência abominável.
Duas questões do filme me tocaram bastante. A mais importante foi que a obra reconhece que as pessoas lidam de forma diferente com os traumas. Essa subjetividade é fundamental ao tentarmos compreender o outro em suas limitações e potencialidades, qualidades e defeitos, dessa forma, podemos orientar de forma podemos nos preservar, mas também ajudar quem merece nossa ajuda.
Outro fator importante foi uma cena em que um homem soropositivo paga o garoto para tocá-lo. Esse anseio por contato humano, por pertencer e por fazer parte de algo, por menor que seja, é algo que pode nos destruir se subitamente nos for negado.
Por fim, fico pensando se o filme não reforça uma visão abolicionista da prostituição. O que você acha? É algo a ser refletido e debatido. Até a próxima.
http://www.imdb.com/title/tt0370986/
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Textos que a gente lê porque o concurso nos obriga (mas esse é exceção e até que presta): "A guerra das narrativas", de Christian Laville.
O
autor discute a questão de poder que envolve a determinação dos currículos de
História. A intencionalidade que o ensino da disciplina costumava ter: formar
cidadãos-súditos e reforçar/legitimar o ideário nacionalista e o paradoxo: essa
é uma noção obsoleta e não é mais uma atribuição do ensino de História, mas
diversos grupos, em diversos países tentam impor impingir esse tipo de conteúdo
aos professores e alunos. Além disso, ele desconstrói a ideia de que a História
(acho que em certos momentos de forma ingênua) realmente tenha esse poder de
conquistar corações e almas ou interferir significativamente na visão de mundo
de ninguém, porque as pessoas muitas vezes vão na contra mão do que se ensina
em sala de aula e aquelas funções recairiam sobre a família e a toda poderosa
mídia.
Bom,
é bem contraditório essa parte final do discurso produzido pelo autor. Os
alunos têm o poder de ressignificar, contestar e subverter os conteúdos de
História (o que é bom até o ponto em que não descambe em negacionismo e
fascismo), mas aceitam bovinamente as mensagens explícitas ou implícitas da
mídia?! Não acredito que a maioria das pessoas engula o “mito da democracia
racial” propalado pela rede Globo e suas congêneres, ou que a sociedade
brasileira seja quase uma Noruega sul-americana, em que as elites brancas “refinadas”
sofrem seus dramas em um Português engessado (como disse Marcos Bagno) e os
negros sabem seu lugar: periferia e empregos subalternos.
Essa
hipótese me parece absurda, especialmente em um contexto de conquistas do
movimento negro e dos afro-brasileiros em geral. Além disso, pra bem ou pra
mal, contamos com a internet (descontando o fato de que o autor escreveu seu
texto em 99) que serve como um local de troca de ideias, ponto de encontro e
espaço de visibilidade para quem não tem voz e vez na velha mídia.
Por
fim, ele usa tanto o “raio relativizador” (apesar reconhecer explicitamente que
o ensino de História é importante para o fortalecimento da democracia) que ao
fim da leitura do texto uma pessoa mais vulnerável ou ingênua pode até pensar
que o ensino de História é um exercício do absurdo e uma grande perda de tempo.
Eu andei me questionando sobre isso, especialmente porque vivemos em um país
dominado por latifundiários, fundamentalistas, fascistas e refém do grande
capital. Se nutrirmos um complexo de deus, de fato vamos viver frustrados, mas
creio que uma aula bem dada pode ser muito transformadora, formar seres
humanos melhores e isso tem um potencial de irradiar a mudança. Então, sim, ser
professor vale a pena e o ensino de História é fundamental.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Crianças de terno e gravata
Na frente de um prédio/falo público, várias
crianças de terno e gravata se reuniam. Pareciam pavões ciscando, orgulhosos das
suas penas, se bem que as penas das crianças eram tristes, um amontoado preto e
cinza. Enfeites absurdos para o calor torrencial de Belém.
Essa é a hora em que alguém liga o raio
relativizador: Elas precisam dessas fantasias para entrarem no prédio público e
terem o direito de falar e serem ouvidas. Seus clientes podem até entrar sem
esses enfeites. De fato, eu responderia, o terno marca quem fala e quem ouve,
quem manda e quem obedece.
O patriarca é tão benevolente que deixa o
peão entrar na Casa grande, é claro que de chapéu na mão e cabeça abaixada.
Pode até pegar alguma migalha que caia da mesa. Eu sei disso, porque sempre
estive na mesa. O problema é que essa mesa é muito comprida, se estende do
pobre de direita, meu contemporâneo, até o escravo capataz e dono de escravos,
ou, ainda, o capitão do mato encarregado de recapturar seus semelhantes, em
nosso passado colonial.
A realidade e a sociedade são complicadas
demais para serem encaixadas em maniqueísmos, reduzidas entre opressores e
oprimidos, ou algozes e vítimas. Se fosse diferente, as mudanças não seriam tão
lentas e acompanhariam os voos que a nossa imaginação pode empreender. As
crianças não desejariam usar ternos e defender/gerenciar o latifúndio ou o
pecúlio e a classe média não almejaria enriquecer (coisa que nunca vai
conseguir fazer, a menos que explorem muito ou roubem mais ainda).
“As pessoas na sala de jantar estão
preocupadas em nascer e morrer”, as crianças vão ter filhos, a quem também será
incutida a ideia de usar ternos, consumir: “comprar coisas que não precisam,
para agradar gente que não gostam”, vão andar maquiadas e com roupas caras no
shopping e ter horror dos pobres que agora podem andar de avião.
Talvez esse texto seja um clichê, mas, de
qualquer forma, sei que eu também sou/fui uma criança. Há muitos anos atrás,
andava nu pelo quintal de casa, um dia tiraram uma foto em que eu segurava uma
gaiola com um passarinho. Eu queria só que então já soubesse abstrair o
conceito de liberdade e ter consciência que o passarinho deveria estar voando
livre, sem trocadilho.
Por outro lado, não gostaria de ter absorvido
tantas coisas opressoras que a sociedade nos impõe, de forma intencional ou não.
Preferia ter amadurecido a minha liberdade e saber que é absurdo priorizar a
opinião alheia para moldar a nossa conduta, ao invés de escutar o que a nossa voz interna nos diz, a partir de reflexão e diálogo com pessoas que realmente importam. “Nade deve parecer
impossível de mudar”, ainda é tempo.
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