Na frente de um prédio/falo público, várias
crianças de terno e gravata se reuniam. Pareciam pavões ciscando, orgulhosos das
suas penas, se bem que as penas das crianças eram tristes, um amontoado preto e
cinza. Enfeites absurdos para o calor torrencial de Belém.
Essa é a hora em que alguém liga o raio
relativizador: Elas precisam dessas fantasias para entrarem no prédio público e
terem o direito de falar e serem ouvidas. Seus clientes podem até entrar sem
esses enfeites. De fato, eu responderia, o terno marca quem fala e quem ouve,
quem manda e quem obedece.
O patriarca é tão benevolente que deixa o
peão entrar na Casa grande, é claro que de chapéu na mão e cabeça abaixada.
Pode até pegar alguma migalha que caia da mesa. Eu sei disso, porque sempre
estive na mesa. O problema é que essa mesa é muito comprida, se estende do
pobre de direita, meu contemporâneo, até o escravo capataz e dono de escravos,
ou, ainda, o capitão do mato encarregado de recapturar seus semelhantes, em
nosso passado colonial.
A realidade e a sociedade são complicadas
demais para serem encaixadas em maniqueísmos, reduzidas entre opressores e
oprimidos, ou algozes e vítimas. Se fosse diferente, as mudanças não seriam tão
lentas e acompanhariam os voos que a nossa imaginação pode empreender. As
crianças não desejariam usar ternos e defender/gerenciar o latifúndio ou o
pecúlio e a classe média não almejaria enriquecer (coisa que nunca vai
conseguir fazer, a menos que explorem muito ou roubem mais ainda).
“As pessoas na sala de jantar estão
preocupadas em nascer e morrer”, as crianças vão ter filhos, a quem também será
incutida a ideia de usar ternos, consumir: “comprar coisas que não precisam,
para agradar gente que não gostam”, vão andar maquiadas e com roupas caras no
shopping e ter horror dos pobres que agora podem andar de avião.
Talvez esse texto seja um clichê, mas, de
qualquer forma, sei que eu também sou/fui uma criança. Há muitos anos atrás,
andava nu pelo quintal de casa, um dia tiraram uma foto em que eu segurava uma
gaiola com um passarinho. Eu queria só que então já soubesse abstrair o
conceito de liberdade e ter consciência que o passarinho deveria estar voando
livre, sem trocadilho.
Por outro lado, não gostaria de ter absorvido
tantas coisas opressoras que a sociedade nos impõe, de forma intencional ou não.
Preferia ter amadurecido a minha liberdade e saber que é absurdo priorizar a
opinião alheia para moldar a nossa conduta, ao invés de escutar o que a nossa voz interna nos diz, a partir de reflexão e diálogo com pessoas que realmente importam. “Nade deve parecer
impossível de mudar”, ainda é tempo.
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