quinta-feira, 29 de maio de 2014

Aí já é vandalismo

Hoje quando estava à caminho da minha aula no cursinho da UFRA, estava ocorrendo uma manifestação que parou o trânsito. Foi uma verdadeira experiência sociológica não estar participando dela e ouvir o que as pessoas que não participam (e nunca participaram e nem vão) dizem, a máxima direto do século XIX: "povo que não quer trabalhar e fica na baderna" ou o discurso tirado direto da doutrinação da velha mídia: "tudo bem fazer manifestação, mas fazer N já é vandalismo". 

É curioso viver em um país com tanta gente regurgitando discursos despolitizados e recheados de senso comum sobre a corrução, mas quando diversos segmentos da sociedade se mobilizam e lutam por seus direitos, essas mesmas pessoas “indignadas” com a alienação dos brasileiros reclamam que vai atrapalhar o trânsito ou ficam cagando regras sobre as manifestações sem nem ao menos ter participado de uma. Ou, pior ainda, compram o discurso da mídia e apoiam a criminalização de movimentos sociais, ao invés de entender o contexto que estamos vivendo em nosso país: de gentrificação das cidades, gastos de bilhões do nosso dinheiro público pra financiar a festa da FIFA e das empreiteiras, grandes obras na Amazônia passando por cima dos direitos humanos básicos dos indígenas e populações tradicionais. 


Nem todo mundo que fica querendo ditar regras pra manifestações populares ou comprando o discurso da velha mídia necessariamente apoia as truculências da polícia ou o autoritarismo do governo, mas com quem e o que a gente se revolta diz muito sobre a gente. Sinceramente, fodam-se agências bancárias e manequins da Toulon, estou mais preocupado com uma polícia militarizada e assassina da juventude pobre e preta,  me indigna que o poder público defende os interesses de bancos e empreiteiras que financiam suas campanhas políticas e com oligopólio midiático, principalmente da Globo, construído com o apoio ao golpe e à ditadura civil-militar. O resto é só falatório de gente conservadora que não quer sair do armário ou de analfabeto político.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Três coisas que fazem cabeças libertárias* explodirem


Libertarianos tendem a cavalgar em unicórnios teóricos que não os leva muito longe no mundo real

Libertarianos são proponentes de uma filosofia que adota a ideologia de livre mercado, governo limitado e um certo tipo de liberdade individual. Eles gostariam de pegar o governo e matá-lo no ovo (They would like to take the government and drown it in the proverbial bathtub). Libertarianos, infelizmente, tendem a cavalgar em unicórnios teóricos que não os levam muito longe no mundo real.
Da próxima vez que você se encontrar na companhia de um desses seres excêntricos, tente puxar um dos seguintes tópicos e assista eles começarem a galopar em dez direções ao mesmo tempo.
1. O problema da desigualdade: Por que algumas pessoas ficam com a maior parte dos brinquedos? O fato de em um sistema capitalista, o dinheiro parecer fluir para a mão de poucos é uma fonte de grandes dores de cabeça para muitos libertarianos, no entanto, não todos – alguns parecem considerar qualquer resultado do mercado como a mão de Deus, a própria (as the hand of God herself).
Irrefutavelmente, a distribuição de renda dos EUA se tornou ridícula, classificada a 4ª no mundo dentre 141 países para a desigualdade, atrás de Rússia, Ucrânia e Líbano, e isso perturba muitos libertarianos.
Os libertarianos geralmente começam por insistir que a quantia de dinheiro que você tem se reduz às escolhas que você faz como indivíduo. Decisões ruins, estúpidas = pobreza. Decisões boas, inteligentes = riqueza (aqueles oligarcas russos sabidos!). Frequentemente, o libertariano irá correr em defesa dos ricos. Por exemplo, nós temos W. Michal Cox, diretor da Southern Methodist University’s Center for Global Markets and Freedom, oferecendo esse delicioso pedaço de sabedoria recentemente no Glenn Beck show:
“A verdade é: Se você olhar para quase todas as pessoas bem sucedidas neste país, desde o tempo em que eles eram jovens eles brincaram com as crianças certas, estudaram na escola, tiraram boas notas, conseguiram um emprego e um monte de educação, foram produtivos no trabalho todos os dias, economizaram o dinheiro deles, começaram um negócio, contrataram pessoas, investiram – eles fizeram boas escolhas.”
A verdade é, no entanto, essa: Muitas pessoas ricas ficam ricas simplesmente por nascer de pais ricos. Outras ficam ricas roubando outras pessoas. Banqueiros cometeram fraude em massa em empréstimos de hipotecas que acarretaram na crise financeira, e continuam a onda de crimes, os quais incluem lavagem de dinheiro para terroristas e cartéis de drogas, inflacionando preços e manipulando os preços de commodities, pegando subornos, atuando em insider trading, participando em esquemas ponzi, adulterando os livros contábeis, e por aí adiante. A fraude se infiltrou tanto nas corporações norte-americanas que o legendário short seller (espécie de investidor no mercado de ações) Jim Chanos decreve uma cultura na qual executivos pensam que eles tem um dever fiduciário de trapacear. A ideia é que como todo mundo está trapaceando, eles tem o dever com os acionistas de trapacearem para se manterem competitivos!
Além de crimes gritantes, banqueiros estão se envolvendo muito mais em especulação irresponsável que desestabiliza a economia do que fazendo coisas úteis como emprestar dinheiro para pessoas que precisam dele. Em termos simples, eles fazem uma grande parcela de dinheiro pilhando a economia, trapaceando os contribuintes e sacaneando clientes com taxas e truques. Resultado: os banqueiros ficam muito ricos, enquanto o resto de nós fica mais pobre.
Quando forçados a encarar a desigualdade, libertarianos frequentemente falam sobre nepotismo, algo que eles insistem que não iria acontecer na utopia de livre mercado deles. Nepotismo, eles insistem, se trata exclusivamente de favores governamentais, se esquecendo que nepotismo é descontrolado entre vários operadores do mercado. O que você chama quando presidentes de corporações conspiram com as diretorias delas para se premiarem com salários escandalosos? Se você fala em português (um falante de português), você chama isso de nepotismo (cronyism). Quando um dono de um banco conspira com outros donos de bancos para fazer coisas como interferir com os preços ou esmagar a competição, isto também é uma forma de nepotismo. Por algum motivo absurdo, libertarianos parecem pensar que nepotismo é só algo que negócios fazem com governos.
Timothy Carney, do Washington Times, recentemente evitou a questão do nepotismo alegando que como a maior parte das pessoas ficam ricas “através de meios do mercado” e que a sua acumulação de riqueza não prejudica a economia, então nós não deveríamos ficar incomodados.
Primeiramente, o que exatamente quer dizer “meios do mercado”? Claramente, bastante desigualdade vem direto de forças do mercado, como o fluxo de mercados para áreas onde os salários são baixos.
Segundo, conforme os economistas começaram a examinar a questão de desigualdade de renda, eles estão descobrindo que prejudica, de fato, o crescimento econômico. Como Paul Krugman indicou recentemente, no New York Times, a prova, a qual inclui dois estudos pioneiros feitos pelo IMF e um por Barry Cynamon e Steven Fazzari como parte de um grupo de trabalho no Institute of New Economic Thinking, mostram que reduzindo a desigualdade extrema nos EUA provavelmente iria aumentar o crescimento econômico. Em outras palavras, se os EUA adotassem políticas tributárias e distributivas semelhantes as da Europa, nós bem poderíamos ter crescimento econômico (países na Europa com menos desigualdade resistiram a tempestade recente, causada por um sistema monetário defeituoso, melhor do que aqueles com mais).
Nem vamos falar sobre como a desigualdade nos transforma em uma sociedade classista, estilo Downton Abbey (série sobre a aristocracia inglesa e seus servos na primeira metade do século XX), ou como isso sabota a democracia por permitir que dólares de corporações e bilionários dominem o sistema político, ou como torna as pessoas fisicamente e mentalmente doentes. Desigualdade é um flagelo para a sociedade, e libertarianos não conseguem lidar com isso.
 2. O problema dos bens públicos. Na utopia libertariana, você não acharia nada além de indivíduos fazendo transações privadas em mercados privados. Essas trocas entre indivíduos sempre seriam justas, porque as leis de oferta e procura garantiriam que você conseguisse as coisas que precisa a um preço justo. Você quer uma pizza, você compra a pizza de uma pizzaria, a qual a produz para você a um preço razoável. Todo mundo fica satisfeito.
Mas, e se você quiser comprar pizza de noite, e você precisa de postes de luz para poder andar até a pizzaria? Agora você tem um problema, por que você não pode sair e comprar um poste de luz.
Bens públicos como postes de luz, água fresca e sistemas de defesa não são pizzas. Eles são fundamentalmente diferentes, por que você geralmente não pode sair e comprar eles sozinho. Ao contrário de pizzas, eles não são consumidos por uma pessoa ou grupo de pessoas. Por exemplo, uma vez que estiverem construídos e funcionando, qualquer pessoa que ande pela rua se beneficia do poste de luz, e não tem nenhum jeito de tirar a luz de uma pessoa específica. O poste de luz é um bem comum ou público.
Os libertarianos tentarão argumentar que muitas coisas consideradas bens públicos podem, na verdade, ser fornecidas por mercados privados. Como isso funcionaria no caso de postes de luz?
Digamos que de algum modo você, ou um grupo de pessoas, conseguissem juntar um monte de dinheiro e pudessem sair e comprar de verdade um poste de luz. Agora você teria o problema dos free-riders (conceito econômico que significa pessoas que não pagam pelo serviço), por que pessoas que não ajudaram a pagar o poste de luz o usariam.
Coisas como postes de luz tem que ser fornecidas fora do mercado. Os custos tem que ser compartilhados, por que bens públicos beneficiam grupos enormes de pessoas. Uma das funções centrais do governo é fornecer bens públicos que mercados ou falham em fornecer ou não podem fornecer eficientemente, e essa é uma das razões pelas quais os libertarianos ficam incomodados (get into a tizzy about them) com eles.
Outro bem público que desconcerta libertarianos é a defesa nacional. Se você mencionar para eles que é impossível o mercado fornecer a defesa de um país, eles cruzarão os braços e responderão: “Como você sabe?” Eles irão insistir que se existir procura suficiente, a oferta vai magicamente aparecer.
Bom, a história nos mostra que países que não se organizam com relação a defesa nacional têm grandes problemas. É quase loucura pensar que mercados privados teriam fornecido a defesa contra a crescente ameaça da Alemanha, nos anos 30, não menos importante por que como agora está bem documentado, muitos interesses de negócios privados nos EUA, Grã-Bretanha e França preferiam aceitar os nazistas.
Para enfrentar o argumento sobre oferta e procura com relação à defesa nacional, você pode simplesmente indicar que o recrutamento foi necessário em todas as principais guerras. Você pode as vezes achar gente suficiente para se voluntariar durante tempos de paz, mas as pessoas têm um hábito engraçado de não quererem ser mortas durante períodos de guerra. É por isso que na Guerra Civil dos EUA o recrutamento foi um caos total, com pessoas ricas pagando pessoas pobres para irem lutar no lugar deles. Em 1863, Nova Iorque explodiu em um tumulto homicida de quatro dias por que as pessoas se opuseram à lei de recrutamento da Guerra Civil, a qual permitiu que pessoas ricas, como J.P Morgan e Andrew Carnegie, pagassem um substituto. Esse tumulto foi um dos mais sangrentos na história dos EUA.
Outra coisa que você pode apontar para libertarianos é como muitos bens públicos, como pesquisa e infraestrutura, são necessários para todos esses maravilhosos produtos que eles são tão apegados. O IPhone não existiria se o público não tivesse investido em pesquisa para desenvolver o GPS e tecnologia de touchpad, ou desenvolvendo a Internet, ou criando as autoestradas com as quais a Apple pode mover os seus produtos.
Para prosperar, os EUA precisam de mais e melhores bens públicos, não menos, e algumas coisas simplesmente não podem ficar a cargo de mercados, o que nos leva ao nosso próximo assunto.
3. O problema da regulação. Libertarianos notoriamente se opõe a regulações governamentais de negócios. Eles presumem que mercados não precisam de nenhuma regulação porque eles são naturalmente competitivos, e em mercados competitivos, boas ideias e produtos irão florescer, e os ruins serão punidos (claramente eles não assistiram TV à cabo recentemente). Para eles, competição é a grande força criadora do universo e os melhores empreendimentos humanos são um resultado de pessoas vencendo seus rivais.
Voltando para a realidade (Reality check): Mercados não são invariavelmente naturalmente competitivos. Aliás, muitos possuem a tendência de se direcionarem para condições prejudiciais como oligopólio, o que os torna entidades anti-competitivas.
O libertariano tentará dizer que oligopólios são culpa da intervenção do governo. Mas existem muitos exemplos para refutar isso. Se você examinar a história, mesmo em períodos quando governos foram bem limitados e serviram meramente como vigias noturnos, você achará grandes e sujos oligopólios, como as ferrovias ou aço do século XIX. Hoje, nós encontramos sistemas operacionais (pene no Netscape e Microsoft) como exemplos de condições oligopolistas.
Olhe o caso da indústria automobilística norte-americana. Essa indústria não se consolidou em um punhado de grandes produtores por causa de algo que o governo fez. Ela se consolidou por causa de algo que os economistas chamam de “economias de escala”. Os caras grandes podem operar de forma mais barata, e os caras pequenos tem custos mais altos. Os caras grandes também podem fazer empréstimos mais baratos. Essas vantagens bloqueiam o funcionamento de um mercado competitivo, e adivinha o que acontece? Oligopólios acontecem. Claro que os garotos grandes amam dobrar o governo de acordo com as necessidades deles também, mas a alegação de que todo mundo cresce somente por causa do governo é absurda.
Economias de escala significam que tem todo tipo de coisas que nós precisamos que simplesmente não vão vir até nós através de mercados competitivos, e nós tendemos ou a transformá-las em bens públicos, ou uma alternativa menos atraente, nós somos extorquidos.
Pense em algo como água, um bem público. Se você liga a torneira na sua cozinha e a água sai por causa do investimento público em canos para distribuírem água. Como você vai conseguir competição entre empresas privadas na distribuição daquela água? Você vai ter quatro ou cinco sistemas de canos chegando na sua pia? Não, você não vai. Quando ouvimos libertarianos e privatizamos coisas como água, algo acontece tão certo como o sol nasce: preços sobem. O IMF e muitos países em desenvolvimento desafortunados descobriram isso quando como um resultado das más orientações das políticas do Consenso de Washington países em desenvolvimento foram forçados a privatizar o suprimento de água deles.
Libertarianos se comportam como se o lema dos mercados deveria ser algo como o antigo slogan da GE: “Nós trazemos coisas boas à vida.” Mas, como o economista Douglas K. Smith apontou, o que os mercados frequentemente trazem para as nossas vidas é uma completa merda.
Muitos mercados são instáveis e eles estão sempre fazendo burradas. O mercado do automóvel, em adição em nos trazer carros, também nos trouxe obsolescência programada (GE recentemente redescobriu esse truque). A indústria dos automóveis também reduziu o fornecimento de coisas como cintos de segurança e air bags que tornam os carros mais seguros, e obstruiu a inovação para a economia de combustível.
Libertarianos podem detestar admitir, mas muitas pessoas em mercados na verdade ficam ricas por lucrarem com o fracasso do mercado – é só olhar para a grotesca indústria do setor de saúde dos EUA. Espertos operadores de mercado descobrem que ao invés de nos fornecer as coisas que precisamos, frequentemente é mais rentável trapacear, aumentar preços, manipular proteções de propriedade intelectual, subornar médicos, estrangular a distribuição e participar de todo tipo de pilantragens que tornam o nosso serviço de saúde o mais caro do mundo, e no entanto inferior em qualidade.
Como Smith escreve:
“Capitalistas podem escolher entre duas respostas para mercados que estão fracassando. Eles podem apostar o capital deles no conserto deles – em trazer mais coisas boas à vida. Ou, eles podem fazer todo o possível para extrair mais e mais lucro estendendo, expandindo e exacerbando os fracassos.”
Na indústria do setor de saúde, assim como uma variedade estonteante de outras áreas, como mercados habitacionais, mercado de energia, mercados de trabalho, mercados de serviços financeiros, e talvez mais assustadoramente, mercados capitais nos quais o dinheiro chapinha através de um sistema global extraindo riqueza através de instrumentos desregulados como derivativos, mercados fracassam espetacularmente. Regulação é a única forma de consertar esses evidentes fracassos do mercado.
Só deixando tudo para os mercados, como os libertarianos recomendam, é frequentemente garantido a produzir roubos épicos.
 Pronto! Agora você está pronto para aproveitar o seu próximo coquetel e assistir o circo pegar fogo (assistir os fogos de artifício- watch the fireworks).

*É a única vez que eu me refiro a essa ideologia dessa forma, por que como o Chomsky afirma, os libertários, apesar do nome, clamam pelo pior tipo de tirania: poder privado concentrado e sem limites.

Texto traduzido desse site: http://www.alternet.org/economy/3-things-make-libertarian-heads-explode?page=0%2C0

domingo, 18 de maio de 2014

Trecho de História do Cerco de Lisboa - José Saramago

"Que vem entrando, e diz, Desculpe tê-lo feito esperar, o ruído da porta e s palavras sobressaltaram Raimundo Silva, apanhado de costas voltadas, e agora vira-se precipitadamente, Não tem importância, responde, eu só vim para, não termina a frase, também a este rosto é como se o visse pela primeira vez, tantas vezes, nestes dias, tem pensado na doutora Maria Sara, e afinal, não era numa imagem dela que pensava, o simples nome ocupara todo o espaço disponível da lembrança, progressivamente fora invadindo o lugar dos cabelos, dos olhos, das feições, do gesto das mãos, somente podia reconhecer de longe a macieza da seda, não porque a tivesse tocado alguma vez, já o sabemos, e também há que esclarecer que não estava recorrendo a sensações antigas para morbidamente imaginar o que esta poderia ser, por impossível que pareça Raimundo Silva conhece tudo desta seda, o brilho, o mover brando do tecido, as flutuantes pregas, como areia dançando, embora a cor de agora não seja a de então, também ela emersa nas brumas da memória, se não é desrespeitar o hino pátrio. Trago-lhe aqui as provas (texto revisto), como combinámos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer, à passagem, agora está sentada à secretária, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu, Não vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, tão perto dela está que pode ver-lhe o coração suavíssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do íntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer até a poetas medíocres, O íntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que não se acredite, o roçar inefável as pétalas, ou teria sido o roças da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem a imaginar.
A doutora Maria Sara disse, Muito bem. Apenas estas duas palavras, num tom que não prometia outras falas, e Raimundo Silva, tão bom entendedor até de meias palavras, compreendeu, ditas estas duas, que nada mais tinha que fazer ali, viera para entregar provas, entregara-as, agora só lhe restava despedir-se, Boas tardes, ou perguntar, Precisa ainda de mim, interrogação muito comum que tanto é capaz de exprimir humildade subalterna como uma impaciência refreada, e que, no caso presente, usando o tom adequado, se poderia tornar em irónico remoque, o mau é que muitas vezes o destinatário ouve a frase mas não dá pela intenção, basta que estivesse folheando com profissional atenção umas provas tipográficas, e ainda mais se se tratava de versos, que exigem cuidado especial, Não, não preciso, respondeu, e levantou-se, foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, tão alheio ao acto como às consequências dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefacta, não estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitário (móvel) vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo não se esperaria é que mulher tão segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrível que se possa corar assim no tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, não do corpo. Mas o mais extraordinário de tudo foi que Raimundo Silva corou também, e por mais tempo que  ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridículo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou virá a dizê-lo. Em situações como esta, faltando a ousadia, e não nos perguntemos, Ousadia para quê, a salvação está na fuga, é bom conselheiro o instinto de conservação, o pior vem depois, quando repetimos as horríveis palavras, Que vergonha, todos passámos já por horrores assim, de raiva e humilhação damos socos na almofada, Como pude ser tão estúpido, e não sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale é estarmos protegidos pela escuridão do quarto, ninguém nos vê, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condão mau de tornar irremediáveis e monstruosas até as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraça como a de agora. Raimundo Silva virou costas bruscamente, com a ideia vaga de que tudo se havia perdido na sua vida e que nunca mais poderia voltar a esta casa, É absurdo, absurdo, repetia em silêncio e parecia-lhe que o dizia mil vezes enquanto fugia para a porta, Em dois segundos sairei, estarei fora, longe, quando no derradeiro e preciso instante o deteve a voz de Maria Sara, inesperadamente tranquila, em tal contradição com o que neste momento se está passando aqui que foi como se o significado das palavras se tivesse perdido no ar, se não fosse a certeza final do ridículo Raimundo Silva teria fingido que acreditar que ela dissera mesmo, Saio dentro de cinco minutos, é só o tempo de terminar um assunto na direcção literária, posso dar-lhe uma boleia, se quiser. Com a mão aferrada à maçaneta da porta, ele buscava desesperadamente parecer natural, e quanto lhe estava custando, uma parte de si ordenava-lhe, Vai-te embora, a outra olhava-o como um juiz e sentenciava, Não terás outra oportunidade, todos os rubores e surpreendimentos tinham perdido a importância em comparação com o grande passo dado por Maria Sara, porém em que direcção, meu Deus, em que direcção, e aqui está como nós, humanos, somos feitos, que apesar da confusão em que se debatia, de sentimentos, já se vê, ainda lhe sobrava frieza de espírito para identificar a irritação que lhe causara a palavra boleia, absolutamente inadequada à ocasião pela sua patente vulgaridade de fado corrido, a série foi irresistível e instantânea, boleia tipóia fado, Levo-o aonde quiser, podia ter dito Maria Sara, mas provavelmente não se lembrou, ou achou que devia evitar a ambiguidade duma tal frase, Levo-o aonde você quiser, Levo-o aonde eu quiser, é bem verdade que o estilo elevado costuma falar quando mais precisamos dele. Raimundo Silva conseguiu-se soltar da porta e permanecer firme, observação que pareceria de gosto de duvidoso se não fosse expressão duma ironia amigável enquanto esperamos que responda, Muito obrigado, mas não quero desviá-la do seu caminho, ora aqui vem muito a propósito dizer que o soneto está a sofrer com a emenda e que ao desastrado revisor não restaria mais que morder a língua se o tardio sacrifício servisse para alguma coisa, felizmente não deu Maria Sara, ou fingiu não dar, pela duplicidade maliciosa da frase, pelo menos não lhe tremia a voz quando disse, Não me demoro nada, sente-se, e ele faz quanto pode para que lhe não trema a sua ao responder, Não vale a pena, gosto de estar de pé, pelas palavras que tinha dito antes parecia que recusara a oferta, agora se vê que aceitou. Ela sai, regressará antes de passados os cincos minutos, entretanto espera-se que ambos recobrem o ritmo da respiração, o sentido da avaliação das distâncias, a regularidade do pulso, o que não será certamente pequena proeza depois de tão perigosos cruzamentos. Raimundo Silva olha a rosa, não são só as pessoas que não sabem para o que nascem.
Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai dos sítios onde vivo, Ao pé do castelo, Sabe onde moro, Na Rua do Milagre de Santo António, vi na sua ficha, depois de um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor (*por que ela queria descobrir se ele estava escrevendo um livro, o primeiro livro dele), foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, e aliás não devo esquecer-me de que sou seu subordinado, foi nessa altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre essa frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo." pg. 169-75.