quarta-feira, 30 de março de 2016

Realidade demais 2

O diretor falando que quem tiver 3 atrasos consecutivos vai levar falta (qual o respaldo em legislação pra esse absurdo? Foi o que pensei na hora que ouvi); não podemos pagar faltas depois que o mês acaba; falei que era muito trabalho ter que carregar a tv pras salas de aulas (não existe uma sala de multimídia, só um auditório que vai acabar servindo como isso) e uma prof prontamente me disse que carregou sozinha (parabéns pra você, mas não estou exercendo o cargo de estivador, não que eu queira desrespeitar quem faz trabalho manual. Foi o que pensei) e outro logo que falou que a gente tem que se adaptar. Pois é, o que esperar de um meio que acha certo aceitar tudo o que alguém mais alto na hierarquia diz. Mesmo que não faça o mínimo sentido e até seja ilegal.
Ah e pra fechar com chave de ouro: retiro o que disse sobre dar aula numa escola de periferia. Dou aula onde boa parte dos estudantes são de periferia e da minha semi-periferia.
A escola de cima, Jacimar alguma coisa, essa sim é de periferia. Não tem guardas pra controlar a entrada das pessoas e garantir alguma pequena ilusão de segurança, por mais débil que seja.
Enfim, lá ia eu subindo a ladeira e vejo uma aglomeração de alunos da Jacimar. Um rapaz da escola estava com a maçã esquerda do rosto vermelha de um soco que levou. Ele carregava uma faca, pois, pelo que pude entender, alguém agrediu sua irmã.
Veio uma tiazinha da escola, sempre elas, com clitóris de aço, enxotou o moleque e seus amigos traficantes pé de chinelos da escola.
Ironia não tem fim: descendo outra ladeira escuto que o Ryan apanhou, justamente o nome do filho de um amigo meu, este também é prof. de História.
É realidade demais pra um dia. Não quero refletir e problematizar isso. Tô cansado demais. Prefiro pensar que hoje o aproveitamento das minhas aulas melhorou muito. Vou carregar a tv e passar "A guerra do fogo" pros moleques. É um clichê, mas estou meio saudosista.
Outro dia eu tento acumular capital emocional pra digerir o lado escroto dos dias.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Eu escolho viver consciente

Sou um cara branco, hetero, cis e de classe média. Sou prof de escola pública, isso é contraditório? Foda-se. Me sinto feliz e tranquilo por sentir que estou fazendo o que deveria estar fazendo e estou onde deveria estar.
Moro num bairro periférico de Manaus. Subo e desço ladeira todo dia pra dar minha aula. Faço parte da comunidade na qual dou aula.
Hoje, ouvi "Fim de semana no parque" do Racionais. Pensei na primeira escola que fui lotado, onde tinha uma menina na 7a série que é analfabeta, ou na história de uma menina de 14 que se envolveu com um homem de mais de 20 (estupro, né? E/ou pedofilia?) e está grávida; na escola que trabalho tem um garoto que já é pai, outro usa drogas e um terceiro é filho de traficante.
Eu bem poderia ser o playboy que as músicas deles citam, isso me incomodou inicialmente.  Depois parei pra pensar e vi que é a poesia de um povo oprimido e que é preciso contextualizar.
Por outro lado, não acho que tenham desculpa para o machismo escancarado para músicas deles como "Vadias", ou sobre o preto traidor da classe que consome roupas caras e "vadias" loiras. De certa forma, a violência do oprimido serve para nos conscientizar que vivemos em um país brutalmente desigual e segregado.
Não acho que mereça medalhas por desistir de alguns dos meus privilégios de classe, porém essa visão maniqueísta é bem simplista. Não foram (segundo Gabeira), em parte, jovens de classe média que se envolveram na luta contra a ditadura civil militar?  Entretanto, temo que isso soe parecido com um discurso "classe média sofre".
Outro dia ouvi Metallica, "The unnamed felling", depois "Purple Haze" do Jimmi Hendrix. Dias bons e dias ruins. Alguns dias da vida de "adulto" são tão amargos, poderia cuspir fel ou tomar um anti ácido pra ressaca da cerveja ansiolítico. Teoria, nossa formação e nosso aprendizado fora de classe, tudo flui pela privada quando você vomita depois de uma bebedeira de bud água. Um projeto político pedagógico feito em uma tarde e a militarização (privatização) do ensino. Bem poderia ser o Estado vomitando sangue ou chorume.
Subi e desci essas ladeiras de Manaus esses dias. Poderia ser Sísifo condenado a fazer uma tarefa inútil, ou, talvez, quem sabe, Atlas segurando o mundo nos ombros. Porém, esse romantismo juvenil e simplório não me afeta faz bastante tempo. Não sou vítima, pois sou sujeito histórico, e nem sou herói, pois não sou a pessoa que faz milagres para sobreviver em um país desigual, injusto e retrógrado.
Me lembrei de uma citação de Sartre, algo sobre a questão filosófica mais importante ser sobre decidir se você quer ou não se matar. Não li isso (não tenho tempo, energia ou ânimo pra ler mais um bunda mole francês colonialista), vi na série Fargo. Uma jovem cita isso, uma coroa (sempre os coroas com verdades prontas e certezas sobre tudo) diz que isso é bobagem de um francês. Nós temos que interpretar um papel na vida, segundo ela.
Acho que a maioria das pessoas passa pela terra como autômatos, sem saber quem são e nem quem ou o que as oprimem. Não se questionam sobre todas essas criações humanas ao nosso redor. Essas barreiras seriam tão frágeis se existissem mais pessoas que se permitissem voar pelo sonho e utopia. Porém, a realidade capitalista é essa coisa cinzenta, opressora e patética.
Cuspir fel, se embrutecer, virar fatalista, ou tentar achar algum sentido, ou significar as coisas, "racionalizar" tudo isso, me parece mais sensato. A maioria das pessoas que vivem vidas confortáveis e não saem de suas zonas de conforto não sabem que viver é uma escolha. Pra algumas pessoas, é uma batalha diária sair da cama e encarar um mundo limitador, opressivo e cheio de barbárie, pra outras é a urgência de uma barriga vazia, delx ou de seus filho@s.
Robin Williams cometeu suicídio, depois de anos vivendo com a depressão. Ele se enforcou. Pessoas mandaram fotos, via twitter, pra sua filha nas quais seu pai estava morto. Esse é o mundo que vivemos.
Pedro Paulo Funari diz que o mesmo país que produziu Hitler produziu Beethoven. Eu digo, dane-se essa postura colonizada. O Brasil produziu Bolsonaro, mas também "produziu" Cartola, Pagu, Zumbi e outras pessoas anônimas que tombaram em nosso solo e seu sangue formam a capilaridades que vão inundar e afogar fascistas, latifundiários, esquerdistas traidores e a limitação da "realidade" que aceitamos como se fosse imutável e não uma frágil e débil construção humana. Eu escolho viver consciente. Se você também escolher o mesmo, podemos dividir um guarda chuva e talvez os nossos pés molhados nos façam perceber que estamos conscientes.

sábado, 12 de março de 2016

Aos colegas professores


O que eu aprendi nessas semanas de docência foi simplesmente a ouvir. A reconhecer algumas qualidades importantes como: sensibilidade, comprometimento e vocação para o trabalho. Percebi que isso vem antes de outras coisas. Posicionamento político é fundamental, mas discursos desligados da prática são apenas fuligem ao vento.
Entretanto, não podemos nos posicionar como educadores se nos recusamos a refletir sobre a sociedade, sobre política e sobre o que essas instituições “democráticas” propõem como políticas públicas.
É aí que entra a minha grande divergência com muitas colegas e muitos colegas. Não concordo com a militarização da vida, nem com homofobia, machismo ou racismo na escola. Todo dia escuto sobre as deficiências dos alunos, todo dia vejo a discrepância entre a escrita deles e o aproveitamento da minha aula que varia de aluno para aluno, todo dia penso em como posso fazer melhor, mesmo isso sendo muito difícil( pelo cansaço e pelas minhas limitações). Porém, como podemos criticar os alunos por seus erros quando não temos nem a capacidade de fazer auto crítica?! Humildade é uma qualidade defendida aos 4 ventos, mas que é muito rara de se encontrar.
Eu estava me desgastando com as crianças, gritando e dificultando o meu trabalho, porém agora as vejo pelo que são: crianças.
Agora, qual a desculpa para um adulto reforçar preconceitos (os mesmos que os nossos tataravós já pensavam) em sala de aula?! Isso é o que tira as minhas forças e a de muitas e muitos educadores. Mesmo assim, é preciso lembrar que não estamos sós, que não devemos nos calar e que precisamos desenvolver uma rede de apoio, não só para resistir à violência e opressão, mas para crescer e plantar essas sementes. Criar parcerias e inovar. Uma professora de metodologia deu a ideia de trabalho de campo, um professor de japonês aprimorou a minha ideia de projeto de ciência na escola. Já perdi muito tempo rebatendo falácia e senso comum de quem não se preocupa com as mazelas da nossa sociedade. Agora quero gastar a minha atenção com quem procura alternativas.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Uma lágrima

Uma lágrima desceu do rosto de uma mãe. Caiu na costa da mão de seu filho. Talvez essa gota seja a coisa mais sagrada que possa existir em um mundo injusto e brutal.
Só uma gota pode conter todo o sofrimento do mundo, de todos os seres humanos que já se foram, de todas as palavras não ditas, ou as que foram desperdiçadas, por serem repetição ou violência.
Essa gota escorre pelo rosto, por um caminho tortuoso, é seguida por gotas que não aprenderam a decidir por elas mesmas. Talvez elas só respeitem esse caminho que todas elas tem que seguir, pois esse caminho marcado na pele já tem uma história de luta e  persistência.
Uma gota de água nunca foi tão universal quanto essas. Elas quebram as barreiras de tempo e espaço, quebram a insensibilidade, a hipocrisia e a arbitrariedade da condição humana.
Esses frágeis riachos correm no rosto dos seres humanos. Não gostaria de estar no interior de quem só veste um terno de pele humana. Viver é sentir essa dor, mas também é todas as coisas que dão sentidos a isso e que vão ou podem significar, ou que podemos tentar fazê-las significar algo, até que a gente feche os olhos pela última vez, ou abraçarmos essa mãe uma última vez. Talvez tudo isso tenha sentido aí.