segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um sonho

A gente faz planos de médio e longo prazo. Sempre corremos o risco de, ao conquistá-los, sentir aquele vazio que sentíamos quando ganhávamos um brinquedo e ele só era algo sem sentido que a publicidade infantil inculcou na nossa cabeça. Por outro lado, pode ser algo tão importante quanto, ao pular no Rio Guamá, perceber que se caiu muito fundo e é preciso voltar pra superfície e respirar. Ou, em termos mais claros, quebrar o ciclo ou uma estagnação sufocante em que de tempos em tempos nos metemos. 
Beber e ver uma cena artificial de alguma festa idiota em que mauriçocas brincam de ser pobres ou mauriçocas, ou lisos, brincan de ser mauriçocas (mas eu também, de certo modo,  faço parte dessa baboseira de classe média). Ou  mesmo algo real como conversar com um amigo e ouvir seu s anseios, ou ouvir uma música e ativar alguma memória auditiva/ emotiva, pra mim é Buena Vista Social club e a a travessia da fronteira. Isso faz a gente relembrar o por que de termos começado andar por um caminho e não outro. Esse tipo de coisa traz clareza e reforça a vontade sair do limbo e dessa placenta em que flutuamos enquanto nosso sonho e nós estamos em gestação. 
Rompemos os casulos da zona de conforto e as barreiras que estavam na nossa frente. Emergi no rio Guamá, era noite e eu estava assustado pela falta de oxigênio, mas olhei pro céu e vi as estrelas, me senti vivo. Voltei pra margem e recomecei  o meu caminho. Algum tempo depois pulei mais próximo da  nascente do mesmo rio, em uma aldeia Tembé. Moral da história: não sei, acho que é melhor se afastar da cidade e pular em um lugar do rio em que não despejem o esgoto.  Ah , e mesmo nadando em placenta (ou em  um fluído corporal menos poético), é sempre possível não ser mais uma galho ou folha na corrente e decidir o seu rumo. Ou algum outro lugar comum do tipo, mas isso foi o que eu vivi até agora.  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A juventude dá voltas

A juventude é uma nuvem na qual a gente flutua, as vezes ela se dissipa, sem aviso nenhum, como um sonho bom que a nossa mãe nos acordou pra ir pra escola. A gente cai e se quebra em mil pedaços e que voltar a esse estado, mas é tão impossível quanto tentar controlar a vida.
Acho que o que nos coloca de volta é a noção de que vivemos algo real. Pra mim isso pode ser coisas bem simples, o primeiro gole de cerveja que tomo e antes da minha consciência turvar, olho pro céu, pra um prédio, depois volto pro chão e percebo o vento e uma folha que vai fugindo pela esquina. Uma mulher interessante que eu flerto e que flertar comigo, ou ao menos é o que eu pensava, até ela beijar sua bela namorada. Um amigo que sempre me faz rir e que compartilhamos as mesmas angústias e anseios. Não somos mais tão jovens, mas todos esses momentos e pessoas fazem a vida adulta não parecer tão cinzenta e nem tão sufocante. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Cotidiano

Os vovôs, as vovós e eu costumamos andar na praça Brasil, de manhã. Enquanto eu caminho, percebo que todas televisões estão sintonizadas no canal da Igreja Universal da Exploração da Fé, no jornal policial, as pessoas realizam o seu fascínio por sangue e a violência, eu somente olho pelo canto do olho a ira muito seletiva da justiça burguesa. Um dia é o traficante pé de chinelo, outro dia é algum pobre diabo semianalfabeto que o Estado só interviu com o seu braço armado. Me parece uma cena de ficção científica ruim ou distopia.
Por outro lado, nem tudo na minha visão é cinzento. A endorfina começa a ser bombeada no meu cérebro, meu coração se acelera e o álbum do The Stooges circula pelos meus tímpanos. Começo a observar tudo o que me cerca. Vejo o bar Meu Garoto e penso “poutz, seria legal matar a sede com uma breja”, aí lembro que é contrassenso ficar caminhando e depois beber cerveja. Ando mais um pouco e um vendedor de café da manhã grita “Corno fofoqueiro!”, quase olho pro lado e digo com meus olhos  “quem, eu?”.

Passo em frente ao tribunal, vejo os pinguins e marrecas (qual o feminino de pinguim? Não vou pesquisar no google, me diga você aí) entrando e saindo. As pessoas que vieram resolver alguma cagada mediada pelo Estado, ficam em frente ao faraônico prédio (ah esse  poder judiciário e seu complexo de pinto pequeno...). Isso só me faz pensar: putz, que bom que escolhi ser professor!
Dou outra volta na praça, vejo o verde dos gramados, de árvores grandes e belas (que não sei o nome e não tem sentido botar aqui, afinal de contas não sou biólogo) que já estavam lá quando eu era criança, pombos e passarinhos voam, uma mulher tatuada segura seu bebê e conversa com um amigo sentados num banco, mas isso não é um idílio, carros buzinam, alunos vão para suas escolas e pessoas vão para seus trabalhos, a vida se move ao meu redor, mas apesar de eu ter o controle desse relato, não sou um orador onisciente, sou tão carne e osso, sangue, contradições e limitações, tanto quanto as pessoas que eu observo e a sociedade em que vivo. Não, não olho de cima o que relato, me sintia parte desse momento em que estava, mas não no sentido “singing in the rain”, “tudo é mágico”, Amélie Poulain e esse tipo de bobagem, só observo essas coisas e ao observar e contar isso, me sinto vivo. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ressaca moral

Toda manhã depois de um consumo excessivo de álcool, quando você abre os olhos e pequenos pedaços de memórias começam a voltar, é um momento Jekil and Hyde, mas o Hyde é um disfarce que as pessoas se escondem, por que não querem encarar as palavras ou atos que fizeram que fujam da normalidade, ou o impulso de ser infiel (realizado ou não, depende do tipo de pessoa que você é), ou a vontade de dizer o que você realmente pensa sobre alguém (é tão bom chamar um academicista pelo que ele realmente é, ou mandar um reaça ir se foder).
Por outro lado, o clichê diz: “o que as pessoas fazem quando estão embriagadas, é o que elas não tem coragem de fazer sóbrias”. O que torna meio explicar por que algumas pessoas urinam em igrejas ou escalam prédios históricos ou quebram garrafas em paredes.
Uma vez li um historiador, ele disse que a loucura é uma resposta inconsciente a uma sociedade opressora, acho que a embriaguez pode assumir essas formas. As vezes as pessoas se sentem sufocadas pelas limitações da rotina ou de uma vida sem perspectivas ou de penúria, tal como o João Mau tempo, que se enforca em uma árvore, logo no início de “Levantado do chão”.

A vergonha é algo engraçado, por que a gente se importa com o que as outras pessoas vão pensar de nós, mas não ligamos realmente para o que fizemos e esses momentos tendem a se esvair como fumaça ou aquela poeira que podemos ver quando tem um feixe de luz solar, por isso a regra de ouro, não dita, entre os bebedores: não filme ninguém e cuide da sua vida. Acho uma ótima regra em vista que as pessoas são singulares e tem diferentes níveis de sensibilidade e reagem de formas diversas a situações humilhantes (vide o caso das garotas que cometeram suicídio com os vídeos de “revenge porn”).  De toda forma, isso não é um convite à inconsequência, simplesmente é um pouco de cinismo sobre as engrenagens que giram e movimentam nossas mentalidade e sociedade.
  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Alguns pontos sobre "O caminho para Wigan Pier" ou Uma breve reflexão sobre o pobre de direita

Esta obra de Eric Arthur Blair (e provavelmente a vida dele) tem o mérito de propor um socialismo horizontalizado, democrático e diretamente ligado com a classe trabalhadora. Seu nível de compromisso chega a um nível tão alto, provavelmente nunca vou me aproximar nem a milhares de quilômetros dele (participação na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas). Além disso, sua autocrítica sobre preconceitos de classe é muito válida e ainda relevante para qualquer pessoa de esquerda e que seja oriunda da classe média ou de elite, mas não somente para elas.
A condenação que o autor faz da visão de mundo de alguns socialistas, seus contemporâneos, desconstrói a ideia de que a sociedade está dividida entre proletários e elite e tenta fazer uma reflexão sobre o porquê da classe média e da classe trabalhadora se afastarem do socialismo. Por outro lado, acredito que ele culpa excessivamente o dogmatismo e vanguardismo dos socialistas (além de algumas afirmações anti-feministas e uma frase homofóbica, o posfácio do Mário Sérgio Conti já discute isso, recomendo a leitura) e não reconhece que ambas as classes são influenciadas por instituições bastante conservadoras (Família, Igreja, Mídia e Escola) e que fazem com que essas pessoas introjetem valores conservadores e desprezem partidos e movimentos que questionem o status quo.
Eu acho que não se pode relativizar o conservadorismo do povo brasileiro, especialmente o da classe trabalhadora. É preciso reconhecer que dificilmente um ambiente conservador, doutrinário e limitador forma pessoas libertárias, mas também que simplesmente chama-los de “burros” ou “alienados” não serve para explicar o nosso contexto histórico. Por outro lado, não engulo a relativização de que a classe trabalhadora “não é tão conservadora assim” ou que a culpa é da esquerda por não ter a capacidade de dialogar e atrair as classes oprimidas, ao menos não totalmente.

Bom, depois da minha vivência nas jornadas de junho de 2013 e de ver os arroubos nacionalistas e antipartidários (especialmente contra a esquerda), acho que é preciso reconhecer que boa parte da população (não só a classe trabalhadora) pode ser facilmente cooptada quando se utilizam conceitos como Nação, Família e Religião, além do espantalho da corrupção, “nenhum partido presta, mas vote no PSDB”. A esquerda tem que saber dialogar com diversos segmentos da sociedade, mas acho que não tem como dialogar com fascistas e conservadores enrustidos. É importante “separar o joio do trigo” e gastar energia de forma inteligente e estratégica com quem tem interesse de conhecer uma visão de mundo alternativa à revista semanal ou às perorações do comentarista da Globo. A alternativa é ficar gritando para os três ventos e ser engolido pelo mar de reacionarismo e fascismo. 

sábado, 11 de outubro de 2014

O “mistério” da noite

Uma forma aleatória que uma bebida vagabunda, cor de sangue, forma no piso da praça, essa provavelmente é a única coisa de nova que eu experimentei. Um amigo bêbado e emotivo me fala mentiras “sinceras” e me fornece o único momento real que tive.
Os corpos se movem ao meu redor, influenciados por olhares alheios. O cenário não é tão diferente e os personagens são os mesmos. Tudo tem um ar de farsa. É isso que essa noite pôde me dar.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Fogos de artifício

Um fogo de artifício explodiu no céu. Minha janela se encheu de um colorido e me lembrei que tem vida lá fora e que o mundo continua girando, tanto faz as minhas neuras e problemas. Esse tipo de clichê.
Isso me lembra quando a chuva passa, o contorno dos prédios, o horizonte cinzento e misterioso, vou andando pela rua até a minha casa, passando pelas ruas que cortam e vendo possibilidades de desviar de caminho. Isso as vezes me faz pensar sobre a possibilidade de escolher outros caminhos e sobre outros tantos caminhos que não tomei ou o acaso me impossibilitou de tomar. Não é bem um devaneio ou uma vontade de fuga da opressão e do tédio da realidade e dos limites do possível, assim como não é uma neura ou síndrome de Peter Pan. Acho que é só um desses momentos em que a gente sente a vida e as coisas parecem mais maleáveis, em que a gente se pergunta se realmente está onde deveria e se está fazendo algo significativo.
Sentir o cheiro do asfalto molhado, os carros passando rápido num borrão, as pessoas andando ao meu redor e os meus pés caminhando um depois do outro, tudo isso parece meio irreal as vezes.
Quando eu era criança, me lembro do igarapé Nazaré, perto do Xingu. Pensava que o meu pai era dono dele, mas nesse estado em que memória e fantasia se misturam. Nessas imagens em que a inocência torna tudo mais belo e singelo, em que a gente não consegue distinguir bem a realidade do sonho. Parecia um lugar quase mágico, me lembro do rio seguindo da nossa casa até lá e dos pássaros voando e nadando lá. Depois voltei no igarapé, já com 12 anos , provavelmente efeito das madeireiras, mais do que o sonho que se dissolvia, parecia um lugar tão desolado, comum e deprimente. Quase como os igarapés na beira da estrada de Mosqueiro. Me pergunto se a vida adulta não é uma série de momentos assim. 

Três anos depois

 Empacotei as tuas coisas, com calma e sem raiva, organizei tudo. Metodicamente apaguei os teus vestígios do meu quarto. Não estava com sono e precisava de algo para me distrair além de ler as bobagens acadêmicas repetitivas.
É estranho como esses rituais tornam o surreal mais aceitável. Sempre foi um conceito estrangeiro para mim o de fingir que não sinto dor e competir em quem está melhor sem a companhia de alguém que dizia nos amar e quem nós retribuíamos esses dizeres, nem sempre mecanicamente. Talvez pela mesquinharia desse esforço, talvez por que não sou um bom ator e por que sempre preferi meus poucos e bons amigos, do que vários robôs arrogantes e plastificados sugando ar ao meu redor.
Não mentiria e negaria que esses anos não deixaram uma marca em mim e que não cresci com a possibilidade de me preocupar com outro umbigo e outros pares de olhos.  De certa forma, espero que o aprendizado e a troca sejam mais duradouros do que a amargura e o cinismo.
É claro que não sou tão estoico ou uma criatura tão nobre e reluzente, não sou mais o menino que espernearia e bufaria por que alguém fez algo que ele não esperava, mas ainda assim sou o homem que está em uma situação na qual ainda não se acostumou, como um sapato que ainda não cedeu ou como se não me sentisse mais confortável em sua própria pele. É possível que eu quebre ou perca algumas coisas no caminho, mas talvez elas nem valiam a pena serem mantidas. É provável que eu quebre alguns vasos enquanto tateio esse novo lugar, mas as minhas pegadas vão sumir tão rápido quanto a água que jazia na terra e, de qualquer forma, não acho que muita gente seja capaz de percebê-las.  

domingo, 5 de outubro de 2014

Ridículo

Acho que todo mundo se sente ridículo. Todo mundo comete gafe, fala bobagem ou age de forma inadequada, em qualquer contexto que seja. Talvez a verdadeira medida do ridículo não seja o constrangimento que sentimos no momento ridículo, não é a nossa percepção e nem a de terceiros, mas o quanto tempo a gente remói o que consideramos ridículo, não só por ser uma construção humana, variável no espaço e tempo, mas acho que por que é um tempo demasiado grande de vida que gastamos pensando na opinião de outras pessoas (pior ainda quando não são importantes, mesmo se forem, ainda é um pouco bobo, enfim...).
Você pode ser super confiante ou ser um(a) sociopata e nunca ter esses sentimentos. Aí acho que você talvez seja ingênuo ou não seja capaz de perceber as outras pessoas, o que é um defeito bem comum, muitas vezes ele tem cura.
Eu acho que as pessoas podem passar a vida inteira sendo ridículas, mas é ridículo não reconhecer que o grau de ridiculidade é pré-definido pelo referencial, pelas nossa cultura e visão de mundo. O tiozão reaça que tem opiniões reaças não me parece tão ridículo, talvez o jovem que cresceu em um ambiente menos opressor e pense que ache que homem não chora e que não pode demonstrar afeto, seja mais ridículo. Talvez a pessoa que represente politicamente e forme a opinião desses milhões de tiozões reaças sejam os verdadeiros criminosos.

Talvez todo esse meu pensamento seja ridículo e uma perda de tempo, mas acho que depende com que tipo de nudez você se sente confortável e da leveza que você sinta depois de cada coisa que você faz. Bom, talvez isso seja um pouco "Polyana", mas e daí?! Não me importo tanto assim com o julgamento...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Pia, uto ou disto?

Estive pensando algo esses dias: nós realmente vivemos, é certo que com algumas licenças, o que algumas pessoas da década de 50 imaginavam para o ano 2000. Eles imaginavam uma família suburbana, mononuclear e patrilinear, ou pra ser mais claro, patriarcal. As pessoas usariam aros de plástico em torno dos cotovelos e joelhos, além de cores berrantes, acessórios fluorescentes e cones nos cabelos das donas de casa de classe média, acorrentadas ao papel de mãe e esposa submissa, sem direito a fiança. O meio de locomoção seriam carros voadores ou “jet packs”, que o homem branco e de preferência norte-americano, usaria para voltar ao lar com sua esposa e filhos loiros e sorridentes.
Bom, ao pensar nesse retrato, não deixo de pensar que nós também somos constrangidos por aros e sorrisos de plástico. Não temos as mochilas ou carros voadores, mas com certeza temos redes sociais, que tem o potencial de nos permitir ler sobre tudo, mas também nos distanciar de todos e não conhecer nada realmente; milhares de bugigangas eletrônicas, produzidas por trabalhadores escravos na Ásia, que tem uma durabilidade tão curta quanto sua utilidade, mas que servem de forma excelente como marcadores de status. Enfim, é o clichê que boa parte da classe média vive: “trabalhar 12 horas por dia para comprar coisas que não precisamos, para agradar pessoas de quem não gostamos”.
Por outro lado, falar sobre isso é também um clichê, mas voltando ao que eu tenho de novo para falar sobre isso é: nós realmente somos muito parecidos com o que esses criadores de desenhos e seriados e escritos de ficção científica, da década de 50, pensavam sobre o futuro. Por quê? Acho que pelo absurdo de viver em uma sociedade em que é preciso explicar para pessoas ignorantes, ou mais provavelmente de má fé, que homossexuais são assassinados justamente pela sua orientação sexual e não por algum dos outros muitos motivos da violência urbana, que mulheres são em larga escala vítimas da violência doméstica e que, mais absurdo ainda, é preciso explicar que uma mulher tem direito absoluto sobre o seu corpo e um companheiro não tem direito de violar esse direito, por que ela não é sua propriedade. É preciso explicar que o Brasil é um país extremamente desigual e segregado e que meritocracia é discurso para “boy” dormir. Como explicar (sem ser racista) que menos de 3% dos médicos são negros e que 60% da população carcerária é negra?
Hoje em dia as previsões para o futuro são distopias fatalistas e horripilantes, no estilo do filme “A estrada” (não recomendo), ou sobre futuros desastres climáticos causados pelo efeito estufa (que alguns políticos insistem em negar, mesmo sendo consenso entre os cientistas da área). Eu prefiro rejeitar tudo isso, por que o fatalismo é incompatível com a função de educador, mas não se pode “jogar o bebê com a água do banho”, não é possível ser um educador e a utopia não fazer parte da sua vida. Só não sei ainda em termos muito exatos o que ou como ela é. Talvez comece com “liberdade”.

sábado, 13 de setembro de 2014

Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”*


Dê uma olhada nessa foto. Você sabe de quem é?
A maioria das pessoas não ouviram falar dele. Mas você deveria ter. Quando você olha a face dele ou escuta o seu nome, você deveria ficar tão enojado quanto quando lê sobre Mussolini ou Hitler ou vê uma das fotos deles. Veja bem, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo. O nome dele é rei Leopold II da Bélgica.
Ele era “dono” do Congo durante o seu reinado como um monarca constitucional da Bélgica. Depois de várias tentativas coloniais fracassadas na Ásia e África, ele se instalou (?) no Congo. Ele o “comprou” e escravizou o seu povo, transformando o país inteiro em sua própria plantation escravista. Ele disfarçou suas transações de negócio como esforços “filantrópicos” e “científicos” sob a bandeira da International African Society (Sociedade Internacional Africana). Ele usou o seu trabalho escravo para extrair recursos e serviços congoleses. Seu reinado foi aplicado através de campos de trabalho, mutilações corporais, tortura, execuções e seu próprio exército particular.
A maioria de nós não é ensinada sobre ele na escola. Nós não ouvimos sobre ele na mídia. Ele não é parte da narrativa de opressão largamente repetida (a qual inclui coisas como o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial). Ele é parte de uma longa história do colonialismo, imperialismo, escravidão e genocídio na África que iria se chocar com uma construção social de uma narrativa supremacista branca nas nossas escolas. Não se encaixa facilmente (?) em currículos escolares em uma sociedade capitalista. Fazer comentários abertamente racistas é (às vezes) mal visto na sociedade “polida” (?); mas não tem problema em não falar sobre genocídio na África perpetrado por monarcas europeus capitalistas.   
Mark Twain escreveu uma sátira sobre Leopold chamada “Solilóquio do Rei Leopold; uma Defesa do seu reinado no Congo”, na qual ele ridicularizou a defesa do rei do seu reinado de terror, largamente através das próprias palavras de Leopold. É uma leitura fácil de (?) 49 páginas e Mark Twain é um autor popular nas escolas públicas norte-americanas, mas como a maioria dos autores políticos, nós frequentemente lemos alguns dos escritos menos políticos ou os lemos sem aprender o por que do autor o ter escrito pra começo de conversa. “A revolução dos bichos” de Orwell, por exemplo, serve para reforçar a propaganda norte-americana anti-socialista sobre como sociedades igualitárias estão condenadas em se transformar nos seus opostos distópicos. Entretanto, Orwell era uma revolucionário anti-capitalista diferente – um apoiador de uma democracia da classe trabalhadora a partir de baixo – e isso nunca é destacado. Nós podemos ler sobre Huck Finn e Tom Sawyer, mas “O solilóquio do rei Leopol” não está na lista de leitura. Isso não por acidente. Listas de leitura são criadas por conselhos de educação para preparar estudantes a seguir ordens e aguentar o tédio. Do ponto de vista do Departamento de Educação, Africanos não tem história.
Quando aprendemos sobre a África, nós aprendemos sobre um Egito caricato, sobre a epidemia do HIV (mas nunca suas causas), sobre os efeitos superficiais do tráfico de escravos e talvez sobre o Apartheid Sul Africano (os efeitos do qual, nós somos ensinados, estão agora há muito muito tempo acabados). Nós também vemos muitas fotos de crianças famintas em comerciais de Ministérios Cristãos (?), nós vemos safaris em programas de natureza e nós vemos imagens de desertos em filmes e nos cinemas. Mas nós não aprendemos sobre a Grande Guerra Africana ou sobre o Reino de terror de Leopold durante o Genocídio Congolês. Nem aprendemos sobre o que os EUA fizeram no Iraque e Afeganistão, matando milhões de pessoas através de bombas, sanções, doença e inanição. Contagens de corpos são importantes. E o governo dos EUA não contam pessoas afegãs, iraquianas ou congolesas.
Embora o Genocídio Congolês não esteja incluso na página “Genocídios na História”, da Wikipédia, ela menciona o Congo. O que não é chamado de República Democrática do Congo está listado em referência a Segunda Guerra do Congo (também chamada de Guerra Mundial da África e a Grande Guerra Africana), onde ambos lados do conflito regional caçaram o povo Bambenga – um grupo étnico regional –,  escravizaram e canibalizaram eles. Canibalismo e escravidão são males horrendos, os quais deveriam entrar na história, com certeza, mas eu não posso deixar de pensar em quais interesses foram servidos quando a única menção do Congo na página era em referência à incidentes regionais onde uma pequena minoria de pessoas na África estavam devorando umas as outras (completamente esvaziado das condições que criaram o conflito e  as pessoas e instituições que são responsáveis pelas condições).    
Histórias que apoiam a narrativa de supremacia branca sobre a sub-humanidade do povo na África são permitidas a entrarem aos registros da história. O cara branco que transformou o Congo em sua propriedade privada parte plantation, parte campo de concentração, parte Ministério Cristão – e matou 10 a 15 milhões de pessoas congolesas nesse processo – não é suficiente para ser incluído.  

Leopold era só uma das milhares de coisas que ajudaram a construir a supremacia branca em tanto uma narrativa ideológica como realidade material. Eu não finjo que ele era a fonte de todo o mal no Congo. Ele tinha generais, soldados rasos e gerentes que faziam a sua vontade e aplicavam as suas leis. Ele estava no topo do sistema. Mas isso não exclui a necessidade de falar sobre indivíduos que são simbólicos do sistema. Mas nós não conseguimos nem isso. E como não isso não é abordado, o que o capitalismo fez para África, todos os privilégios que pessoas brancas ricas ganharam do Genocídio Congolês, permanecem escondidos. As vítimas do imperialismo são tornadas, como elas geralmente são, invisíveis. 

*Texto traduzido deste blog: http://www.walkingbutterfly.com/2010/12/22/when-you-kill-ten-million-africans-you-arent-called-hitler/

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sobre o "Na moral" e outros engodos e enlatados da Globo

O último "Na moral"  abordou  o feminismo (ou fingiu que tentou). Sabe, passo longe de programas como esse e como o "Esquenta!", no caso deste, por que reforça o mito da democracia racial, quando é patente que negro em novela geralmente aparece em papel subalterno ou marginalizado. 
No caso do primeiro, me embrulha o estômago, por que tenta dar um ar democrático ou modernoso para um oligopólio midiático que não simplesmente apoiou o golpe e a Ditadura Civil-militar (e ainda apoia e apoiaria outros golpes), mas que é uma das principais crias desse período sinistro da nossa história. É um grupo que sempre criminalizou movimentos sociais, que apoia a militarização da PM e o genocídio da juventude negra, escandaliza a política, ou seja, aliena a população. Sem falar que transmite a ideia ora de um Brasil ariano ora de uma harmonia cor de rosa entre as "raças".
Eu acredito que boa parte das pessoas, se tivesse a opção entre uma programação variada e de qualidade, sem dúvida nenhuma a acolheria de braços abertos, ao invés da exibição de diuturna de novelas (nada contra elas, só contra o monopólio).

Por último, a forma como a televisão está organizada, como afirma Bourdieu, é uma ameaça à democracia. Temas relevantes para a sociedade precisam ser discutidos apressadamente entre blocos de um programa muito curto, enquanto programas de fofoca e outras banalidades merecem horas a fio de tempo, ou mesmo debates políticos que precisam ser cronometrados, mesmo supostamente a televisão sendo uma concessão pública em nossa legislação. É como o Chomsky defende, essa configuração não é por acaso, qualquer ideia que desconstrua o senso comum e o conservadorismo e questione o status quo, geralmente é complexa e precisa de tempo para ser discutida adequadamente, algo quase impossível de fazer nesses espaços. Por isso a televisão é um espaço eminentemente conservador e alienante. 

P.s.:O link do texto da Clara Averbruck 
http://lugardemulher.com.br/a-mulher-que-passa-e-responde/

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Repetições

Bom, como articular e expressar esse pensamento em palavras, sem soar machista e reaça...Acho que é simples: todo apoio ao direito das mulheres sobre o corpo delas. A questão que me incomoda, com esse ciclo e repetição interminável de jovens pop stars, arianas, estadunidenses e cabeças de vento se auto afirmando como "mulheres" ou seja lá que diabos que elas queiram fazer, é simplesmente o caráter cíclico desse fenômeno (justamente, também, um reflexo da cultura conservadora e puritana dos norte-americanos que torna isso vendável por chocar o falso moralismo) e o oportunismo das pessoas que tentam comercializar um tipo de sexualidade ou modo de ser. 

O que me incomoda é todo esse gasto de latim com um enlatado gringo, além das repetições em torno dele. A mocinha usa alguma roupa curta e faz uma dancinha sensual. Os conservadores soltam suas pérolas misóginas de sempre. As pessoas de esquerda refutam as baboseiras dos conservadores (o que é legítimo). Tudo isso por que um(a) empresári@ pensou em comercializar a sexualidade alheia e hipersexualizar alguém mal saída da adolescência. Apesar de não necessariamente elas serem pobres vítimas exploradas, por que também enchem, com o perdão da palavra, o toba de dinheiro difundindo um padrão irreal de beleza e hipersexualizando crianças e adolescentes (mas é claro que a indústria do entretenimento com certeza é responsável por tão frequentemente deformar as personalidades de crianças e jovens e produzir adultos disfuncionais vide Michael Jackson, River Phoenix e Britney Spears).

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Aí já é vandalismo

Hoje quando estava à caminho da minha aula no cursinho da UFRA, estava ocorrendo uma manifestação que parou o trânsito. Foi uma verdadeira experiência sociológica não estar participando dela e ouvir o que as pessoas que não participam (e nunca participaram e nem vão) dizem, a máxima direto do século XIX: "povo que não quer trabalhar e fica na baderna" ou o discurso tirado direto da doutrinação da velha mídia: "tudo bem fazer manifestação, mas fazer N já é vandalismo". 

É curioso viver em um país com tanta gente regurgitando discursos despolitizados e recheados de senso comum sobre a corrução, mas quando diversos segmentos da sociedade se mobilizam e lutam por seus direitos, essas mesmas pessoas “indignadas” com a alienação dos brasileiros reclamam que vai atrapalhar o trânsito ou ficam cagando regras sobre as manifestações sem nem ao menos ter participado de uma. Ou, pior ainda, compram o discurso da mídia e apoiam a criminalização de movimentos sociais, ao invés de entender o contexto que estamos vivendo em nosso país: de gentrificação das cidades, gastos de bilhões do nosso dinheiro público pra financiar a festa da FIFA e das empreiteiras, grandes obras na Amazônia passando por cima dos direitos humanos básicos dos indígenas e populações tradicionais. 


Nem todo mundo que fica querendo ditar regras pra manifestações populares ou comprando o discurso da velha mídia necessariamente apoia as truculências da polícia ou o autoritarismo do governo, mas com quem e o que a gente se revolta diz muito sobre a gente. Sinceramente, fodam-se agências bancárias e manequins da Toulon, estou mais preocupado com uma polícia militarizada e assassina da juventude pobre e preta,  me indigna que o poder público defende os interesses de bancos e empreiteiras que financiam suas campanhas políticas e com oligopólio midiático, principalmente da Globo, construído com o apoio ao golpe e à ditadura civil-militar. O resto é só falatório de gente conservadora que não quer sair do armário ou de analfabeto político.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Três coisas que fazem cabeças libertárias* explodirem


Libertarianos tendem a cavalgar em unicórnios teóricos que não os leva muito longe no mundo real

Libertarianos são proponentes de uma filosofia que adota a ideologia de livre mercado, governo limitado e um certo tipo de liberdade individual. Eles gostariam de pegar o governo e matá-lo no ovo (They would like to take the government and drown it in the proverbial bathtub). Libertarianos, infelizmente, tendem a cavalgar em unicórnios teóricos que não os levam muito longe no mundo real.
Da próxima vez que você se encontrar na companhia de um desses seres excêntricos, tente puxar um dos seguintes tópicos e assista eles começarem a galopar em dez direções ao mesmo tempo.
1. O problema da desigualdade: Por que algumas pessoas ficam com a maior parte dos brinquedos? O fato de em um sistema capitalista, o dinheiro parecer fluir para a mão de poucos é uma fonte de grandes dores de cabeça para muitos libertarianos, no entanto, não todos – alguns parecem considerar qualquer resultado do mercado como a mão de Deus, a própria (as the hand of God herself).
Irrefutavelmente, a distribuição de renda dos EUA se tornou ridícula, classificada a 4ª no mundo dentre 141 países para a desigualdade, atrás de Rússia, Ucrânia e Líbano, e isso perturba muitos libertarianos.
Os libertarianos geralmente começam por insistir que a quantia de dinheiro que você tem se reduz às escolhas que você faz como indivíduo. Decisões ruins, estúpidas = pobreza. Decisões boas, inteligentes = riqueza (aqueles oligarcas russos sabidos!). Frequentemente, o libertariano irá correr em defesa dos ricos. Por exemplo, nós temos W. Michal Cox, diretor da Southern Methodist University’s Center for Global Markets and Freedom, oferecendo esse delicioso pedaço de sabedoria recentemente no Glenn Beck show:
“A verdade é: Se você olhar para quase todas as pessoas bem sucedidas neste país, desde o tempo em que eles eram jovens eles brincaram com as crianças certas, estudaram na escola, tiraram boas notas, conseguiram um emprego e um monte de educação, foram produtivos no trabalho todos os dias, economizaram o dinheiro deles, começaram um negócio, contrataram pessoas, investiram – eles fizeram boas escolhas.”
A verdade é, no entanto, essa: Muitas pessoas ricas ficam ricas simplesmente por nascer de pais ricos. Outras ficam ricas roubando outras pessoas. Banqueiros cometeram fraude em massa em empréstimos de hipotecas que acarretaram na crise financeira, e continuam a onda de crimes, os quais incluem lavagem de dinheiro para terroristas e cartéis de drogas, inflacionando preços e manipulando os preços de commodities, pegando subornos, atuando em insider trading, participando em esquemas ponzi, adulterando os livros contábeis, e por aí adiante. A fraude se infiltrou tanto nas corporações norte-americanas que o legendário short seller (espécie de investidor no mercado de ações) Jim Chanos decreve uma cultura na qual executivos pensam que eles tem um dever fiduciário de trapacear. A ideia é que como todo mundo está trapaceando, eles tem o dever com os acionistas de trapacearem para se manterem competitivos!
Além de crimes gritantes, banqueiros estão se envolvendo muito mais em especulação irresponsável que desestabiliza a economia do que fazendo coisas úteis como emprestar dinheiro para pessoas que precisam dele. Em termos simples, eles fazem uma grande parcela de dinheiro pilhando a economia, trapaceando os contribuintes e sacaneando clientes com taxas e truques. Resultado: os banqueiros ficam muito ricos, enquanto o resto de nós fica mais pobre.
Quando forçados a encarar a desigualdade, libertarianos frequentemente falam sobre nepotismo, algo que eles insistem que não iria acontecer na utopia de livre mercado deles. Nepotismo, eles insistem, se trata exclusivamente de favores governamentais, se esquecendo que nepotismo é descontrolado entre vários operadores do mercado. O que você chama quando presidentes de corporações conspiram com as diretorias delas para se premiarem com salários escandalosos? Se você fala em português (um falante de português), você chama isso de nepotismo (cronyism). Quando um dono de um banco conspira com outros donos de bancos para fazer coisas como interferir com os preços ou esmagar a competição, isto também é uma forma de nepotismo. Por algum motivo absurdo, libertarianos parecem pensar que nepotismo é só algo que negócios fazem com governos.
Timothy Carney, do Washington Times, recentemente evitou a questão do nepotismo alegando que como a maior parte das pessoas ficam ricas “através de meios do mercado” e que a sua acumulação de riqueza não prejudica a economia, então nós não deveríamos ficar incomodados.
Primeiramente, o que exatamente quer dizer “meios do mercado”? Claramente, bastante desigualdade vem direto de forças do mercado, como o fluxo de mercados para áreas onde os salários são baixos.
Segundo, conforme os economistas começaram a examinar a questão de desigualdade de renda, eles estão descobrindo que prejudica, de fato, o crescimento econômico. Como Paul Krugman indicou recentemente, no New York Times, a prova, a qual inclui dois estudos pioneiros feitos pelo IMF e um por Barry Cynamon e Steven Fazzari como parte de um grupo de trabalho no Institute of New Economic Thinking, mostram que reduzindo a desigualdade extrema nos EUA provavelmente iria aumentar o crescimento econômico. Em outras palavras, se os EUA adotassem políticas tributárias e distributivas semelhantes as da Europa, nós bem poderíamos ter crescimento econômico (países na Europa com menos desigualdade resistiram a tempestade recente, causada por um sistema monetário defeituoso, melhor do que aqueles com mais).
Nem vamos falar sobre como a desigualdade nos transforma em uma sociedade classista, estilo Downton Abbey (série sobre a aristocracia inglesa e seus servos na primeira metade do século XX), ou como isso sabota a democracia por permitir que dólares de corporações e bilionários dominem o sistema político, ou como torna as pessoas fisicamente e mentalmente doentes. Desigualdade é um flagelo para a sociedade, e libertarianos não conseguem lidar com isso.
 2. O problema dos bens públicos. Na utopia libertariana, você não acharia nada além de indivíduos fazendo transações privadas em mercados privados. Essas trocas entre indivíduos sempre seriam justas, porque as leis de oferta e procura garantiriam que você conseguisse as coisas que precisa a um preço justo. Você quer uma pizza, você compra a pizza de uma pizzaria, a qual a produz para você a um preço razoável. Todo mundo fica satisfeito.
Mas, e se você quiser comprar pizza de noite, e você precisa de postes de luz para poder andar até a pizzaria? Agora você tem um problema, por que você não pode sair e comprar um poste de luz.
Bens públicos como postes de luz, água fresca e sistemas de defesa não são pizzas. Eles são fundamentalmente diferentes, por que você geralmente não pode sair e comprar eles sozinho. Ao contrário de pizzas, eles não são consumidos por uma pessoa ou grupo de pessoas. Por exemplo, uma vez que estiverem construídos e funcionando, qualquer pessoa que ande pela rua se beneficia do poste de luz, e não tem nenhum jeito de tirar a luz de uma pessoa específica. O poste de luz é um bem comum ou público.
Os libertarianos tentarão argumentar que muitas coisas consideradas bens públicos podem, na verdade, ser fornecidas por mercados privados. Como isso funcionaria no caso de postes de luz?
Digamos que de algum modo você, ou um grupo de pessoas, conseguissem juntar um monte de dinheiro e pudessem sair e comprar de verdade um poste de luz. Agora você teria o problema dos free-riders (conceito econômico que significa pessoas que não pagam pelo serviço), por que pessoas que não ajudaram a pagar o poste de luz o usariam.
Coisas como postes de luz tem que ser fornecidas fora do mercado. Os custos tem que ser compartilhados, por que bens públicos beneficiam grupos enormes de pessoas. Uma das funções centrais do governo é fornecer bens públicos que mercados ou falham em fornecer ou não podem fornecer eficientemente, e essa é uma das razões pelas quais os libertarianos ficam incomodados (get into a tizzy about them) com eles.
Outro bem público que desconcerta libertarianos é a defesa nacional. Se você mencionar para eles que é impossível o mercado fornecer a defesa de um país, eles cruzarão os braços e responderão: “Como você sabe?” Eles irão insistir que se existir procura suficiente, a oferta vai magicamente aparecer.
Bom, a história nos mostra que países que não se organizam com relação a defesa nacional têm grandes problemas. É quase loucura pensar que mercados privados teriam fornecido a defesa contra a crescente ameaça da Alemanha, nos anos 30, não menos importante por que como agora está bem documentado, muitos interesses de negócios privados nos EUA, Grã-Bretanha e França preferiam aceitar os nazistas.
Para enfrentar o argumento sobre oferta e procura com relação à defesa nacional, você pode simplesmente indicar que o recrutamento foi necessário em todas as principais guerras. Você pode as vezes achar gente suficiente para se voluntariar durante tempos de paz, mas as pessoas têm um hábito engraçado de não quererem ser mortas durante períodos de guerra. É por isso que na Guerra Civil dos EUA o recrutamento foi um caos total, com pessoas ricas pagando pessoas pobres para irem lutar no lugar deles. Em 1863, Nova Iorque explodiu em um tumulto homicida de quatro dias por que as pessoas se opuseram à lei de recrutamento da Guerra Civil, a qual permitiu que pessoas ricas, como J.P Morgan e Andrew Carnegie, pagassem um substituto. Esse tumulto foi um dos mais sangrentos na história dos EUA.
Outra coisa que você pode apontar para libertarianos é como muitos bens públicos, como pesquisa e infraestrutura, são necessários para todos esses maravilhosos produtos que eles são tão apegados. O IPhone não existiria se o público não tivesse investido em pesquisa para desenvolver o GPS e tecnologia de touchpad, ou desenvolvendo a Internet, ou criando as autoestradas com as quais a Apple pode mover os seus produtos.
Para prosperar, os EUA precisam de mais e melhores bens públicos, não menos, e algumas coisas simplesmente não podem ficar a cargo de mercados, o que nos leva ao nosso próximo assunto.
3. O problema da regulação. Libertarianos notoriamente se opõe a regulações governamentais de negócios. Eles presumem que mercados não precisam de nenhuma regulação porque eles são naturalmente competitivos, e em mercados competitivos, boas ideias e produtos irão florescer, e os ruins serão punidos (claramente eles não assistiram TV à cabo recentemente). Para eles, competição é a grande força criadora do universo e os melhores empreendimentos humanos são um resultado de pessoas vencendo seus rivais.
Voltando para a realidade (Reality check): Mercados não são invariavelmente naturalmente competitivos. Aliás, muitos possuem a tendência de se direcionarem para condições prejudiciais como oligopólio, o que os torna entidades anti-competitivas.
O libertariano tentará dizer que oligopólios são culpa da intervenção do governo. Mas existem muitos exemplos para refutar isso. Se você examinar a história, mesmo em períodos quando governos foram bem limitados e serviram meramente como vigias noturnos, você achará grandes e sujos oligopólios, como as ferrovias ou aço do século XIX. Hoje, nós encontramos sistemas operacionais (pene no Netscape e Microsoft) como exemplos de condições oligopolistas.
Olhe o caso da indústria automobilística norte-americana. Essa indústria não se consolidou em um punhado de grandes produtores por causa de algo que o governo fez. Ela se consolidou por causa de algo que os economistas chamam de “economias de escala”. Os caras grandes podem operar de forma mais barata, e os caras pequenos tem custos mais altos. Os caras grandes também podem fazer empréstimos mais baratos. Essas vantagens bloqueiam o funcionamento de um mercado competitivo, e adivinha o que acontece? Oligopólios acontecem. Claro que os garotos grandes amam dobrar o governo de acordo com as necessidades deles também, mas a alegação de que todo mundo cresce somente por causa do governo é absurda.
Economias de escala significam que tem todo tipo de coisas que nós precisamos que simplesmente não vão vir até nós através de mercados competitivos, e nós tendemos ou a transformá-las em bens públicos, ou uma alternativa menos atraente, nós somos extorquidos.
Pense em algo como água, um bem público. Se você liga a torneira na sua cozinha e a água sai por causa do investimento público em canos para distribuírem água. Como você vai conseguir competição entre empresas privadas na distribuição daquela água? Você vai ter quatro ou cinco sistemas de canos chegando na sua pia? Não, você não vai. Quando ouvimos libertarianos e privatizamos coisas como água, algo acontece tão certo como o sol nasce: preços sobem. O IMF e muitos países em desenvolvimento desafortunados descobriram isso quando como um resultado das más orientações das políticas do Consenso de Washington países em desenvolvimento foram forçados a privatizar o suprimento de água deles.
Libertarianos se comportam como se o lema dos mercados deveria ser algo como o antigo slogan da GE: “Nós trazemos coisas boas à vida.” Mas, como o economista Douglas K. Smith apontou, o que os mercados frequentemente trazem para as nossas vidas é uma completa merda.
Muitos mercados são instáveis e eles estão sempre fazendo burradas. O mercado do automóvel, em adição em nos trazer carros, também nos trouxe obsolescência programada (GE recentemente redescobriu esse truque). A indústria dos automóveis também reduziu o fornecimento de coisas como cintos de segurança e air bags que tornam os carros mais seguros, e obstruiu a inovação para a economia de combustível.
Libertarianos podem detestar admitir, mas muitas pessoas em mercados na verdade ficam ricas por lucrarem com o fracasso do mercado – é só olhar para a grotesca indústria do setor de saúde dos EUA. Espertos operadores de mercado descobrem que ao invés de nos fornecer as coisas que precisamos, frequentemente é mais rentável trapacear, aumentar preços, manipular proteções de propriedade intelectual, subornar médicos, estrangular a distribuição e participar de todo tipo de pilantragens que tornam o nosso serviço de saúde o mais caro do mundo, e no entanto inferior em qualidade.
Como Smith escreve:
“Capitalistas podem escolher entre duas respostas para mercados que estão fracassando. Eles podem apostar o capital deles no conserto deles – em trazer mais coisas boas à vida. Ou, eles podem fazer todo o possível para extrair mais e mais lucro estendendo, expandindo e exacerbando os fracassos.”
Na indústria do setor de saúde, assim como uma variedade estonteante de outras áreas, como mercados habitacionais, mercado de energia, mercados de trabalho, mercados de serviços financeiros, e talvez mais assustadoramente, mercados capitais nos quais o dinheiro chapinha através de um sistema global extraindo riqueza através de instrumentos desregulados como derivativos, mercados fracassam espetacularmente. Regulação é a única forma de consertar esses evidentes fracassos do mercado.
Só deixando tudo para os mercados, como os libertarianos recomendam, é frequentemente garantido a produzir roubos épicos.
 Pronto! Agora você está pronto para aproveitar o seu próximo coquetel e assistir o circo pegar fogo (assistir os fogos de artifício- watch the fireworks).

*É a única vez que eu me refiro a essa ideologia dessa forma, por que como o Chomsky afirma, os libertários, apesar do nome, clamam pelo pior tipo de tirania: poder privado concentrado e sem limites.

Texto traduzido desse site: http://www.alternet.org/economy/3-things-make-libertarian-heads-explode?page=0%2C0

domingo, 18 de maio de 2014

Trecho de História do Cerco de Lisboa - José Saramago

"Que vem entrando, e diz, Desculpe tê-lo feito esperar, o ruído da porta e s palavras sobressaltaram Raimundo Silva, apanhado de costas voltadas, e agora vira-se precipitadamente, Não tem importância, responde, eu só vim para, não termina a frase, também a este rosto é como se o visse pela primeira vez, tantas vezes, nestes dias, tem pensado na doutora Maria Sara, e afinal, não era numa imagem dela que pensava, o simples nome ocupara todo o espaço disponível da lembrança, progressivamente fora invadindo o lugar dos cabelos, dos olhos, das feições, do gesto das mãos, somente podia reconhecer de longe a macieza da seda, não porque a tivesse tocado alguma vez, já o sabemos, e também há que esclarecer que não estava recorrendo a sensações antigas para morbidamente imaginar o que esta poderia ser, por impossível que pareça Raimundo Silva conhece tudo desta seda, o brilho, o mover brando do tecido, as flutuantes pregas, como areia dançando, embora a cor de agora não seja a de então, também ela emersa nas brumas da memória, se não é desrespeitar o hino pátrio. Trago-lhe aqui as provas (texto revisto), como combinámos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer, à passagem, agora está sentada à secretária, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu, Não vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, tão perto dela está que pode ver-lhe o coração suavíssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do íntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer até a poetas medíocres, O íntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que não se acredite, o roçar inefável as pétalas, ou teria sido o roças da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem a imaginar.
A doutora Maria Sara disse, Muito bem. Apenas estas duas palavras, num tom que não prometia outras falas, e Raimundo Silva, tão bom entendedor até de meias palavras, compreendeu, ditas estas duas, que nada mais tinha que fazer ali, viera para entregar provas, entregara-as, agora só lhe restava despedir-se, Boas tardes, ou perguntar, Precisa ainda de mim, interrogação muito comum que tanto é capaz de exprimir humildade subalterna como uma impaciência refreada, e que, no caso presente, usando o tom adequado, se poderia tornar em irónico remoque, o mau é que muitas vezes o destinatário ouve a frase mas não dá pela intenção, basta que estivesse folheando com profissional atenção umas provas tipográficas, e ainda mais se se tratava de versos, que exigem cuidado especial, Não, não preciso, respondeu, e levantou-se, foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, tão alheio ao acto como às consequências dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefacta, não estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitário (móvel) vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo não se esperaria é que mulher tão segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrível que se possa corar assim no tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, não do corpo. Mas o mais extraordinário de tudo foi que Raimundo Silva corou também, e por mais tempo que  ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridículo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou virá a dizê-lo. Em situações como esta, faltando a ousadia, e não nos perguntemos, Ousadia para quê, a salvação está na fuga, é bom conselheiro o instinto de conservação, o pior vem depois, quando repetimos as horríveis palavras, Que vergonha, todos passámos já por horrores assim, de raiva e humilhação damos socos na almofada, Como pude ser tão estúpido, e não sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale é estarmos protegidos pela escuridão do quarto, ninguém nos vê, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condão mau de tornar irremediáveis e monstruosas até as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraça como a de agora. Raimundo Silva virou costas bruscamente, com a ideia vaga de que tudo se havia perdido na sua vida e que nunca mais poderia voltar a esta casa, É absurdo, absurdo, repetia em silêncio e parecia-lhe que o dizia mil vezes enquanto fugia para a porta, Em dois segundos sairei, estarei fora, longe, quando no derradeiro e preciso instante o deteve a voz de Maria Sara, inesperadamente tranquila, em tal contradição com o que neste momento se está passando aqui que foi como se o significado das palavras se tivesse perdido no ar, se não fosse a certeza final do ridículo Raimundo Silva teria fingido que acreditar que ela dissera mesmo, Saio dentro de cinco minutos, é só o tempo de terminar um assunto na direcção literária, posso dar-lhe uma boleia, se quiser. Com a mão aferrada à maçaneta da porta, ele buscava desesperadamente parecer natural, e quanto lhe estava custando, uma parte de si ordenava-lhe, Vai-te embora, a outra olhava-o como um juiz e sentenciava, Não terás outra oportunidade, todos os rubores e surpreendimentos tinham perdido a importância em comparação com o grande passo dado por Maria Sara, porém em que direcção, meu Deus, em que direcção, e aqui está como nós, humanos, somos feitos, que apesar da confusão em que se debatia, de sentimentos, já se vê, ainda lhe sobrava frieza de espírito para identificar a irritação que lhe causara a palavra boleia, absolutamente inadequada à ocasião pela sua patente vulgaridade de fado corrido, a série foi irresistível e instantânea, boleia tipóia fado, Levo-o aonde quiser, podia ter dito Maria Sara, mas provavelmente não se lembrou, ou achou que devia evitar a ambiguidade duma tal frase, Levo-o aonde você quiser, Levo-o aonde eu quiser, é bem verdade que o estilo elevado costuma falar quando mais precisamos dele. Raimundo Silva conseguiu-se soltar da porta e permanecer firme, observação que pareceria de gosto de duvidoso se não fosse expressão duma ironia amigável enquanto esperamos que responda, Muito obrigado, mas não quero desviá-la do seu caminho, ora aqui vem muito a propósito dizer que o soneto está a sofrer com a emenda e que ao desastrado revisor não restaria mais que morder a língua se o tardio sacrifício servisse para alguma coisa, felizmente não deu Maria Sara, ou fingiu não dar, pela duplicidade maliciosa da frase, pelo menos não lhe tremia a voz quando disse, Não me demoro nada, sente-se, e ele faz quanto pode para que lhe não trema a sua ao responder, Não vale a pena, gosto de estar de pé, pelas palavras que tinha dito antes parecia que recusara a oferta, agora se vê que aceitou. Ela sai, regressará antes de passados os cincos minutos, entretanto espera-se que ambos recobrem o ritmo da respiração, o sentido da avaliação das distâncias, a regularidade do pulso, o que não será certamente pequena proeza depois de tão perigosos cruzamentos. Raimundo Silva olha a rosa, não são só as pessoas que não sabem para o que nascem.
Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai dos sítios onde vivo, Ao pé do castelo, Sabe onde moro, Na Rua do Milagre de Santo António, vi na sua ficha, depois de um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor (*por que ela queria descobrir se ele estava escrevendo um livro, o primeiro livro dele), foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, e aliás não devo esquecer-me de que sou seu subordinado, foi nessa altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre essa frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo." pg. 169-75.

domingo, 27 de abril de 2014

Mais camisas brancas e discursos vazios

Os governistas geralmente apelidam a velha mídia, especialmente a rede Globo, de P.I.G. (partido da imprensa golpista) em vista da cobertura desproporcional para o mensalão em comparação com os escândalos do PSDB. No entanto, vendo essa edição do “Esquenta”, não posso deixar de questionar essa visão sobre a mídia, por que sobre a guerra às drogas que na verdade é a guerra aos pobres e aos pretos, essa mídia é uma grande entusiasta e apoiadora dessa política.
Outro elefante que eles tentam esconder de baixo do tapete é a PM, mesmo enfeitando um auditório de camisas brancas (a marca de organizações despolitizadas e massas de manobra) e produzindo discursos genéricos sobre a “violência” e que a solução para esse problema é a “educação” (que educação é essa? Pública, gratuita, universal e de qualidade não deve ser, por que a imprensa, especialmente a Globo, lucrou os tubos apoiando a implementação das políticas neoliberais do PSDB), esse discurso pode enganar os ingênuos ou incautos, mas eu me lembro que quem matou o Douglas, o Amarildo, a Cláudia Silva Ferreira e outros milhares de pretos e pobres inocentes, ou não, foi a PM e não um conceito abstrato, tanto faz como eles queiram chamar. Não me esqueci do histórico desses diversos veículos de comunicação: sempre criminalizaram movimentos sociais, lutas populares e da classe trabalhadora. Não me esqueci que a Globo demorou uma semana para noticiar o desaparecimento do Amarildo e só o fez por que o barulho que as pessoas faziam na rua estava ficando alto demais e era constrangedor seguir ignorando-as.
Outro ponto interessante desse evento foi o fato da emissora chamar majoritariamente pessoas brancas para falar sobre o racismo e a segregação que a população negra sofre no Brasil. O que foi uma espécie de “black face” (gênero de comédia racista em que uma pessoa branca pinta o rosto de negro) séria, mas não menos racista. Não existem intelectuais, atores, representantes de movimentos sociais e políticos negros?! Bom, não era de se espantar, o que esperar de uma emissora conservadora e racista que reserva para os negros os papéis de empregados domésticos ou bandidos nas novelas e que retrata um Brasil de gente de classe média alta ou rica e ariana?!
Eu respeito o luto das famílias que tiveram entes queridos assassinados pela PM. Acredito que esse é o momento de exigir a desmilitarização da PM, o fim da guerra às drogas e o fim do oligopólio da mídia, pela democratização da comunicação.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Noam Chomsky: O tipo de Anarquismo que eu acredito e qual o problema com os Libertarianos *

O Anarquismo "presume que o ônus da prova para qualquer um em uma posição de poder e autoridade pesa sobre eles" explica Chomsky.

O seguinte é o texto adaptado de uma entrevista que apareceu primeiro na revista Modern Sucess. Tantas coisas foram escritas sobre e discutidas pelo professor Chomsky, foi um desafio pensar em qualquer coisa nova para perguntar a ele: com o avô que você não consegue pensar em nada para dar de presente de Natal por que eles já têm tudo. Então eu decidi ser um pouco egoísta e perguntar a ele o que eu sempre quis perguntar. Como um anarquista franco, real e em carne e osso, eu queria saber como ele pôde se alinhar com uma posição tão polêmica e marginal  
Michael S. Wilson: Você é, entre muitas outras coisas, um anarquista auto-descrito – um anarcosindicalista especificamente. A maioria das pessoas pensa em anarquistas como punks marginalizados atirando pedras em vidraças de lojas, ou homens mascarados atirando bombas em formato de bolas em industriais gordos. Essa é uma visão precisa? O que é a anarquia para você?
Noam Chomsky: Bom, anarquismo é, aos meus olhos, basicamente um tipo de tendência no pensamento humano, a qual se apresenta em diferentes formas, em diferentes circunstâncias e tem algumas características principais. Primeiramente é uma tendência que suspeita e é cética à dominação, autoridade e hierarquia. Ela busca estruturas de hierarquia e dominação na vida humana sobre todos os âmbitos, se estendendo de, digamos, famílias patriarcais para, digamos, sistemas imperiais e questiona se esses sistemas são justificados. Ela presume que o ônus da prova para qualquer um em uma posição de poder e autoridade pesa sobre eles. A sua autoridade não é auto-justificável. Eles têm que dar uma razão para ela, uma justificação. E se eles não podem justificar essa autoridade, poder e controle, o que geralmente é o caso, então a autoridade deveria ser desmantelada e substituída por algo mais livre e justo. E, como eu a compreende, anarquia é somente essa tendência. Ela toma diferentes formas em tempos diferentes.
Anarco-sindicalismo é uma variedade particular de anarquismo que se preocupava, primeiramente, mas não somente, mas primeiramente com o controle sobre o trabalho, sobre o ambiente de trabalho e sobre a produção. Ele tomava como certo (it took for granted) que os trabalhadores deveriam controlar o seu próprio trabalho e suas condições, que eles deveriam controlar as empresas em que trabalhavam, junto com as comunidades, para que eles ficassem associados uns aos outros em associações livres. Uma democracia desse tipo deveria representar os elementos fundacionais de uma sociedade geral mais livre. E então, você sabe, ideias são desenvolvidas sobre como exatamente isso deveria se manifestar, mas eu penso que isso é o núcleo do pensamento anarco-sindicalista. Quer dizer, não tem nada a ver com a imagem geral que você descreveu - pessoas correndo pelas ruas, você sabe, quebrando vidraças de lojas- mas [o anarco-sindicalismo] é uma concepção de uma sociedade muito organizada, mas organizada a partir de baixo por participação direta em cada nível, com o mínimo de controle e dominação quanto for possível, talvez nenhum.      
Wilson:  Com o aparente declínio em andamento do estado capitalista, muitas pessoas estão procurando  por outras formas de serem bem sucedidas, de seguirem com a vida delas e eu estava pensando o que você  diria que anarquia e sindicalismo tem a oferecer, coisas que outras ideias - digamos, por exemplo, socialismo de estado - falharam em oferecer? Por que nós deveríamos escolher anarquia, em oposição a, digamos, libertarianismo?
Chomsky:  Bom, o que é chamado de libertariano nos Estados Unidos, o que é um fenômeno especial dos EUA, não existe realmente em nenhum outro lugar - um pouco na Inglaterra- permite um nível muito alto de autoridade e dominação, mas nas mãos do poder privado: então o poder privado deveria ser liberado para fazer o que preferir. A suposição é que por algum tipo de mágica, poder privado concentrado irá levar a uma sociedade mais livre e justa. Na verdade, isso já foi acreditado no passado. Adam Smith por exemple, um dos principais argumentos para os mercados era a alegação de que sob as condições de perfeita liberdade, mercados iriam levar à perfeita igualdade. Bom, nós não temos que falar sobre isso! Esse tipo de...
Wilson: Parece ser uma disputa contínua hoje em dia...
Chomsky: Sim, então, esse tipo de libertarianismo, aos meus olhos, no mundo atual, é só um chamado para alguns dos piores tipos de tirania, nomeadamente tirania privada sem limites ou responsabilidades (unaccountable). Anarquia é bem diferente disso.  Ela clama pela eliminação da tirania, todos os tipos de tirania. Incluindo o tipo de tirania que é interna à concentrações de poder privado. Então por que nós deveríamos preferi-la? Bom, eu acho que por que liberdade é melhor que subordinação. É melhor ser livre do que ser um escravo. É melhor ser capaz de fazer suas próprias decisões do que ter alguém para fazê-las e forçar você a segui-las. Eu quero dizer, eu não acho que você realmente  precisa de um argumento para isso. Parece ser...transparente. A coisa que você precisa de um argumento para, e deveria dar um argumento para, é, qual o melhor meio de avançarmos nessa direção? E tem muitos modos dentro da sociedade atual. Um modo, incidentalmente, é através do uso do estado, na medida em que ele é democraticamente controlado. Eu quero dizer ao longo prazo, anarquistas gostariam de ver o estado eliminado. Mas ele existe, junto com o poder privado e o estado está, ao menos até certo ponto, sob influência e controle públicos – poderia estar muito mais. E ele fornece instrumentos para restringir as muito mais perigosas forças do poder privado. Regras para segurança e saúde no trabalho, por exemplo. Ou garantindo que as pessoas tenham serviços de saúde decentes, digamos. Muitas outras coisas como isso. Eles não vão surgir pela porta privada. Muito ao contrário. Mas eles podem surgir através do uso do sistema estatal sob controle democrático limitado...para levar adiante medidas reformistas. Eu acho que essas são coisas excelentes para fazer. Eles deveriam estar esperando algo muito maior, muito além – nomeadamente democratização verdadeira, em escala muito maior. E isso é possível de não somente se pensar, mas de ser trabalhado. Então um dos principais pensadores anarquistas, Bakunin no século XIX, destacou que é bem possível construir as instituições de uma sociedade futura dentro da atual. E ele estava pensando sobre sociedades muito mais autocráticas do que a nossa. E isso está sendo feito. Então, por exemplo, empreendimentos controlados pelos trabalhadores e pela comunidade são germes de uma sociedade futura dentro da atual. E esses não somente podem ser desenvolvidos, mas estão sendo desenvolvidos. Existe um trabalho importante sobre isso feito por Gar Alperovitz, que é envolvido em sistemas empresariais a redor da área de Cleveand, os quais são controlados pelos trabalhadores e pela comunidade. Existe muita discussão teórica, a partir de várias fontes, sobre como isso poderia funcionar. Algumas das ideias mais desenvolvidas estão no que se chamam “parecon” – economias participativas- em literatura e discussões. E existem outras. Esses são no nível de planejamento e de idealização. E no nível de implementação prática, existem passos que podem ser tomados, enquanto também insistindo para superar o pior...os maiores males...causados por...concentração de poder privado através do uso do sistema estatal, enquanto o sistema atual existe. Então não existe carência de meios para se investir. E sobre socialismo de estado, depende do que alguém quer dizer pelo termo. Se for a tirania da variedade Bolchevique (e seus descendentes), nós não precisamos continuar nisso. Se for um estado social democrático mais expandido, então os comentários acima se aplicam. Se outra coisa, então o que? Era irá colocar a tomada de decisões nas mãos dos trabalhadores e das comunidades, ou nas mãos de alguma autoridade? Se a última, então – mais uma vez – liberdade é melhor do que subjugação e a última carrega um fardo muito pesado de justificação. 
Wilson: Muitas pessoas conhecem você por causa do desenvolvimento do Modelo de Propaganda, seu e de Edward Herman. Você poderia descrever brevemente esse modelo e por que ele poderia ser importante para estudantes universitários?
Chomsky: Bom, primeiro olhe pra trás um pouco – um pouco de contextualização histórica -  remontando ao fim do século XIX-, início do XX, uma boa quantidade de liberdade tinha sido ganha em algumas sociedades. No topo disso estavam, de fato, os EUA e a Inglaterra. De modo algum sociedades livres, mas por padrões comparativos bem avançadas nesse aspecto. De fato tão avançadas, que sistemas de poder – estatais e privados – começaram a reconhecer que as coisas estavam chegando a um ponto em que eles não conseguem controlar a população pela forção tão facilmente quanto antes, então eles  vão ter que buscar outros meios de controle. E esses outros meios de controle são controle de crenças e atitudes. E saído disso cresceu a indústria das relações públicas, a qual naqueles dias se descrevia honestamente como uma indústria de propaganda. O guru da indústria de RP, Edward Bernays – incidentalmente, não um reacionário, mas um liberal Wilson-Roosevelt-Kennedy – o primeiro manual da indústria de RP o qual ele escreveu nos anos 1920 se chamava Propaganda. E nele, ele descrevia, corretamente, que o objetivo da indústria. Ele disse: o nosso objetivo é garantir que a “minoria inteligente” – e é claro que qualquer um que escreva sobre essas coisas é parte dessa minoria inteligente por definição, por estipulação, então nós, a minoria inteligente, somos as únicas pessoas capazes de controlar as coisas. E existe aquela grande população lá fora, as “massas não lavadas”, as quais, se deixadas sem supervisão irão simplesmente arrumar problemas: então nós temos que, como ele disse, “fabricar o consenso deles”, descobrir modos de garantir que eles consintam como o nosso governo e dominação. E esse é o objetivo  da indústria de RP. E ele funciona de muitos modos. Seu compromisso primário é a publicidade comercial. Aliás, Bernays fez seu nome logo naquele tempo - fim dos anos 20 – fazendo uma campanha publicitária para convencer as mulheres a fumarem cigarros: mulheres não estavam fumando cigarros, esse grande grupo de pessoas que a indústria do tabaco não consegue matar. Então nós temos que fazer algo sobre isso. E ele de forma muito bem sucedida lançou campanhas que induziram mulheres a fumar cigarros: que seria, em termos modernos, a coisa descolada de fazer, você sabe, esse é o modo que você consegue ser uma mulher moderna e liberta. Foi muito bem sucedido -    
Wilson: Existe uma correlação entre aquela campanha e o que está acontecendo com a indústria petrolífera atualmente e a mudança climática?
Chomsky: Existem apenas alguns exemplos. Essas são as origens do que se tornou uma indústria enorme de controle de atitudes e opiniões. Agora a indústria petrolífera atualmente e o fato de que o mundo de negócios geralmente estão envolvidos em campanhas comparáveis para tentar sabotar os esforços para lidar com um problema que é ainda maior do que o homicídio em massa que foi causado pela indústria do tabaco; e foi homicídio em massa. Nós estamos encarando uma ameaça, uma ameaça séria de catastrófica mudança climática.E não é brincadeira. E a [indústria petrolífera] está tentando impedir medidas para lidar com ela pelos seus próprios interesses de lucro de curto prazo. E isso inclui não somente a indústria do petróleo, mas a Câmara Americana de Comércio – o principal lobby de negócios – e outros que declararam bastante abertamente que eles estão conduzindo...eles não a chamam de propaganda...mas o que seria equivalente a campanhas de propaganda para convencer as pessoas de que não existe perigo real e que nós não deveríamos fazer realmente muita coisa sobre isso e que nós deveríamos nos concentrar nas coisas que são realmente importantes como o déficit e crescimento econômico – o que eles chamam de “crescimento” – e não nos preocuparmos com o fato que a espécie humana está marchando para um penhasco que poderia ser algo como a destruição da espécie humana; ou no mínimo a destruição de uma possibilidade de vida decente para um número enorme de pessoas. E existem muitas outras correlações. Na verdade, de modo bem geral, publicidade comercial é fundamentalmente um esforço de sabotar mercados. Nós deveríamos reconhecer isso. Se você fez um matéria de economia, você sabe que mercados supostamente são baseados em consumidores informados fazendo decisões racionais. Dê uma olhada no primeiro anúncio que você ver na televisão e pergunte a si mesmo...isso é o propósito dele? Não, não é. É criar consumidores desinformados fazendo escolhas irracionais. E essas mesmas instituições lançam campanhas políticas. É maios ou menos o mesmo: você tem que sabotar a democracia tentando fazer pessoas desinformadas fazerem escolhas irracionais. E então esse é somente um aspecto da indústria de RP. O que Herman e eu estávamos discutindo era outro aspecto de todo o sistema de propaganda que foi desenvolvido aproximadamente nesse período e isso é a “fabricação do consenso”, como era chamado, [consenso] para as decisões dos nossos líderes políticos, ou os líderes da economia privada, para tentar garantir que as pessoas tenham as crenças certas e não tentem compreender o modo como as decisões estão sendo feitas por que isso não somente poderia machuca-las, mas machucar muitos outros. Isto é propaganda no sentido normal. E então nós estávamos falando sobre mídia de massas e a comunidade intelectual do mundo em geral, a qual é, em larga medida, dedicada a isto. Não que as pessoas vejam elas mesmas como propagandistas, mas...que elas são profundamente doutrinadas nos princípios do sistema, o qual impede que elas percebam muitas coisas que estão bem na superfície, [coisas] que seriam subversivas ao poder se entendidas. Nós damos muitos exemplos lá e existem muitos mais que você pode mencionar até o momento presente, alguns cruciais aliás. Isto é uma parte grande de um sistema geral de doutrinação e controle que funciona paralelamente do controle de atitudes e... compromissos consumistas, e outros instrumentos para controlar as pessoas. Antes você mencionou os estudantes. Bom, um dos problemas principais para os estudantes atualmente – um problema enorme – são as mensalidades subindo aceleramente. Por que nós temos mensalidades que são completamente desalinhadas com as de outros países, mesmo com a nossa própria história? Nos anos 1950, os Estados Unidos era um país muito mais pobre do que é hoje e no entanto, a educação superior era...mais ou menos de graça ou taxas baixas ou sem taxas para números enormes de pessoas. Não houve uma mudança econômica que tornou isso necessário, agora, de existirem mensalidades altas, muito mais do que quando nós eramos um país pobre.E para transmitir a mensage ainda mais claramente, se nós olharmos somente através das fronteiras, o México é um país pobre, no entanto, tem um bom sistema educacional com mensalidade gratuita. Houve uma tentativa do estado mexicano de aumentar as mensalidades, talvez alguns 15 anos atrás ou mais, e houve uma greve nacional dos estudantes que teve muito apoio popular e o governo recuou. Agora isso aconteceu recentemente em Quebec, em nossa outra fronteira. Atravesse o oceano: a Alemanha é um país rico. Mensalidade gratuita. Finlândia tem o sistema educacional mais bem qualificado do mundo. Gratuito...virtualmente gratuito. Então eu não acho que você pode fornecer um argumento que existem necessidades econômicas atrás da incrível alto aumento nas mensalidades. Eu acho que essas são decisões sociais e econômicas feitas por pessoas que determinam políticas. E [esses aumentos] são parte de, em minha opinião, parte de uma reação que se desenvolveu nos anos 1970 contra as tendências liberatórias dos anos 1960. Estudantes se tornaram mais livres, mais abertos, eles estavam lutando pela oposição à guerra, por direitos civis, direitos das mulheres...e o país simplesmente ficou livre demais. Aliás, intelectuais liberais condenaram isso, chamaram de uma “crise da democracia”: nós temos que ter mais moderação na democracia. Eles pediram, literalmente, por mais compromisso na doutrinação dos jovens, a frase... Nós temos que nos certificar de que as instituições responsáveis pela doutrinação dos jovens façam o trabalho delas, para que nós não tenhamos toda essa liberdade e independência. E muitos desenvolvimentos ocorreram depois disso. Eu não acho que nós tenhamos documentação suficiente para provar relações causais, mas você pode ver o que aconteceu. Uma das coisas que aconteceu era controlar os estudantes – aliás, controlar os estudantes para o resto da vida deles, por simplesmente aprisionando eles em dívida. Essa é uma técnica muito eficiente de controle e doutrinação. E eu suspeito – eu não posso provar – mas eu suspeito que isso seja uma grande parte do motivo por trás de [mensalidades altas]. Muitas outras coisas paralelas aconteceram. A economia toda mudou em modos significativos para concentrar poder, para sabotar os direitos e liberdades dos trabalhadores. Aliás, o economista que presidiu a Federal Reserve nos anos Clinton, Alan Greenspan – St. Alan como ele era chamado então, o grande gênio da profissão de economia que estava controlando a economia, altamente honrado – ele depôs orgulhosamente em frente ao congresso que a base para aquela grande economia que ele estava controlando era o que ele chamou de “crescente insegurança trabalhista”. Se os trabalhadores estão mais inseguros, eles não faram coisas como pedir por melhores salários e melhores benefícios. E isso é saudável para a economia de certo ponto de vista, um ponto de vista que diz que trabalhadores deveriam ser oprimidos e controlados e que a riqueza deveria ser concentraa em alguns pouquíssimos bolsos. Então sim, isto é uma economia saudável e nós precisamos de uma crescente insegurança trabalhista e nós precisamos de crescente insegurança estudantil, por razões semelhantes. Eu acho que todas essas coisas se alinham juntas como parte de uma reação geral – incidentalmente, uma reação bipartidária – contra tendências liberatórias que se manifestaram nos anos 60 e continuaram desde então. 
Wilson: [Finalmente,] Eu estou pensando se você poderia [finalizar com alguns conselhos para os estudantes universitários de hoje]
Chomsky: Existem bastante problemas no mundo hoje e estudantes encaram alguns deles, incluindo os que eu mencionei – a falta de emprego, insegurança e por aí vai. No entanto, por outro lado, houve progresso. Em muitos apectos as coisas estão muito mais livres e o avançadas o que elas eram....não muitos anos atrás. Tantas coisas que eram assunto de luta, aliás algumas que quase não era possível mencionar, digamos, nos anos 1960, estão agora...parcialmente resolvidos. Coisas como direitos das mulheres. Direitos LGBT. Oposição à agressão. Preocupação com o meio ambiente – o qual não está nem perto do que deveria estar, mas muito além dos anos 1960. Essas vitórias pela liberdadenão vieram de presentes de cima. Elas vieram de pessoas lutando sob condições mais severas do que são agora. Existe repressão estatal agora. Mas não chega nem perto de se comparar com digamos, Cointelpro nos anos 1960. As pessoas que não sabem sobre isso deveriam ler e pensar para descobrir. E isso deixa muitas oportunidades. Estudantes, você sabe, são relativamente privilegiados comparados ao resto da população. Eles também estão em um período da vida deles quando eles são relativamente livres. Bom, isso fornece todo tipo de oportunidades. No passado, tais oportunidades foram aproveitadas por estudantes que frequentemente estavam na vanguarda da mudança progressiva e eles têm muito mais oportunidades agora. Nunca vai ser fácil. Vai haver repressão. Vai haver reação. Mas esse é o modo que a sociedade avança.    
 *Versão traduzida desta entrevista: http://www.alternet.org/civil-liberties/noam-chomsky-kind-anarchism-i-believe-and-whats-wrong-libertarians