Estive
pensando algo esses dias: nós realmente vivemos, é certo que com algumas licenças,
o que algumas pessoas da década de 50 imaginavam para o ano 2000. Eles
imaginavam uma família suburbana, mononuclear e patrilinear, ou pra ser mais
claro, patriarcal. As pessoas usariam aros de plástico em torno dos cotovelos e
joelhos, além de cores berrantes, acessórios fluorescentes e cones nos cabelos
das donas de casa de classe média, acorrentadas ao papel de mãe e esposa
submissa, sem direito a fiança. O meio de locomoção seriam carros voadores ou “jet
packs”, que o homem branco e de preferência norte-americano, usaria para voltar
ao lar com sua esposa e filhos loiros e sorridentes.
Bom,
ao pensar nesse retrato, não deixo de pensar que nós também somos constrangidos
por aros e sorrisos de plástico. Não temos as mochilas ou carros voadores, mas
com certeza temos redes sociais, que tem o potencial de nos permitir ler sobre
tudo, mas também nos distanciar de todos e não conhecer nada realmente;
milhares de bugigangas eletrônicas, produzidas por trabalhadores escravos na
Ásia, que tem uma durabilidade tão curta quanto sua utilidade, mas que servem
de forma excelente como marcadores de status. Enfim, é o clichê que boa parte
da classe média vive: “trabalhar 12 horas por dia para comprar coisas que não
precisamos, para agradar pessoas de quem não gostamos”.
Por
outro lado, falar sobre isso é também um clichê, mas voltando ao que eu tenho de
novo para falar sobre isso é: nós realmente somos muito parecidos com o que
esses criadores de desenhos e seriados e escritos de ficção científica, da
década de 50, pensavam sobre o futuro. Por quê? Acho que pelo absurdo de viver
em uma sociedade em que é preciso explicar para pessoas ignorantes, ou mais
provavelmente de má fé, que homossexuais são assassinados justamente pela sua
orientação sexual e não por algum dos outros muitos motivos da violência
urbana, que mulheres são em larga escala vítimas da violência doméstica e que,
mais absurdo ainda, é preciso explicar que uma mulher tem direito absoluto sobre
o seu corpo e um companheiro não tem direito de violar esse direito, por que
ela não é sua propriedade. É preciso explicar que o Brasil é um país
extremamente desigual e segregado e que meritocracia é discurso para “boy”
dormir. Como explicar (sem ser racista) que menos de 3% dos médicos são negros
e que 60% da população carcerária é negra?
Hoje em dia as previsões para o futuro são
distopias fatalistas e horripilantes, no estilo do filme “A estrada” (não
recomendo), ou sobre futuros desastres climáticos causados pelo efeito estufa (que
alguns políticos insistem em negar, mesmo sendo consenso entre os cientistas da
área). Eu prefiro rejeitar tudo isso, por que o fatalismo é incompatível com a
função de educador, mas não se pode “jogar o bebê com a água do banho”, não é
possível ser um educador e a utopia não fazer parte da sua vida. Só não
sei ainda em termos muito exatos o que ou como ela é. Talvez comece com “liberdade”.
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