domingo, 8 de dezembro de 2013

Reflexões sobre a universidade e posicionamentos políticos

      Hoje me dei conta do quanto é pueril fazer essas críticas sobre o fato do meio acadêmico ser movido por egos, vaidades e intrigas. Ou, ainda, discutir com as pessoas que defendem a meritocracia no meio acadêmico ou fora dele. É até engraçado, por que a gente escuta tantos casos em que as pessoas entram em “seleções da vida”, por que um professor fulano quis ou por que elas tem algum tipo de relacionamento com alguém com algum poder ou mesmo por que são bolsistas dele desde sempre e já têm um lugar reservado em algum lugar, mas essas pessoas que são beneficiadas por essas relações de clientelismo precisam, até mesmo para se tranquilizar, negá-las. 
      Já critiquei tanto, também, o fato do meio acadêmico ser reacionário, elitista e fora da realidade e do contexto social da maior parte da população, por isso mesmo, as vezes ele parece irrelevante (apesar de não ser). Além disso, a maioria das pessoas que tem o privilégio de frequentar esse espaço restritivo não refletem sobre essas questões ou acham que elas simplesmente não importam.
   Já me angustiei, até mesmo motivado por auto-crítica, com o fato das pessoas ditas “liberais”, “progressistas” e de esquerda tomarem posturas tão conservadoras, retrógradas e inquisitoriais quanto os direitistas (encubados ou não) e os analfabetos políticos.

     Agora penso que, talvez, o melhor caminho a tomar seja incorporar aquela frase clichê (que é atribuída ao Gandhi, mas parece que ele nunca a disse realmente) “seja a mudança que você quer ver no mundo”. As pessoas não mudam e não amadurecem sem uma dose generosa de sofrimento e reflexão e não importam quantos argumentos bem construídos, fatos e estatísticas a gente jogue nelas, caso elas não queiram abrir mão de seus preconceitos, elas vão morrer com as mesmas crenças que a Família, a Igreja e a Mídia incutiram nelas. 

     Caso eu consiga ocupar espaços na academia, que são tão reacionários e elitistas, gostaria de tomar posturas diferentes. Selecionar bolsistas de acordo com a capacidade deles de realizar o trabalho e sua capacidade de reflexão e argumentação e não por critérios burocráticos ou por nepotismo ou “clientelismo”. Selecionar mestrandos pela qualidade do trabalho deles e não por que são meus “peixes” ou minhas “crias”.      Permitir que as pessoas pesquisassem temas já trabalhados por professores da faculdade e não ser tão corporativista. Realizar projetos de extensão e tentar sair dos “muros” da universidade.  Incentivar o engajamento político e o interesse por movimentos sociais, por que não necessariamente são incompatíveis com a universidade (como os meus amigos provaram muito bem: todos se formaram no período certo, todos tem mestrado e um é professor universitário). Ter honestidade intelectual e não ser doutrinário, apresentar correntes historiográficas com as quais eu divirja, da forma mais imparcial que eu for capaz (talvez assim menos pessoas tenham esse medo neurótico dos marxistas em baixo da cama delas). Ser humilde e lembrar sempre das minhas limitações e lacunas na minha formação (nunca começar a falar francês ou qualquer língua estrangeira em sala de aula, tal qual um autista, sem necessidade ou tratar os calouros como se tivessem necessidades especiais, por que ainda estão começando a construir seu conhecimento), além disso, escrever de forma objetiva e clara, para que um público maior possível consiga me entender e dialogar com o meu trabalho (escrita árida e rebuscada deveria ficar restrita a obras literárias, ou não?!).
     Provavelmente não vou conseguir cumprir todo esse roteiro, por que a vida nunca segue essas linhas (românticas? Espero que não) que idealizamos, mas caso eu consiga cumprir ao menos parte disso ou me esforce por concretizar essas projeções, vai ser uma energia bem empregada.    
     Na última matéria que cursei em História, nesse primeiro semestre de 2013, tive contato com a nova geração de reacionários do curso, o meu primeiro impulso foi tomar uma postura saudosista e idealizar o passado (“ah, mas no meu tempo não era assim! Ah, mas que decadência que o curso tá!”), só que depois de alguma reflexão, me dei conta de que no meu tempo, apesar de os “reaças” não serem uma maioria tão esmagadora quanto parecem ser na 2010, eles, de fato, infelizmente...existiram e não foram poucos ou silenciosos, novamente, infelizmente. Provavelmente não senti tanto esse conservadorismo, até por que na época eu não tinha as experiências e leituras que tenho hoje e não bati de frente com posturas retrógradas deles e minhas, como faço atualmente  com as novas gerações de “almeidinhas”.
     A questão mesmo é que eu tive muita sorte, se tivesse passado na primeira vez que tentei pra História, teria entrado na 2005, uma turma mais reacionária ainda que a minha e, pior ainda, não teria conhecido os meus cinco grandes amigos. Por que isso foi importante? Por que nós cinco compartilhamos uma amizade forte e verdadeira e um senso de companheirismo e lealdade, o que pra mim, provou o quanto a coletividade e comunhão é mais útil para a criação do que a competição e rivalidade. Além disso, nós compartilhávamos/amos visões de mundo parecidas, somos de esquerda e temos posicionamentos mais libertários e progressistas. Aí chegamos a um ponto importante: a importância de um ambiente favorável para que visões de mundo alternativas possam florescer e serem amadurecidas e esse contato com essas pessoas possibilitou isso pra mim.
     Acredito que boa parte dos posicionamentos conservadores são motivados por ignorância, preguiça de pensar, falta de informação, meios hostis a livres pensadores (vide o caso de quase me botarem na fogueira por que compartilhei um texto sobre aborto na comunidade da turma) e, mais importante de todos, falta de “espinha dorsal”, coragem e convicção para se defender o que se acredita (algo que, graças a jah, não me falta).
     Sabe, odeio essa civilidade e diplomacia ridículas, mas mais especificamente a covardia de quem se cala ou não toma posição. Entretanto, eu não quero com isso tomar uma postura fascista ou autoritária, reconheço a importância da diversidade e, mais importante ainda, da tolerância. A questão é que, por mais que eu respeite a paciência de Jó que o Leonardo Sakamoto tem, por ter amigos “reaças” ou tentar dialogar com eles, o fato é que eu não sou assim e não posso lutar contra coisas básicas que constituem a minha identidade. Além disso, em um país em que toda a velha mídia é de direita e que, infelizmente, mas muito infelizmente mesmo, a maior parte da população, como o próprio Sakamoto aponta, é conservadora e apoia violência policial (mas somente contra pobre e preto), racista (é contra as cotas, é negacionista do nosso apartheid e apoia o genocídio dos jovens negros), machista (negacionista da desigualdade entre os gêneros e da gritante e galopante violência contra as mulheres no país e de nossa repulsiva cultura de estupro: “estuprador merece um abraço!kkk”), homofóbica (é contra o casamento gay e as lutas pelos direitos civis LGBT), eu realmente preciso ter amigos “reaças” e ficar ouvindo a lenga lenga e balela conservadora e senso comum travestido de conhecimento?! Eu realmente preciso fazer a universidade ser uma extensão do ensino médio e ter contato com gente que não tem absolutamente nenhum comprometimento ético com um mundo mais justo e igualitário?! Pra ter contato com isso, basta abrir uma Veja ou ligar o Jornal Nacional. Me perdoem, mas não nascia pra Cristo e que quem dá luz pra “reaça” é poste.

      Por fim, como eu fiquei chocado com os sensos comuns e vitimizações das pessoas de direita, que ouvi durante esse breve contato, acabei subestimando a nova geração de pessoas de esquerda/liberais/progressistas e negligenciando o fato que eles também tem voz e muito a dizer e contribuir. Eles me dão esperança de que o curso de História não é só um escolão e extensão do ensino médio ou uma fábrica de conhecimento instrumental e gente que não questiona nada e ajuda a reforçar preconceitos e opressões. Sou grato a essas pessoas por isso e espero que possamos trocar mais experiências positivas, reflexões, trabalhos e saberes.  



                                                                       (Bukoswki)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Absurdidade e repetições de sempre no Black Friday

Comentários clichês da galera "meio de esquerda e meio intelectual":
"Ontem os norte-americanos mandaram seus B-52 carregados de bombas, inclusive nucleares, ameaçar a China. Hoje usaram seus propostos na Síria ("terroristas" que a imprensa sustentada com o "ouro de Washington" chama de "insurgentes") para atacar com morteiros a embaixada da Rússia em Damasco."

"e viva a ciranda do consumismo supérfluo! Os vendedores escravizados enxergam nos consumidores as metas a serem batidas...e o bolso do patrão cada vez mais cheio...ah se soubessem o que é mais valia..."

"Sou mais black block do que black friday" Socialista Morena.

Sabe, isso tem um gosto daqueles comentários de gente que curte rock (geralmente meninos de apartamento e de classe média) sobre outros gêneros musicais comerciais, mas que são produzidos no Brasil, então, sabe como é? “No Brasil nada presta, por que só foi colonizado por bandido e desde então é só corrupção e eu li na Veja blá blá blá e quero ir pros EUA  flip burguers and live the american deam”... Esses clichês me dão uma sensação tão grande de banalidade. É sempre a mesma lenga lenga de gente que, muitas vezes, nem ao menos é engajada em movimentos sociais e nem vai pra manifestações. Mesmo que fossem, o único objetivo que esse discurso atinge com sucess, é que o interlocutor te ache um boçal que olha de cima todo mundo ao redor dele.
De qualquer forma, por falta de um argumento melhor, isso é a mesmice, é a rotina, é a mediocridade.  Acho que é tão ruim quanto o consumismo, alienação e compulsão, por que são as mesmas frases de um script que repetimos como autômatos, mas,, sabe, eu também não estou isento de repetir o mesmo roteiro velho de sempre, mas agora aos meus 27 anos, começo a reconhecer alguns padrões e eles fazem o fundo do meu crânio coçar e entristecem o meu estômago. Eu quero fugir deles, quero algo novo e autêntico.

Só sei que eu comprei os meus livros com um desconto bom. Sei que esse desconto pode ter (provavelmente tem)  um custo social e ambiental embutido, mas me pergunto qual é a alternativa e gostaria que essas pessoas altivas usando sapatos costurados por crianças asiáticas (por 1 centavo ao dia) me contem!  Por que no contexto de Belém, de manifestações pastoreadas pela PM, uma massa de despolitizados que caguetam outros manifestantes e aplaudem a PM assassina, inúmeros apartidários de direita que incitam o grito despolitizante “Sem partido!” e partidos de esquerda que não querem se indispor com essa massa conservadora e alienada, não parece que estejamos caminhando pra frente!
Eu sei que a mudança política e social é mais complexa e, muitas vezes, mais demorada do que os nossos anseios ou do que o tempo que a gente tem de vida. E sei desse caráter teleológico do engajamento (ídolo sacrificial?), mas sei que a minha cabeça tá doendo e eu deveria estar escrevendo a minha monografia. Algum outro dia eu penso melhor sobre isso. Até logo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ironias de se estudar História

Acho que um dos ossos do ofício de quem estuda História é ter que ser presenteado, de parentes e conhecidos bem intencionados, livros de jornalistas brincando de escrever história. Acho que tenho uns dois livros do Laurentino Gomes e um Breve História da tia Maricotinha.

É batata! É quase uma lei da física. Meio parecido com os outros ossos: acham que a gente é calendário/enciclopédia; alguma figurinha leu algum livro de jornalista diletante/brincante e quer compartilhar o seu vasto conhecimento historiográfico conosco; pensam que todo estudante de História é militante/maconheiro (o que nem é um rótulo ruim, mas é uma crença bem irônica devido a vasta fauna de reaças no curso. De qualquer forma, prefiro esse do que o rótulo de ser um curso cheio de gente alienada e reaça, como é o caso dos de Exatas );  ouvir em tom jocoso o comentário "conta uma história aí" (esse tem todo uma série de contextos e significados para quem é de classe média).

Caso você seja de classe média e se for de esquerda: finja que é pobre (ou brinque de ser) ou ostensivamente lance mão de símbolos regionais. Quanto mais bairrismo, melhor! Ou reforce  a sua identidade mauriçoca e reproduza a mentalidade do ensino médio (feito em escola particular) na universidade e adquira um conhecimento instrumental e, francamente, vá pra PQP. Entretanto, se quiser achar o caminho entre as pedras:  descubra um milhão de estratégias e encontre formas de criticar posturas reacionários da sua classe e do seu meio familiar sem ser odiado ou odiar, sem se excluir da convivência, mas, ao mesmo tempo, sem se anular. Escolha as batalhas que valem a pena serem travadas e as pessoas que querem questionar o senso comum e o discurso pronto da mídia. Não é uma receita de bolo e nem sempre funciona, quando você passa perto de alguém e escuta: "agora os negros estão na moda" e comentários congêneres, mas ainda assim vale a pena tentar encontra esse equilíbrio e amadurecer um pouco no processo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Humor, cinema e a homofobia: combater ou reforçar.

http://www.youtube.com/watch?v=VxN8PhKzZgY Por falar em homofobia sutil (ou nem tanto) nessa apresentação, num dos "bits", ele fala sobre como o filme Coração Valente," do fundamentalista cristão e racista, Mel Gibson", um dos vilões é o príncipe da Inglaterra e ele enfatiza bastante a homossexualidade e, de certa forma, parece que a opressão do povo é pior por que ele é gay ou ele é um tirano por ser gay ou a tirania é fruto da homossexualidade. Realmente, retratar gays como vilões é complicado de se fazer em um mundo ainda muito homofóbico. O diretor do filme ser um fundamentalista não ajuda em nada... Outro detalhe legal são os comentários dele sobre os erros históricos do filme (o William Wallace era nobre e rico; ele serviu como mercenário dos ingleses; a princesa da Inglaterra retratada no filme tinha 4 anos quando o Wallace morreu, esse cara é tão talentoso que ele faz rir com uma piada sobre pedofilia (!); o Robert the Bruce não era um traidor,isso eu tô me lembrando, mas não tenho certeza). Legal o jogo que ele faz com o preconceito da plateia, brincando que o William Wallace era gay e que ele "queria que a Inglaterra tivesse um herói medieval gay, mas só a Escócia tem um que DEFINITIVAMENTE era gay!". Ah e ele faz mais várias reflexões muito legais sobre homofobia e a irracionalidade e ignorância que geram o preconceito.

Para complementar a reflexão, recomendo o documentário "O outro lado de Hollywood" (The celluloid closet),http://www.imdb.com/title/tt0112651/ Ele aborda como o cinemão norte-americano retratou, ao longo da sua história, os homossexuais: em tom humorístico como alívio cômico; como vítimas condenadas a uma destino terrível; como seres imorais que viviam livremente sua sexualidade e que deveriam ser punidos por sua rebeldia; como vilões, como no caso de Leopold e Loeb (um caso muito interessante e que segundo o documentário, eram gays: http://pt.wikipedia.org/wiki/Leopold_e_Loeb); até, finalmente, serem retratados levando vidas felizes e com um forte sentimento de camaradagem entre amigos ou como um herói, no caso do protagonista de Filadélfia. 

Interessante  o retrato que documentário pinta sobre o puritanismo da sociedade norte-americana da década de 50 e de como ligas de moralistas buscavam censurar os filmes de acordo com experiência de roteiristas, atores, ativistas e historiadores gays que sofreram com essa repressão. Mais instigante ainda é que ele aborda os subterfúgios que os roteiristas lançavam mão para tapear os censores, como o caso de Gore Vidal, um ativista gay, que inseria insistentemente a temática nos filmes dele. Quem diria que o roteirista queria deixar subentendido que Ben Hur e o romano mantiveram um relacionamento homossexual na juventude! Melhor ainda, a cereja do bolo o Charlton Heston (aquele reaça da "vocês só vão tirar essa arma de mim por cima do meu cadáver!', depois da tragédia de Columbine) não sabia que a intenção era essa!
 É fundamental o papel que a arte tem para quebrar tabus e preconceitos, é uma pena que nós sejamos, atualmente, tão carentes, especialmente entre os humoristas, de ícones progressistas.

P.s.: Esse comediante tem um vídeo muito legal ironizando essa questão dos reaças e sua choradeira sobre o politicamente correto. Gostaria de traduzi-lo um dia....

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O que restou das manifestações

Não é curioso que as manifestações já tem um nome: as "Jornadas de Junho"? E não é curioso pensar e sentir que toda a andança, debates, reflexões, dores de cabeça e bate bocas com reaças nacionalistas e direitistas incubados; medo de um possível golpe militar (rs) e asco de todos os lunáticos de extrema direita que rastejaram de baixo das pedras onde se escondiam; coquetéis molotov explodindo no palácio Antônio Lemos e pessoas se indignando mais com o dano ao patrimônio público e privado do que com o fato dos PMs terem assassinado a gari Cleonice Vieira, enfim, tudo isso vai ser discutido por historiadores, muito depois que os nossos ossos virarem pó? Nunca antes tinha me dado essa sensação de que a História é viva e eu sou um sujeito de sua transformação, antes era somente uma abstração e frase vazia de textos acadêmicos. 
De qualquer forma, mais importante do que divagações ou romantismo e passado o calor do momento em que pensei que fôssemos ter um movimento aos moldes do que ocorre no Rio de Janeiro e que conquistaríamos nossos objetivos imediatamente, é não deixar que isso seja uma tola lembrança da juventude, do período em que eu tinha preocupação em construir o meu engajamento. Não quero virar um coroa reaça (em maior ou menor dose e no âmbito dos costumes ou referente a políticas públicas) saudosista da sua experiência ao estilo "caras pintadas",  DE JEITO NENHUM! O compromisso com a construção de uma sociedade justa e igualitária é algo que tem que ser constante e permanente e não algo que pode ser concretizado em uma Jornada ou manifestação, não importa o mês ou com que nome que intelectuais e jornalistas resolvam rotular esse momento. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Manifestações em Belém e o Movimento Belém Livre- textos e lembranças

Violência policial
A polícia de forma desnecessária e violenta iniciou um confronto com os manifestantes. As pessoas do movimento estavam negociando sobre manifestantes que foram presos injustamente sob a acusação de terem jogado pedra ou furtado (há suspeitas que existiam policiais infiltrados e que plantaram pedras e coquetéis molotov). 10 pessoas foram presas e só 2 eram ladrões. Nós conseguimos sentar na frente do ônibus da PM e impedir que eles fossem levados antes que as autoridades prestassem satisfação sobre as prisões e ficou acordado com a defensoria e o assessor de comunicação da PM ( e filmado pela mídia) que alguns representantes do movimento iam acompanhar os manifestantes presos,as pessoas liberaram a via e ao invés da PM esperar que nós acompanhássemos o ônibus, eles arrancaram e quebraram o acordo. Os manifestantes correram e impediram mais uma vez que o ônibus saísse, mas dessa vez a PM veio com o choque,cães e cavalaria e fechou as ruas e começou a atirar bombas nos manifestantes. Enquanto eu escrevo isso, várias pessoas ainda estão nas ruas e a PM brinca de GTA na rua jogando carros em alta velocidade pela rua e fechando as vias. Pessoas foram presas por estarem somente correndo. Se alguma vida mais for perdida hoje, o único responsável é o prefeito!
FODA-SE O PACIFISMO BURRO! FODAM-SE AS CAMISAS BRANCAS! FODA-SE O PATRIOTISMO E NACIONALISMO, INVENÇÕES FASCISTAS E VIOLENTAS!
*PMs da tropa de choque estavam na operação sem identificação e foram fotografados. Vamos denunciá-los!

Violência Midiática
Segundo o Bonner esse é um "momento histórico"! Que curioso, antes eles tavam chamando os manifestantes de vândalos e baderneiros. A Folha e o Estadão pediram mais rigor na selvageria da PM. Ah, e eles se condoeram com os pobres PMs tendo que lidar com a violência da baderna.
Agora a mídia acha esse momento histórico! Fica incentivando o uso da camisa branca de reveillon, da bandeira e do hino nacionais para cultuar essa coisa ultrapassada, retrógrada, conservadora, autoritária e violenta que é o Nacionalismo, a mentalidade que divide os povos do mundo e já justificou duas Guerras Mundiais, genocídio, Neocolonialismo e muitas atrocidades. Quer definir sobre o que é o nosso movimento, quer que ele seja contra a "corrupção"( a do PT. Aliás, alguém é a favor da corrupção!?) sem que a gente reflita sobre o que causa ela e sem que a gente exija reforma política e essas marchas, debates, tensões e sonhos se evaporem no ar e seja só uma grande perda de tempo ao pior estilo Movimento Cansei ou Integralistas (fascistas defensores da Ditadura Militar). Muito cuidado ao aderir acriticamente ao discurso mídia conservadora e mentirosa que sempre criminalizou movimentos sociais. Vamos refletir e pensar por nós mesmos, já chega de senso comum e chavão do Arnaldo Jabor!

Manifestações em Belém e o Movimento Belém Livre- textos e lembranças

Desencanto e amadurecimento


Hoje foi um dia histórico na nossa cidade e do nosso povo! Um momento muito bonito em que pessoas de diversas classes sociais, cores, gêneros, idade e visões de mundo diferentes foram às ruas para lutar pelos seus direitos e tentar construir um projeto de mundo melhor, mais justo e humano. Uma mobilização da juventude tão grande e que não se via desde muito tempo. Lutando por democracia real e direta. Foi tão inspirador ver as pessoas nos apoiando com bandeiras brancas, do Brasil ou máscaras do Anonymous e todos os manifestantes repetindo o coro “Vem pra rua!”. Ou ontem na reunião quando apareceram dois homens querendo bater boca e brigar, as pessoas gritaram “Sem violência!” e eles apertaram as mãos e a reunião pode seguir sem tumulto.
Eu posso ficar mais tranquilo sabendo que estou fazendo a minha parte nessa luta e dividindo esse momento único com cada uma das pessoas que saíram de casa sem medo da possível repressão da PM ou mesmo de fazer uma grande marcha sob a chuva. A nossa geração finalmente saiu do marasmo, conformismo e fatalismo e está se fazendo ouvir por toda a sociedade e por quem está no poder. Só poso expressar a minha gratidão a todos que foram e que acreditam que um outro mundo é possível.
Agora, como nem tudo são flores, preciso falar do lado negativo. Qual é a principal crítica a partidos de esquerda? A questão de algumas correntes políticas de esquerda mais radical serem stalinistas, autoritárias, enxergarem o mundo como se nós vivêssemos no século XIX e que é possível construir uma sociedade mais justa com violência ou suprimindo a liberdade de expressão. Qual a crítica que muitas pessoas tem de militantes de esquerda? Que são fanáticos e que querem impor seu ponto de vista aos outros e seguem uma cartilha partidária e não podem pensar por si mesmos. Em vários casos isso é até verdade, mas eu acho que todos esses comportamentos eu vi hoje por uma parcela dos apartidários. Gritando “Sem partido” ou até de forma mais violenta “Pega essa bandeira e enfia no c..” ou “PSTU, vai tomar no c..”. Para contextualizar, é preciso lembrar que os partidários e apartidários estavam negociando a questão do uso de camisas e bandeiras de partido. Tinha tentado se chegar a um meio termo: as pessoas só vão utilizar camisas de partido, por que nós não podemos proibir as pessoas de se vestirem do jeito que quiserem e camisa é algo individual, não dá a ideia de que é algo que representa o grupo todo. Sabe, eu já até estava apoiando esse meio termo para a gente poder partir para a discussão das pautas que a gente quer exigir do prefeito e do governador. Só que depois do comportamento de turba, por natureza violento e irracional, de hoje e a falta de respeito com que parte dos apartidários tratou os manifestantes, agora acho que isso nem deve mais ser negociado.
Não sei se em SP essa questão das bandeiras, camisas e militantes foi tão polêmica, por que eles tiveram que enfrentar uma PM truculenta e violenta que queria impedi-los de fazer a sua manifestação pacífica (algo inconstitucional e que nenhuma autoridade tem poder de fazer), talvez por isso o foco tenha sido as causas em comum, a liberdade de se manifestar e de lutar pelos seus direitos. Felizmente a PM daqui do Pará não quis fazer o mesmo com a gente e colaborou com o movimento e por isso a gente teve paz pra marchar. Na minha leitura do que aconteceu hoje, vi que uma parcela dos apartidários adotou para si o papel de PM e resolveu reprimir as pessoas que não obedeceram a imposição deles de não levar bandeira. Isso sem falar em o quanto essa gritaria e xingamentos lançados pela turba apartidária serviram para desmobilizar, dividir e tirar o foco da nossa manifestação. Eu realmente tenho que perguntar: essas pessoas só têm duas palavras no vocabulário ou não tem propostas? Por que ficaram a manifestação inteira esbravejando e se esgoelando, tal qual cães raivosos, contra os seus companheiros de manifestação.
Essa parcela dos apartidários afirma que o movimento é do POVO, esse conceito abstrato, que eles acreditam que seja monolítico e homogêneo. A questão é que isso não é verdade, o povo brasileiros é formado por diversos povos de diferentes regiões. Dentro da nossa região, por exemplo, existem pessoas de diversas etnias, cores, gerações, classes sociais, visões de mundo, ideologias políticas. Enfim, é todo um universo cheio de diversidade e beleza. Com isso não quero dizer que é impossível que as pessoas possam se unir e lutar pelas causas populares e por direitos humanos, mas que as pessoas têm diferentes formas de se organizar e se manifestar. Negar isso, por definição, é fascismo. Esperar que toda a sociedade siga uma forma única de pensamento, uma única corrente política, uma cultura e mentalidade únicas, é fascismo, não tem outro termo.
Eu acreditava que o nosso movimento era plural. Como essa parcela dos apartidários pode ficar, que nem crianças birrentas, a MANIFESTAÇÃO INTEIRA xingando as pessoas e repetindo “Sem partido!”?! Enquanto os militantes de partido batucavam, dançavam e puxam coro, no setor em que estavam, por diversas questões: pelo passe livre, em oposição a Belo Monte, em indignação contra o desvio de verbas e paralização do BRT. O pessoal do PSOL, parte onde eu estava, não cantaram hinos do partido ou da juventude o PSOL. Eles estavam puxando esse coro de questões que, não tenho dúvida, são defendidas por muitos de nós. Eu acho muito escroto, violento, opressor e burro ficar mandando eles irem se foder ou ir embora da manifestação, enquanto não se propõe outra questão ou pauta ou o que seja!
Por outro lado, eu entendo o clima de indignação com o nosso sistema e com os partidos políticos, mas acho que vocês tem que refletir algumas questões que o Tony Leão já escreveu em um post anterior: “2. Se é movimento plural, que não apresenta uma “bandeira” em particular, mas sim um discurso mais amplo de cidadania e direitos para tod@s, também me parece que seria incoerente proibir participação de partidos que pretendam somar à essa característica pluralista.
3. Temos que ter cuidado com uma visão atualmente comum de considerar que TOD@S os partidos políticos são ruins, pois TOD@S os políticos são corruptos por natureza.
4. Esse discurso se encontra generalizado, mas ele tem uma história que precisa ser considerada. Qual seja:
a) Parte significativa desse discurso contra partidos se deve a uma inquietação da sociedade frente a casos de corrupção em vários setores da vida pública. Inegavelmente a corrupção existe e atinge a vida política do país. Criticar e se indignar é justo e democrático.
b) Contudo, é importante considerar que a corrupção se deve tanto a CORRUPTOS quando a CORRUPTORES. Temos que nos perguntar também quem são os corruptores. Seria aquele personagem invisível, mas onipresente chamado capital? Se sim, quais os partidos que claramente representam os interesses do capital e quais se colocam abertamente contra ele?
c) Nesse caso temos que pensar a questão da reforma política no Brasil e ai entra o tema da eleição não obrigatória e do financiamento público de campanha (questão complexa, mas que por isso mesmo mostra que não basta ficarmos contra partidos, temos que ter uma alternativa, se não o discurso esvazia). Já temos uma alternativa para o dia seguinte à “revolução”, quando questões práticas como ir à padaria e quem vai “governar” esse país vão se colocar para nós?
d) Parte do discurso antipartido foi criado por setores da impressa hegemônica (Globo, Veja, etc) numa clara oposição ao PT. A imprensa hegemônica se configura com um partido político na Brasil. É esse partido que chama os ativismos das ruas de “baderna”. Não podemos ser ingênuos de achar que a corrupção começou com o PT e que nunca houve corrupção antes dele e nem terá depois. Esse discurso do “basta”, “todo político é corrupto” em parte reforça uma tentativa da imprensa conservadora (PIG) de desestabilizar o governo e retomar o poder na figura dos velhos partidos como PSDB, DEM, etc. E vejam bem, não estou defendendo o PT aqui, não sou do PT, mas alerto apenas para o aspecto ideológico subjacente ao discurso contra partidos. Ajuda a quem esse discurso agora?”
Pra finalizar, faço os seguintes questionamentos: como a gente vai poder gritar o coro “Vem pra rua!” pelas ruas, se para muitos apartidários, os partidários não podem participam se eles não se adequarem ao que os apartidários acreditam que é a única forma legítima de se manifestar? Qual o sentido da gente gritar “Sem violência!”, se a gente vai ficar se xingando, agredindo e querendo resolver as coisas no berro nas manifestações entre nós, tal qual um bando de esquizofrênicos protestando contra os companheiros manifestantes? Em SP tem bandeira de partido de ESQUERDA (por que o papel, segundo a minha ideologia e posicionamento político, da direita é manter o status quo e os privilégios de empresários) e o movimento deles é um estrondoso sucesso! Qual o medo de vocês? E a gente não pode resolver as coisas em reuniões através do debate civilizado? Espero que sim, por que eu não quero fazer parte de um movimento totalitário e fascista.