Hoje me dei conta do quanto é pueril fazer essas críticas sobre o
fato do meio acadêmico ser movido por egos, vaidades e intrigas. Ou, ainda,
discutir com as pessoas que defendem a meritocracia no meio acadêmico ou fora
dele. É até engraçado, por que a gente escuta tantos casos em que
as pessoas entram em “seleções da vida”, por que um professor fulano quis ou por
que elas tem algum tipo de relacionamento com alguém com algum poder ou
mesmo por que são bolsistas dele desde sempre e já têm um lugar reservado em
algum lugar, mas essas pessoas que são beneficiadas por essas relações
de clientelismo precisam, até mesmo para se tranquilizar, negá-las.
Já critiquei tanto, também, o fato do meio acadêmico ser
reacionário, elitista e fora da realidade e do contexto social da maior parte
da população, por isso mesmo, as vezes ele parece irrelevante (apesar de não
ser). Além disso, a maioria das pessoas que tem o privilégio de frequentar esse
espaço restritivo não refletem sobre essas questões ou acham que elas
simplesmente não importam.
Já me angustiei, até mesmo motivado por auto-crítica, com o fato
das pessoas ditas “liberais”, “progressistas” e de esquerda tomarem posturas tão
conservadoras, retrógradas e inquisitoriais quanto os direitistas (encubados ou
não) e os analfabetos políticos.
Agora penso que, talvez, o melhor caminho a tomar seja incorporar
aquela frase clichê (que é atribuída ao Gandhi, mas parece que ele nunca a
disse realmente) “seja a mudança que você quer ver no mundo”. As pessoas não
mudam e não amadurecem sem uma dose generosa de sofrimento e reflexão e não
importam quantos argumentos bem construídos, fatos e estatísticas a gente jogue
nelas, caso elas não queiram abrir mão de seus preconceitos, elas vão morrer
com as mesmas crenças que a Família, a Igreja e a Mídia incutiram nelas.
Caso eu consiga ocupar espaços na academia, que são tão reacionários e
elitistas, gostaria de tomar posturas diferentes. Selecionar bolsistas de
acordo com a capacidade deles de realizar o trabalho e sua capacidade de
reflexão e argumentação e não por critérios burocráticos ou por nepotismo ou
“clientelismo”. Selecionar mestrandos pela qualidade do trabalho deles e não por
que são meus “peixes” ou minhas “crias”. Permitir que as pessoas pesquisassem
temas já trabalhados por professores da faculdade e não ser tão corporativista.
Realizar projetos de extensão e tentar sair dos “muros” da universidade.
Incentivar o engajamento político e o interesse por movimentos sociais, por que
não necessariamente são incompatíveis com a universidade (como os meus amigos
provaram muito bem: todos se formaram no período certo, todos tem mestrado e um
é professor universitário). Ter honestidade intelectual e não ser doutrinário,
apresentar correntes historiográficas com as quais eu divirja, da forma mais
imparcial que eu for capaz (talvez assim menos pessoas tenham esse medo
neurótico dos marxistas em baixo da cama delas). Ser humilde e lembrar sempre
das minhas limitações e lacunas na minha formação (nunca começar a falar
francês ou qualquer língua estrangeira em sala de aula, tal qual um autista,
sem necessidade ou tratar os calouros como se tivessem necessidades especiais,
por que ainda estão começando a construir seu conhecimento), além disso,
escrever de forma objetiva e clara, para que um público maior possível consiga
me entender e dialogar com o meu trabalho (escrita árida e rebuscada deveria
ficar restrita a obras literárias, ou não?!).
Provavelmente não vou conseguir cumprir todo esse roteiro, por que
a vida nunca segue essas linhas (românticas? Espero que não) que idealizamos,
mas caso eu consiga cumprir ao menos parte disso ou me esforce por concretizar
essas projeções, vai ser uma energia bem empregada.
Na última matéria que cursei em História, nesse primeiro semestre
de 2013, tive contato com a nova geração de reacionários do curso, o meu
primeiro impulso foi tomar uma postura saudosista e idealizar o passado (“ah,
mas no meu tempo não era assim! Ah, mas que decadência que o curso tá!”), só
que depois de alguma reflexão, me dei conta de que no meu tempo, apesar de os
“reaças” não serem uma maioria tão esmagadora quanto parecem ser na 2010, eles,
de fato, infelizmente...existiram e não foram poucos ou silenciosos, novamente,
infelizmente. Provavelmente não senti tanto esse conservadorismo, até por que
na época eu não tinha as experiências e leituras que tenho hoje e não bati de
frente com posturas retrógradas deles e minhas, como faço atualmente com
as novas gerações de “almeidinhas”.
A questão mesmo é que eu tive muita sorte, se tivesse passado na
primeira vez que tentei pra História, teria entrado na 2005, uma turma mais
reacionária ainda que a minha e, pior ainda, não teria conhecido os meus cinco
grandes amigos. Por que isso foi importante? Por que nós cinco compartilhamos
uma amizade forte e verdadeira e um senso de companheirismo e lealdade, o que
pra mim, provou o quanto a coletividade e comunhão é mais útil para a
criação do que a competição e rivalidade. Além disso, nós compartilhávamos/amos
visões de mundo parecidas, somos de esquerda e temos posicionamentos mais
libertários e progressistas. Aí chegamos a um ponto importante: a importância
de um ambiente favorável para que visões de mundo alternativas possam florescer
e serem amadurecidas e esse contato com essas pessoas possibilitou isso pra mim.
Acredito que boa parte dos posicionamentos conservadores são
motivados por ignorância, preguiça de pensar, falta de informação, meios hostis
a livres pensadores (vide o caso de quase me botarem na fogueira por que
compartilhei um texto sobre aborto na comunidade da turma) e, mais importante
de todos, falta de “espinha dorsal”, coragem e convicção para se defender o que
se acredita (algo que, graças a jah, não me falta).
Sabe, odeio essa civilidade e
diplomacia ridículas, mas mais especificamente a covardia de quem se cala ou
não toma posição. Entretanto, eu não quero com isso tomar uma postura fascista
ou autoritária, reconheço a importância da diversidade e, mais importante
ainda, da tolerância. A questão é que, por mais que eu respeite a paciência de
Jó que o Leonardo Sakamoto tem, por ter amigos “reaças” ou tentar dialogar com
eles, o fato é que eu não sou assim e não posso lutar contra coisas básicas que
constituem a minha identidade. Além disso, em um país em que toda a velha mídia
é de direita e que, infelizmente, mas muito infelizmente mesmo, a maior parte
da população, como o próprio Sakamoto aponta, é conservadora e apoia violência
policial (mas somente contra pobre e preto), racista (é contra as cotas, é
negacionista do nosso apartheid e apoia o genocídio dos jovens negros),
machista (negacionista da desigualdade entre os gêneros e da gritante e
galopante violência contra as mulheres no país e de nossa repulsiva cultura de
estupro: “estuprador merece um abraço!kkk”), homofóbica (é contra o casamento
gay e as lutas pelos direitos civis LGBT), eu realmente preciso ter amigos
“reaças” e ficar ouvindo a lenga lenga e balela conservadora e senso comum
travestido de conhecimento?! Eu realmente preciso fazer a universidade ser uma
extensão do ensino médio e ter contato com gente que não tem absolutamente
nenhum comprometimento ético com um mundo mais justo e igualitário?! Pra ter
contato com isso, basta abrir uma Veja ou ligar o Jornal Nacional. Me perdoem,
mas não nascia pra Cristo e que quem dá luz pra “reaça” é poste.
Por fim, como eu fiquei chocado com os sensos comuns e
vitimizações das pessoas de direita, que ouvi durante esse breve contato, acabei
subestimando a nova geração de pessoas de esquerda/liberais/progressistas e negligenciando o fato que
eles também tem voz e muito a dizer e contribuir. Eles me dão esperança de que
o curso de História não é só um escolão e extensão do ensino médio ou uma
fábrica de conhecimento instrumental e gente que não questiona nada e ajuda a
reforçar preconceitos e opressões. Sou grato a essas pessoas por isso e espero que possamos trocar mais experiências positivas, reflexões, trabalhos e saberes.
(Bukoswki)
(Bukoswki)
