Sabe, é esquisito, a gente vai envelhecendo e as nossas prioridades mudam. Nós mudamos. Me lembro que era criança e parecia o fim do mundo quando não estudava para uma prova ou não fazia um trabalho, mas aí acabava me safando de alguma forma, ou ficava de recuperação. Ao longo do tempo as coisas mudam, mas o medo permanece: medo de não conseguir atingir as expectativas que nós ou os outros atribuíram pra gente (irrealisticamente ou não); medo de falhar ou ficar só; tantos medos que não tive vidas suficientes ou não sou velho o suficiente pra saber, mas não muda o fato do nosso funcionamento mudar bem pouco.
Acho que dos nossos constrangimentos diários, um dos mais chatos é ver um amigo de uma fase já superada. Tipo alguém do ensino médio. Você é de esquerda e a pessoa acha que "bandido bom é bandido morto" ou só é o constrangimento de dois desconhecidos se olhando nos olhos ou em outras direções. Esse tipo de coisa é bem comum quando a gente vive em uma capital pequena como Belém.
Uma coisa totalmente diferente é quando pessoas nos deletam da vida delas ou vice versa. Amizade ou relacionamentos amorosos.Eu ou você podemos nos excluir das nossas vidas. A diferença é que não é como antes, não estamos mais em fases diferentes e nem gostamos de coisas opostas, só temos que olhar no fundo dos olhos um do outro e perceber que fundamentalmente somos incompatíveis, como duas vidas baseadas em carbono que compartilharam um espaço, por algum tempo, mas que já passou.
Acho que o componente de medo dessa fase da vida (final dos vinte pros trinta), é que as coisas parecem mais definitivas. Amizades e relacionamentos evaporam e centenas de dias viram menos que merda. Talvez isso seja só uma outra forma de medo de se soltar e pular na água, é verdade, pode ter algum toco na água e podemos nos ferir, mas geralmente pulamos na água e nadamos até quase o fim do rio que corre perto da ilha do Combu. Entramos numa canoa. Olhamos os nossos amigos felizes, somos jovens e idiotas. Sempre vamos ser um pouco idiotas, mas aprendemos um pouco depois de cada ressaca.
terça-feira, 31 de março de 2015
segunda-feira, 23 de março de 2015
A farsa
A velha mídia me dando ânsia de vômito de novo. Sem querer soar governista, até por que o que mais me incomoda nessa capa é o fato de uns milhares de golpistas (impitiman ou golpe militar, como queira) paulistas virarem milhões. Essa massa de manobra esquizofrênica que protesta contra a Dilma por impor as medidas neoliberais que o Aécio faria. Além disso, a discrepância da cobertura dos protestos populares e a para o dos golpistas.
Quem se lembra das jornadas de junho de 2013 e a forma como a imprensa os retratou? Primeiro, fez o de sempre, tentou criminalizar movimentos sociais. Depois viu que ele se massificou e começou a entrar uma galerinha que nunca protestou, em boa parte de classe média, que carregava bandeira do Brasil e que queria expulsar os partidos do protesto (só os de esquerda). Aí a velha mídia entrou na disputa sobre a narrativa dos protestos. O que começou como protesto pelo passe livre e ganhou maior proporção depois que a classe média sentiu uma versão light do que a polícia faz na periferia (lá as balas não são de borracha) todo dia, se transformou em algo mais complexo e diverso, mas que apavorou governistas e a mídia. Esta tentou transformar os protestos em luta contra a "corrupção" (só a do PT) e inflação (e outras pautas que tiram o sono da classe média).
No decorrer dos protestos a polícia fez o que uma polícia militarizada (filhote da ditadura) é treinada pra fazer, descer o cacete em movimento popular. Só que aí a mídia tentou adaptar o discurso e repetiu como um mantra o bordão "minoria de vândalos", que caiu como uma luva para a classe média e os pobres de direita (que foram doutrinados por Família, Igreja e Mídia a se comportar bovinamente com os detentores de poder), aí essa multidão coxinha passou a caguetar os manifestantes que cometiam o crime hediondo de quebrar bancos, esses pobrezinhos que mal ganham o suficiente para sobreviver.
Voltando para 2015, esse contexto que vivemos já ganhou um ar de farsa: golpistas, integralistas e neonazistas engrossaram esse protesto, que a Globo chamou de "pacífico". Essa turba esquizofrênica branca e de classe média pedindo impitiman (ou chamemos de golpista light), lutando por menos direitos e uma sociedade mais desigual, ganha passe livre no metrô do governador tucano. A PM, desse mesmo tucano, incha o número de coxinhas para bilhões. A velha mídia faz o "carnacoxinha" e convida os "cidadãos de bem" de quarenta em quarenta minutos para esse teatro grotesco. Enfim, não deixa de ser irônico e apropriado que o estado que elegeu em primeiro turno o Alckmin, o cabeça da crise hídrica de SP, protestar contra as quimeras produzidas pela mídia. Não acredito em golpe, só tenho consciência de que essa peça é uma distração para a opinião pública não focar em pautas reais.
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