terça-feira, 23 de setembro de 2014

Pia, uto ou disto?

Estive pensando algo esses dias: nós realmente vivemos, é certo que com algumas licenças, o que algumas pessoas da década de 50 imaginavam para o ano 2000. Eles imaginavam uma família suburbana, mononuclear e patrilinear, ou pra ser mais claro, patriarcal. As pessoas usariam aros de plástico em torno dos cotovelos e joelhos, além de cores berrantes, acessórios fluorescentes e cones nos cabelos das donas de casa de classe média, acorrentadas ao papel de mãe e esposa submissa, sem direito a fiança. O meio de locomoção seriam carros voadores ou “jet packs”, que o homem branco e de preferência norte-americano, usaria para voltar ao lar com sua esposa e filhos loiros e sorridentes.
Bom, ao pensar nesse retrato, não deixo de pensar que nós também somos constrangidos por aros e sorrisos de plástico. Não temos as mochilas ou carros voadores, mas com certeza temos redes sociais, que tem o potencial de nos permitir ler sobre tudo, mas também nos distanciar de todos e não conhecer nada realmente; milhares de bugigangas eletrônicas, produzidas por trabalhadores escravos na Ásia, que tem uma durabilidade tão curta quanto sua utilidade, mas que servem de forma excelente como marcadores de status. Enfim, é o clichê que boa parte da classe média vive: “trabalhar 12 horas por dia para comprar coisas que não precisamos, para agradar pessoas de quem não gostamos”.
Por outro lado, falar sobre isso é também um clichê, mas voltando ao que eu tenho de novo para falar sobre isso é: nós realmente somos muito parecidos com o que esses criadores de desenhos e seriados e escritos de ficção científica, da década de 50, pensavam sobre o futuro. Por quê? Acho que pelo absurdo de viver em uma sociedade em que é preciso explicar para pessoas ignorantes, ou mais provavelmente de má fé, que homossexuais são assassinados justamente pela sua orientação sexual e não por algum dos outros muitos motivos da violência urbana, que mulheres são em larga escala vítimas da violência doméstica e que, mais absurdo ainda, é preciso explicar que uma mulher tem direito absoluto sobre o seu corpo e um companheiro não tem direito de violar esse direito, por que ela não é sua propriedade. É preciso explicar que o Brasil é um país extremamente desigual e segregado e que meritocracia é discurso para “boy” dormir. Como explicar (sem ser racista) que menos de 3% dos médicos são negros e que 60% da população carcerária é negra?
Hoje em dia as previsões para o futuro são distopias fatalistas e horripilantes, no estilo do filme “A estrada” (não recomendo), ou sobre futuros desastres climáticos causados pelo efeito estufa (que alguns políticos insistem em negar, mesmo sendo consenso entre os cientistas da área). Eu prefiro rejeitar tudo isso, por que o fatalismo é incompatível com a função de educador, mas não se pode “jogar o bebê com a água do banho”, não é possível ser um educador e a utopia não fazer parte da sua vida. Só não sei ainda em termos muito exatos o que ou como ela é. Talvez comece com “liberdade”.

sábado, 13 de setembro de 2014

Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”*


Dê uma olhada nessa foto. Você sabe de quem é?
A maioria das pessoas não ouviram falar dele. Mas você deveria ter. Quando você olha a face dele ou escuta o seu nome, você deveria ficar tão enojado quanto quando lê sobre Mussolini ou Hitler ou vê uma das fotos deles. Veja bem, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo. O nome dele é rei Leopold II da Bélgica.
Ele era “dono” do Congo durante o seu reinado como um monarca constitucional da Bélgica. Depois de várias tentativas coloniais fracassadas na Ásia e África, ele se instalou (?) no Congo. Ele o “comprou” e escravizou o seu povo, transformando o país inteiro em sua própria plantation escravista. Ele disfarçou suas transações de negócio como esforços “filantrópicos” e “científicos” sob a bandeira da International African Society (Sociedade Internacional Africana). Ele usou o seu trabalho escravo para extrair recursos e serviços congoleses. Seu reinado foi aplicado através de campos de trabalho, mutilações corporais, tortura, execuções e seu próprio exército particular.
A maioria de nós não é ensinada sobre ele na escola. Nós não ouvimos sobre ele na mídia. Ele não é parte da narrativa de opressão largamente repetida (a qual inclui coisas como o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial). Ele é parte de uma longa história do colonialismo, imperialismo, escravidão e genocídio na África que iria se chocar com uma construção social de uma narrativa supremacista branca nas nossas escolas. Não se encaixa facilmente (?) em currículos escolares em uma sociedade capitalista. Fazer comentários abertamente racistas é (às vezes) mal visto na sociedade “polida” (?); mas não tem problema em não falar sobre genocídio na África perpetrado por monarcas europeus capitalistas.   
Mark Twain escreveu uma sátira sobre Leopold chamada “Solilóquio do Rei Leopold; uma Defesa do seu reinado no Congo”, na qual ele ridicularizou a defesa do rei do seu reinado de terror, largamente através das próprias palavras de Leopold. É uma leitura fácil de (?) 49 páginas e Mark Twain é um autor popular nas escolas públicas norte-americanas, mas como a maioria dos autores políticos, nós frequentemente lemos alguns dos escritos menos políticos ou os lemos sem aprender o por que do autor o ter escrito pra começo de conversa. “A revolução dos bichos” de Orwell, por exemplo, serve para reforçar a propaganda norte-americana anti-socialista sobre como sociedades igualitárias estão condenadas em se transformar nos seus opostos distópicos. Entretanto, Orwell era uma revolucionário anti-capitalista diferente – um apoiador de uma democracia da classe trabalhadora a partir de baixo – e isso nunca é destacado. Nós podemos ler sobre Huck Finn e Tom Sawyer, mas “O solilóquio do rei Leopol” não está na lista de leitura. Isso não por acidente. Listas de leitura são criadas por conselhos de educação para preparar estudantes a seguir ordens e aguentar o tédio. Do ponto de vista do Departamento de Educação, Africanos não tem história.
Quando aprendemos sobre a África, nós aprendemos sobre um Egito caricato, sobre a epidemia do HIV (mas nunca suas causas), sobre os efeitos superficiais do tráfico de escravos e talvez sobre o Apartheid Sul Africano (os efeitos do qual, nós somos ensinados, estão agora há muito muito tempo acabados). Nós também vemos muitas fotos de crianças famintas em comerciais de Ministérios Cristãos (?), nós vemos safaris em programas de natureza e nós vemos imagens de desertos em filmes e nos cinemas. Mas nós não aprendemos sobre a Grande Guerra Africana ou sobre o Reino de terror de Leopold durante o Genocídio Congolês. Nem aprendemos sobre o que os EUA fizeram no Iraque e Afeganistão, matando milhões de pessoas através de bombas, sanções, doença e inanição. Contagens de corpos são importantes. E o governo dos EUA não contam pessoas afegãs, iraquianas ou congolesas.
Embora o Genocídio Congolês não esteja incluso na página “Genocídios na História”, da Wikipédia, ela menciona o Congo. O que não é chamado de República Democrática do Congo está listado em referência a Segunda Guerra do Congo (também chamada de Guerra Mundial da África e a Grande Guerra Africana), onde ambos lados do conflito regional caçaram o povo Bambenga – um grupo étnico regional –,  escravizaram e canibalizaram eles. Canibalismo e escravidão são males horrendos, os quais deveriam entrar na história, com certeza, mas eu não posso deixar de pensar em quais interesses foram servidos quando a única menção do Congo na página era em referência à incidentes regionais onde uma pequena minoria de pessoas na África estavam devorando umas as outras (completamente esvaziado das condições que criaram o conflito e  as pessoas e instituições que são responsáveis pelas condições).    
Histórias que apoiam a narrativa de supremacia branca sobre a sub-humanidade do povo na África são permitidas a entrarem aos registros da história. O cara branco que transformou o Congo em sua propriedade privada parte plantation, parte campo de concentração, parte Ministério Cristão – e matou 10 a 15 milhões de pessoas congolesas nesse processo – não é suficiente para ser incluído.  

Leopold era só uma das milhares de coisas que ajudaram a construir a supremacia branca em tanto uma narrativa ideológica como realidade material. Eu não finjo que ele era a fonte de todo o mal no Congo. Ele tinha generais, soldados rasos e gerentes que faziam a sua vontade e aplicavam as suas leis. Ele estava no topo do sistema. Mas isso não exclui a necessidade de falar sobre indivíduos que são simbólicos do sistema. Mas nós não conseguimos nem isso. E como não isso não é abordado, o que o capitalismo fez para África, todos os privilégios que pessoas brancas ricas ganharam do Genocídio Congolês, permanecem escondidos. As vítimas do imperialismo são tornadas, como elas geralmente são, invisíveis. 

*Texto traduzido deste blog: http://www.walkingbutterfly.com/2010/12/22/when-you-kill-ten-million-africans-you-arent-called-hitler/