sábado, 25 de janeiro de 2014

Noam Chomsky: O tipo de Anarquismo que eu acredito e qual o problema com os Libertarianos *

O Anarquismo "presume que o ônus da prova para qualquer um em uma posição de poder e autoridade pesa sobre eles" explica Chomsky.

O seguinte é o texto adaptado de uma entrevista que apareceu primeiro na revista Modern Sucess. Tantas coisas foram escritas sobre e discutidas pelo professor Chomsky, foi um desafio pensar em qualquer coisa nova para perguntar a ele: com o avô que você não consegue pensar em nada para dar de presente de Natal por que eles já têm tudo. Então eu decidi ser um pouco egoísta e perguntar a ele o que eu sempre quis perguntar. Como um anarquista franco, real e em carne e osso, eu queria saber como ele pôde se alinhar com uma posição tão polêmica e marginal  
Michael S. Wilson: Você é, entre muitas outras coisas, um anarquista auto-descrito – um anarcosindicalista especificamente. A maioria das pessoas pensa em anarquistas como punks marginalizados atirando pedras em vidraças de lojas, ou homens mascarados atirando bombas em formato de bolas em industriais gordos. Essa é uma visão precisa? O que é a anarquia para você?
Noam Chomsky: Bom, anarquismo é, aos meus olhos, basicamente um tipo de tendência no pensamento humano, a qual se apresenta em diferentes formas, em diferentes circunstâncias e tem algumas características principais. Primeiramente é uma tendência que suspeita e é cética à dominação, autoridade e hierarquia. Ela busca estruturas de hierarquia e dominação na vida humana sobre todos os âmbitos, se estendendo de, digamos, famílias patriarcais para, digamos, sistemas imperiais e questiona se esses sistemas são justificados. Ela presume que o ônus da prova para qualquer um em uma posição de poder e autoridade pesa sobre eles. A sua autoridade não é auto-justificável. Eles têm que dar uma razão para ela, uma justificação. E se eles não podem justificar essa autoridade, poder e controle, o que geralmente é o caso, então a autoridade deveria ser desmantelada e substituída por algo mais livre e justo. E, como eu a compreende, anarquia é somente essa tendência. Ela toma diferentes formas em tempos diferentes.
Anarco-sindicalismo é uma variedade particular de anarquismo que se preocupava, primeiramente, mas não somente, mas primeiramente com o controle sobre o trabalho, sobre o ambiente de trabalho e sobre a produção. Ele tomava como certo (it took for granted) que os trabalhadores deveriam controlar o seu próprio trabalho e suas condições, que eles deveriam controlar as empresas em que trabalhavam, junto com as comunidades, para que eles ficassem associados uns aos outros em associações livres. Uma democracia desse tipo deveria representar os elementos fundacionais de uma sociedade geral mais livre. E então, você sabe, ideias são desenvolvidas sobre como exatamente isso deveria se manifestar, mas eu penso que isso é o núcleo do pensamento anarco-sindicalista. Quer dizer, não tem nada a ver com a imagem geral que você descreveu - pessoas correndo pelas ruas, você sabe, quebrando vidraças de lojas- mas [o anarco-sindicalismo] é uma concepção de uma sociedade muito organizada, mas organizada a partir de baixo por participação direta em cada nível, com o mínimo de controle e dominação quanto for possível, talvez nenhum.      
Wilson:  Com o aparente declínio em andamento do estado capitalista, muitas pessoas estão procurando  por outras formas de serem bem sucedidas, de seguirem com a vida delas e eu estava pensando o que você  diria que anarquia e sindicalismo tem a oferecer, coisas que outras ideias - digamos, por exemplo, socialismo de estado - falharam em oferecer? Por que nós deveríamos escolher anarquia, em oposição a, digamos, libertarianismo?
Chomsky:  Bom, o que é chamado de libertariano nos Estados Unidos, o que é um fenômeno especial dos EUA, não existe realmente em nenhum outro lugar - um pouco na Inglaterra- permite um nível muito alto de autoridade e dominação, mas nas mãos do poder privado: então o poder privado deveria ser liberado para fazer o que preferir. A suposição é que por algum tipo de mágica, poder privado concentrado irá levar a uma sociedade mais livre e justa. Na verdade, isso já foi acreditado no passado. Adam Smith por exemple, um dos principais argumentos para os mercados era a alegação de que sob as condições de perfeita liberdade, mercados iriam levar à perfeita igualdade. Bom, nós não temos que falar sobre isso! Esse tipo de...
Wilson: Parece ser uma disputa contínua hoje em dia...
Chomsky: Sim, então, esse tipo de libertarianismo, aos meus olhos, no mundo atual, é só um chamado para alguns dos piores tipos de tirania, nomeadamente tirania privada sem limites ou responsabilidades (unaccountable). Anarquia é bem diferente disso.  Ela clama pela eliminação da tirania, todos os tipos de tirania. Incluindo o tipo de tirania que é interna à concentrações de poder privado. Então por que nós deveríamos preferi-la? Bom, eu acho que por que liberdade é melhor que subordinação. É melhor ser livre do que ser um escravo. É melhor ser capaz de fazer suas próprias decisões do que ter alguém para fazê-las e forçar você a segui-las. Eu quero dizer, eu não acho que você realmente  precisa de um argumento para isso. Parece ser...transparente. A coisa que você precisa de um argumento para, e deveria dar um argumento para, é, qual o melhor meio de avançarmos nessa direção? E tem muitos modos dentro da sociedade atual. Um modo, incidentalmente, é através do uso do estado, na medida em que ele é democraticamente controlado. Eu quero dizer ao longo prazo, anarquistas gostariam de ver o estado eliminado. Mas ele existe, junto com o poder privado e o estado está, ao menos até certo ponto, sob influência e controle públicos – poderia estar muito mais. E ele fornece instrumentos para restringir as muito mais perigosas forças do poder privado. Regras para segurança e saúde no trabalho, por exemplo. Ou garantindo que as pessoas tenham serviços de saúde decentes, digamos. Muitas outras coisas como isso. Eles não vão surgir pela porta privada. Muito ao contrário. Mas eles podem surgir através do uso do sistema estatal sob controle democrático limitado...para levar adiante medidas reformistas. Eu acho que essas são coisas excelentes para fazer. Eles deveriam estar esperando algo muito maior, muito além – nomeadamente democratização verdadeira, em escala muito maior. E isso é possível de não somente se pensar, mas de ser trabalhado. Então um dos principais pensadores anarquistas, Bakunin no século XIX, destacou que é bem possível construir as instituições de uma sociedade futura dentro da atual. E ele estava pensando sobre sociedades muito mais autocráticas do que a nossa. E isso está sendo feito. Então, por exemplo, empreendimentos controlados pelos trabalhadores e pela comunidade são germes de uma sociedade futura dentro da atual. E esses não somente podem ser desenvolvidos, mas estão sendo desenvolvidos. Existe um trabalho importante sobre isso feito por Gar Alperovitz, que é envolvido em sistemas empresariais a redor da área de Cleveand, os quais são controlados pelos trabalhadores e pela comunidade. Existe muita discussão teórica, a partir de várias fontes, sobre como isso poderia funcionar. Algumas das ideias mais desenvolvidas estão no que se chamam “parecon” – economias participativas- em literatura e discussões. E existem outras. Esses são no nível de planejamento e de idealização. E no nível de implementação prática, existem passos que podem ser tomados, enquanto também insistindo para superar o pior...os maiores males...causados por...concentração de poder privado através do uso do sistema estatal, enquanto o sistema atual existe. Então não existe carência de meios para se investir. E sobre socialismo de estado, depende do que alguém quer dizer pelo termo. Se for a tirania da variedade Bolchevique (e seus descendentes), nós não precisamos continuar nisso. Se for um estado social democrático mais expandido, então os comentários acima se aplicam. Se outra coisa, então o que? Era irá colocar a tomada de decisões nas mãos dos trabalhadores e das comunidades, ou nas mãos de alguma autoridade? Se a última, então – mais uma vez – liberdade é melhor do que subjugação e a última carrega um fardo muito pesado de justificação. 
Wilson: Muitas pessoas conhecem você por causa do desenvolvimento do Modelo de Propaganda, seu e de Edward Herman. Você poderia descrever brevemente esse modelo e por que ele poderia ser importante para estudantes universitários?
Chomsky: Bom, primeiro olhe pra trás um pouco – um pouco de contextualização histórica -  remontando ao fim do século XIX-, início do XX, uma boa quantidade de liberdade tinha sido ganha em algumas sociedades. No topo disso estavam, de fato, os EUA e a Inglaterra. De modo algum sociedades livres, mas por padrões comparativos bem avançadas nesse aspecto. De fato tão avançadas, que sistemas de poder – estatais e privados – começaram a reconhecer que as coisas estavam chegando a um ponto em que eles não conseguem controlar a população pela forção tão facilmente quanto antes, então eles  vão ter que buscar outros meios de controle. E esses outros meios de controle são controle de crenças e atitudes. E saído disso cresceu a indústria das relações públicas, a qual naqueles dias se descrevia honestamente como uma indústria de propaganda. O guru da indústria de RP, Edward Bernays – incidentalmente, não um reacionário, mas um liberal Wilson-Roosevelt-Kennedy – o primeiro manual da indústria de RP o qual ele escreveu nos anos 1920 se chamava Propaganda. E nele, ele descrevia, corretamente, que o objetivo da indústria. Ele disse: o nosso objetivo é garantir que a “minoria inteligente” – e é claro que qualquer um que escreva sobre essas coisas é parte dessa minoria inteligente por definição, por estipulação, então nós, a minoria inteligente, somos as únicas pessoas capazes de controlar as coisas. E existe aquela grande população lá fora, as “massas não lavadas”, as quais, se deixadas sem supervisão irão simplesmente arrumar problemas: então nós temos que, como ele disse, “fabricar o consenso deles”, descobrir modos de garantir que eles consintam como o nosso governo e dominação. E esse é o objetivo  da indústria de RP. E ele funciona de muitos modos. Seu compromisso primário é a publicidade comercial. Aliás, Bernays fez seu nome logo naquele tempo - fim dos anos 20 – fazendo uma campanha publicitária para convencer as mulheres a fumarem cigarros: mulheres não estavam fumando cigarros, esse grande grupo de pessoas que a indústria do tabaco não consegue matar. Então nós temos que fazer algo sobre isso. E ele de forma muito bem sucedida lançou campanhas que induziram mulheres a fumar cigarros: que seria, em termos modernos, a coisa descolada de fazer, você sabe, esse é o modo que você consegue ser uma mulher moderna e liberta. Foi muito bem sucedido -    
Wilson: Existe uma correlação entre aquela campanha e o que está acontecendo com a indústria petrolífera atualmente e a mudança climática?
Chomsky: Existem apenas alguns exemplos. Essas são as origens do que se tornou uma indústria enorme de controle de atitudes e opiniões. Agora a indústria petrolífera atualmente e o fato de que o mundo de negócios geralmente estão envolvidos em campanhas comparáveis para tentar sabotar os esforços para lidar com um problema que é ainda maior do que o homicídio em massa que foi causado pela indústria do tabaco; e foi homicídio em massa. Nós estamos encarando uma ameaça, uma ameaça séria de catastrófica mudança climática.E não é brincadeira. E a [indústria petrolífera] está tentando impedir medidas para lidar com ela pelos seus próprios interesses de lucro de curto prazo. E isso inclui não somente a indústria do petróleo, mas a Câmara Americana de Comércio – o principal lobby de negócios – e outros que declararam bastante abertamente que eles estão conduzindo...eles não a chamam de propaganda...mas o que seria equivalente a campanhas de propaganda para convencer as pessoas de que não existe perigo real e que nós não deveríamos fazer realmente muita coisa sobre isso e que nós deveríamos nos concentrar nas coisas que são realmente importantes como o déficit e crescimento econômico – o que eles chamam de “crescimento” – e não nos preocuparmos com o fato que a espécie humana está marchando para um penhasco que poderia ser algo como a destruição da espécie humana; ou no mínimo a destruição de uma possibilidade de vida decente para um número enorme de pessoas. E existem muitas outras correlações. Na verdade, de modo bem geral, publicidade comercial é fundamentalmente um esforço de sabotar mercados. Nós deveríamos reconhecer isso. Se você fez um matéria de economia, você sabe que mercados supostamente são baseados em consumidores informados fazendo decisões racionais. Dê uma olhada no primeiro anúncio que você ver na televisão e pergunte a si mesmo...isso é o propósito dele? Não, não é. É criar consumidores desinformados fazendo escolhas irracionais. E essas mesmas instituições lançam campanhas políticas. É maios ou menos o mesmo: você tem que sabotar a democracia tentando fazer pessoas desinformadas fazerem escolhas irracionais. E então esse é somente um aspecto da indústria de RP. O que Herman e eu estávamos discutindo era outro aspecto de todo o sistema de propaganda que foi desenvolvido aproximadamente nesse período e isso é a “fabricação do consenso”, como era chamado, [consenso] para as decisões dos nossos líderes políticos, ou os líderes da economia privada, para tentar garantir que as pessoas tenham as crenças certas e não tentem compreender o modo como as decisões estão sendo feitas por que isso não somente poderia machuca-las, mas machucar muitos outros. Isto é propaganda no sentido normal. E então nós estávamos falando sobre mídia de massas e a comunidade intelectual do mundo em geral, a qual é, em larga medida, dedicada a isto. Não que as pessoas vejam elas mesmas como propagandistas, mas...que elas são profundamente doutrinadas nos princípios do sistema, o qual impede que elas percebam muitas coisas que estão bem na superfície, [coisas] que seriam subversivas ao poder se entendidas. Nós damos muitos exemplos lá e existem muitos mais que você pode mencionar até o momento presente, alguns cruciais aliás. Isto é uma parte grande de um sistema geral de doutrinação e controle que funciona paralelamente do controle de atitudes e... compromissos consumistas, e outros instrumentos para controlar as pessoas. Antes você mencionou os estudantes. Bom, um dos problemas principais para os estudantes atualmente – um problema enorme – são as mensalidades subindo aceleramente. Por que nós temos mensalidades que são completamente desalinhadas com as de outros países, mesmo com a nossa própria história? Nos anos 1950, os Estados Unidos era um país muito mais pobre do que é hoje e no entanto, a educação superior era...mais ou menos de graça ou taxas baixas ou sem taxas para números enormes de pessoas. Não houve uma mudança econômica que tornou isso necessário, agora, de existirem mensalidades altas, muito mais do que quando nós eramos um país pobre.E para transmitir a mensage ainda mais claramente, se nós olharmos somente através das fronteiras, o México é um país pobre, no entanto, tem um bom sistema educacional com mensalidade gratuita. Houve uma tentativa do estado mexicano de aumentar as mensalidades, talvez alguns 15 anos atrás ou mais, e houve uma greve nacional dos estudantes que teve muito apoio popular e o governo recuou. Agora isso aconteceu recentemente em Quebec, em nossa outra fronteira. Atravesse o oceano: a Alemanha é um país rico. Mensalidade gratuita. Finlândia tem o sistema educacional mais bem qualificado do mundo. Gratuito...virtualmente gratuito. Então eu não acho que você pode fornecer um argumento que existem necessidades econômicas atrás da incrível alto aumento nas mensalidades. Eu acho que essas são decisões sociais e econômicas feitas por pessoas que determinam políticas. E [esses aumentos] são parte de, em minha opinião, parte de uma reação que se desenvolveu nos anos 1970 contra as tendências liberatórias dos anos 1960. Estudantes se tornaram mais livres, mais abertos, eles estavam lutando pela oposição à guerra, por direitos civis, direitos das mulheres...e o país simplesmente ficou livre demais. Aliás, intelectuais liberais condenaram isso, chamaram de uma “crise da democracia”: nós temos que ter mais moderação na democracia. Eles pediram, literalmente, por mais compromisso na doutrinação dos jovens, a frase... Nós temos que nos certificar de que as instituições responsáveis pela doutrinação dos jovens façam o trabalho delas, para que nós não tenhamos toda essa liberdade e independência. E muitos desenvolvimentos ocorreram depois disso. Eu não acho que nós tenhamos documentação suficiente para provar relações causais, mas você pode ver o que aconteceu. Uma das coisas que aconteceu era controlar os estudantes – aliás, controlar os estudantes para o resto da vida deles, por simplesmente aprisionando eles em dívida. Essa é uma técnica muito eficiente de controle e doutrinação. E eu suspeito – eu não posso provar – mas eu suspeito que isso seja uma grande parte do motivo por trás de [mensalidades altas]. Muitas outras coisas paralelas aconteceram. A economia toda mudou em modos significativos para concentrar poder, para sabotar os direitos e liberdades dos trabalhadores. Aliás, o economista que presidiu a Federal Reserve nos anos Clinton, Alan Greenspan – St. Alan como ele era chamado então, o grande gênio da profissão de economia que estava controlando a economia, altamente honrado – ele depôs orgulhosamente em frente ao congresso que a base para aquela grande economia que ele estava controlando era o que ele chamou de “crescente insegurança trabalhista”. Se os trabalhadores estão mais inseguros, eles não faram coisas como pedir por melhores salários e melhores benefícios. E isso é saudável para a economia de certo ponto de vista, um ponto de vista que diz que trabalhadores deveriam ser oprimidos e controlados e que a riqueza deveria ser concentraa em alguns pouquíssimos bolsos. Então sim, isto é uma economia saudável e nós precisamos de uma crescente insegurança trabalhista e nós precisamos de crescente insegurança estudantil, por razões semelhantes. Eu acho que todas essas coisas se alinham juntas como parte de uma reação geral – incidentalmente, uma reação bipartidária – contra tendências liberatórias que se manifestaram nos anos 60 e continuaram desde então. 
Wilson: [Finalmente,] Eu estou pensando se você poderia [finalizar com alguns conselhos para os estudantes universitários de hoje]
Chomsky: Existem bastante problemas no mundo hoje e estudantes encaram alguns deles, incluindo os que eu mencionei – a falta de emprego, insegurança e por aí vai. No entanto, por outro lado, houve progresso. Em muitos apectos as coisas estão muito mais livres e o avançadas o que elas eram....não muitos anos atrás. Tantas coisas que eram assunto de luta, aliás algumas que quase não era possível mencionar, digamos, nos anos 1960, estão agora...parcialmente resolvidos. Coisas como direitos das mulheres. Direitos LGBT. Oposição à agressão. Preocupação com o meio ambiente – o qual não está nem perto do que deveria estar, mas muito além dos anos 1960. Essas vitórias pela liberdadenão vieram de presentes de cima. Elas vieram de pessoas lutando sob condições mais severas do que são agora. Existe repressão estatal agora. Mas não chega nem perto de se comparar com digamos, Cointelpro nos anos 1960. As pessoas que não sabem sobre isso deveriam ler e pensar para descobrir. E isso deixa muitas oportunidades. Estudantes, você sabe, são relativamente privilegiados comparados ao resto da população. Eles também estão em um período da vida deles quando eles são relativamente livres. Bom, isso fornece todo tipo de oportunidades. No passado, tais oportunidades foram aproveitadas por estudantes que frequentemente estavam na vanguarda da mudança progressiva e eles têm muito mais oportunidades agora. Nunca vai ser fácil. Vai haver repressão. Vai haver reação. Mas esse é o modo que a sociedade avança.    
 *Versão traduzida desta entrevista: http://www.alternet.org/civil-liberties/noam-chomsky-kind-anarchism-i-believe-and-whats-wrong-libertarians

sábado, 18 de janeiro de 2014

Noite

Uma sombra ao pé da minha cama, talvez uma figura ameaçadora de uma mulher. Algo que uma mente meio adormecida formulou, mas se essa mesma mente for crédula e cheia de religião, provavelmente essa figura é um espírito, visagem ou encosto. Pra mim é só um resquício de uma imagem ou sonho ao qual a minha mente semi-adormecida ainda se agarrava.
Barulhos de choro ou lamento de criança ou bebê me acordam, mas na verdade é só a minha gata no cio brigando com outro felino, entre a tela da garagem, por que a minha irmã deixou a porta de madeira aberta, ao entrar em casa.
Livros, roupas e outros objetos formam contornos ameaçadores de algo à espreita. No entanto, não sou mais um menino e meu lençol não é mais uma armadura que pode me proteger dos demônios de baixo da minha cama ou escondidos nas sombras e me dando nós na garganta.
Sou um homem de 1,90m, meus pés sobram um pouquinho na cama, é um problema que já me acostumei, mas mesmo assim, não tenho a ilusão de que seja tão menos vulnerável do que quando era criança. Agora os monstros e demônios são mil preocupações e projeções que podem ou não se realizar, mil pequenas falas e interações com outras pessoas que poderiam significar um milhão de coisas e que podem implicar em um zilhão de coisas negativas ou positivas, uma infinidade de neuras de “adultescente” passam pela minha mente antes de finalmente adormecer. Não me iludo muito quanto a isso, elas são tão reais quanto os meus terrores da infância e fazem parte da história que eu e as outras pessoas contamos sobre mim mesmo e ela já é tão velha que eu acabo acreditando que seja toda a verdade, mas às vezes ela parece real demais para ser só uma narrativa e outras, parece só uma fábula que espero poder segurá-la com força entre as minhas mãos e moldá-la.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Alguns pontos sobre Na pior em Paris e Londres

Na pior em Paris e Londres

As impressões do autor sobre a pobreza:
“É muitíssimo curioso o primeiro contato com a pobreza. Você pensou tanto sobre ela  - é uma coisa que você temeu a vida inteira, uma coisa que sabia que ia acontecer com você mas cedo ou mais tarde, e ainda assim é tudo tão completa e prosaicamente diferente. Você achava que iria ser bem simples; é extraordinariamente complicado. Você achava que ia ser terrível; é apenas imundo e chato. A primeira coisa que você descobre é a baixeza peculiar da pobreza, as mudanças que ela impõe, a complicada mesquinhez, o desnudamento de si mesmo.
...
Você descobre a extrema precariedade de seus seis francos diários. Desastres banais acontecem e deixam você sem comida. Você gastou seus últimos oitenta cêntimos em meio litro de leite e o está fervendo numa espiriteira. Nesse momento, um percevejo desce pelo seu antebraço; você dá um piparote no inseto e ele, ploft!, cai direto no leite. Não há nada a fazer senão jogar o leite fora e ficar sem comer....
Você se perdeu e foi dar numa bairro respeitável, e vê um amigo próspero que se aproxima. Para evitá-lo, você se esconde no café mais próximo. Lá dentro, precisa comprar alguma coisa, então gasta seus últimos cinquenta cêntimos num copo de café com uma mosca morta dentro. Seria possível multiplicar esses desastres às centenas. Fazem parte do processo de andar duro.
Você descobre o que é sentir fome. Com pão e margarina no estômago, sai e olha as vitrines. Por toda parte, há comida te insultando em pilhas imensas, perdulárias: leitões inteiros, cestas de pães, grandes blocos amarelos de manteiga, fieiras de salsichas, montanhas de batatas, vastos queijos Gruyère do tamanho de rebolos. Diante de tanta comida, uma lamurienta autocomiseração o invade. Você planeja pegar um pão , sair correndo e engoli-lo antes que o alcancem; e só não o faz por pura covardia.” Pgs. 24, 25 e 26
Sobre o antissemitismo na fale de Boris, um russo amigo do narrador:
“Já lhe contei, mon ami, que no antigo Exército russo era considerado mau comportamento cuspir num judeu? Sim, achávamos que o cuspe de um oficial russo era precioso demais para ser desperdiçado nos judeus...”. Essa fala, apesar de rocambolesca, me fez pensar nos pogroms, os massacres que o exército russo fazia nas comunidades judias. Me lembrei também do pedófilo yuppie Woody Allen em resposta a algum hobby bobo ou qualquer coisa banal que a avó da namorada dele fazia, falou que a avó dele, quando jovem, estava ocupada demais tentando não ser estuprada por cossacos para e preocupar com isso ou algo do tipo.
De toda forma, é interessante ver a elite russa que se ferrou com a revolução russa, penando em Paris e a relação do narrador com eles. Uma passagem em que eles tentam vender artigos políticos falsos pra um falso aparelho comunista não tem preço!
Sobre a classe trabalhadora incorporar os discursos da elite e se identificar mais com os ricos do que com pessoas de sua classe:
“O ponto de vista do garçom é bem diferente. De certa forma ele também se orgulha de sua habilidade, mas ela é, principalmente, a de ser servil. O trabalho não lhe dá mentalidade de um operário, mas de um esnobe. Ele vive perpetuamente à vista de gente rica, fica ao lado de suas mesas, escuta suas conversas, puxa-lhes o saco com sorrisos e piadinhas discretas...está pensando: ‘um dia, quando eu tiver economizado dinheiro suficiente, poderei fazer como esse sujeito’...Por isso os garçons quase nunca são socialistas, não têm um sindicato eficaz e trabalham doze horas por dia - em muitos cafés trabalham quinze horas por dia, sete dias por semana. Eles são esnobes e acham a natureza servil de seu trabalho bastante apropriada.” Pgs. 90-91.
O diálogo dele com um mendigo que não se assumia como tal:
“Então, contei-lhe sobre o desperdício de comida na cozinha do albergue e o que pensava disso. E ele mudou imediatamente de tom vi que eu havia despertado nele o pew-renter* (*Aqueles que pagam para reservar seu assento nos bancos da igreja e, portanto, pertencem a uma classe social mais alto do que o proletariado) que há em todo trabalhador inglês. Embora tivesse passado fome como os outros, de imediato viu boas razões para jogar a comida fora, em vez de dar aos mendigos. Admoestou-me com severidade.
‘Eles têm de fazer isso’, disse ele. ‘Se tornarem esses lugares confortáveis demais, toda a escória virá para cá. É somente a comida ruim que mantém essa escória longe. Esses mendigos aqui são preguiçosos demais para trabalhar, esse é o problema deles. Você não vai querer encorajá-los. São uma escória.” Pgs. 222 e 221.
Sobre o lazer dos trabalhadores:
“Charlie, bêbado, meio que dançava e cambaleava com um copo de absinto falsificado em uma das mãos gordas, beliscando os seios das mulheres e declamando poesia. Havia gente jogando dardos e dados por bebida. O espanhol Manuel arrastava as garotas até o bar e esfregava o copo de dados na barriga delas para ter sorte. Madame F. ficava no bar e enchia rapidamente chopines de vinhos pelo funil de peltre, com um pano de prato úmido sempre à mão, porque todos os homens do salão tentavam arrastar a asa para ela. Duas crianças, filhas bastardas do pedreiro Louis, ficavam juntas num canto bebendo um copo de sirop. Todos estavam muito felizes, cheios da certeza de que um mundo era um bom lugar, e nós, um notável grupo de pessoas.”
...
“Por volta da uma e meia, a última gota de prazer já havia evaporado, deixando apenas dores de cabeça. Percebíamos que não éramos habitantes esplêndidos de um mundo esplêndido, mas um bando de trabalhadores mal pagos, miseráveis e tristemente bêbados. Continuávamos a beber vinho, mas apenas por hábito, e a coisa parecia subitamente nauseante. A cabeça inchava como um balão, o chão balançava, a língua e os lábios estavam manchados de roxo. Por fim, não fazia mais sentido continuar com aquilo. Vários homens saíam para o quintal atrás do bistrô e vomitavam. Arrastávamo-nos para a cama, caíamos meio vestidos e ficávamos ali por dez horas.
Quase todas as minhas noites de sábados eram assim. No total, as duas horas em que nos sentíamos perfeita e freneticamente felizes pareciam valer a dor de cabeça subsequente. Para muitos homens do bairro, solteiros e sem um futuro em que pensar, a bebedeira semanal era a única coisa que fazia a vida valer a pena.”

Acho que esses trechos, mais do que ilustrarem os diferentes estágios da embriaguez, revelam como relatos românticos podem ser enganosos sobre as vidas de trabalhadores super explorados e encobrir uma realidade penosa e desumana. No segundo parágrafo, a ilusão "idílica" é destruída junto com os momentos prazerosos de uma bebedeira.
Sobre o trabalho, exploração, alienação e o por que da classe média se identificar com os ricos e defender o status quo:
“Quero dar a minha opinião sobre a vida de um plongeur de Paris, se é que ela vale alguma coisa. Se pensarmos bem, é estranho que milhares de pessoas em uma grande cidade moderna passem suas horas de vigília lavando pratos em antros quentes e subterrâneos. A questão que levanto é por que essa vida continua, para que ela serve e quem quer que ela continue, e por quê. Não estou assumindo uma atitude meramente rebelde, fainéant. Estou tentando examinar o significado social da vida de um plongeur.
Creio que se deve começar dizendo que o plongeur é um dos escravos do mundo moderno. Não que haja necessidade de ter pena dele, pois está em melhor situação do que muitos trabalhadores braçais, mas ainda assim não é mais livre do se fosse comprado e vendido. Seu trabalho é servil e sem arte; pagam-lhe apenas o suficiente para mantê-lo vivo; só tem férias quando é demitido. Não tem condições de se casar e, se casar, sua mulher vai precisar trabalhar também. Exceto por um acaso feliz, não tem como escapar dessa vida, a não ser indo para a prisão. Neste momento, há homens com diploma universitário esfregando pratos em Paris de dez a quinze horas por dia. Não se pode dizer que é mera preguiça deles, pois um homem preguiçoso não pode ser um plogeur; eles simplesmente caíram na armadilha de uma rotina que torna impossível pensar. Se os plongeurs pensassem, teriam criado um sindicato há muito tempo e feito greve por um tratamento melhor. Mas eles não pensam, por que não tem tempo para isso; a vida que levam fez deles escravos.
A questão é: por que essa escravidão continua? As pessoas costumam dar de barato que todo trabalho é feito com um objetivo bastante justificado. Elas veem alguém fazendo um serviço desagradável e pensam que resolvem as coisas dizendo que aquele serviço é necessário. Mineração de carvão, por exemplo, é um trabalho duro, mas é necessário- precisamos de carvão. Trabalhar nos esgotos é desagradável, mas alguém precisa trabalhar nos esgotos. E o mesmo se dá com o trabalho do plongeur. Algumas pessoas precisam se alimentar em restaurantes e, portanto, outras pessoas devem lavar pratos oitenta horas por semana. É consequência da civilização e, portanto, inquestionável. Vale a pena examinar essa questão.
O trabalho de um plongeur é realmente necessário para a civilização? Temos uma vaga sensação de que deve ser um trabalho “honesto”, porque é duro e desagradável, e fizemos do trabalho braçal uma espécie de fetiche. Vemos um homem derrubando uma árvore e temos certeza de que ele está satisfazendo uma necessidade social, só porque usa seus músculos; não nos ocorre que talvez esteja cortando uma bela árvore a fim de abrir espaço para uma estátua horrenda. Creio que o mesmo ocorre com o plongeur. Ele ganha o pão com o suor de seu rosto, mas não se deve concluir daí que esteja realizando algo útil; ele talvez esteja apenas fornecendo um luxo que, muitas vezes, não é um luxo.
Como exemplo do que quero dizer com luxo que não são luxos, tomemos um caso extremo, como dificilmente se vê na Europa. Tomemos um puxador de riquixá indiano ou um pônei que puxa gharri, o carro de aluguel na Índia. Em qualquer cidade do Extremo Oriente há centenas de puxadores de riquixá, negros infelizes de cinquenta quilos vestidos com tangas. Alguns são doentes; alguns têm cinquenta anos de idade. Por quilômetros sem fim, trotam sob sol ou chuva, com a cabeça baixa, puxando pelos varais, o suor pingando de seus bigodes grisalhos. Quando andam demasiado devagar, o passageiro os chama de bahinchut. Ganham trinta ou quarenta rupias por mês e destroem seus pulmões em alguns anos. Os pôneis de carros de aluguel são bestas descarnadas e violentas que foram vendidas barato por terem poucos anos de trabalho pela frente. Seu dono considera o chicote um substituto da comida. O trabalho deles se expressa numa espécie de equação – chicote mais comida igual a energia; em geral, é cera de 60% por açoite e 40% de comida. Às vezes, têm uma imensa ferida ao redor do pescoço, de tal modo que puxam o carro o dia inteiro em carne viva. Porém, ainda assim é possível fazê-los trabalhar: é só uma questão de açoitá-los tanto que a dor de trás supera a da frente. Após alguns anos, até o chicote perde a eficácia e o pônei vai para o matadouro de cavalos velhos. São dois exemplos de trabalho desnecessário, pois não há uma verdadeira necessidade de riquixás nem de carros de aluguel; eles só existem por que os orientais consideram vulgar andar a pé. São luxos e, como qualquer um que tenha andado neles sabe, luxos muito pobres. Eles possibilitam uma pequena quantidade de conveniência, que de forma alguma justifica o sofrimento de homens e animais.
O mesmo acontece com um plongeur. Ele é um rei, se comparado com o puxador de riquixá ou com um pônei de gharri, mas seu caso é análogo. Ele é o escravo de um hotel ou restaurante, e sua escravidão é ais ou menos útil. Pois, afinal, onde está a real necessidade da existência de hotéis e restaurantes chiques? Supõe-se que eles devem proporcionar luxo, mas, na realidade, oferecem apenas uma imitação barata, zurrapa disso. Quase todo mundo odeia hotéis. Alguns restaurantes são melhores do que outros, mas é impossível conseguir em um restaurante uma refeição tão boa como a que se pode ter em casa pelo mesmo preço. Sem dúvida, hotéis e restaurantes devem existir, mas não há necessidade de que escravizem centenas de pessoas. O que gera o trabalho neles não são as coisas essenciais, mas as imposturas que supostamente representam o luxo. O requinte, como chamam, significa, na verdade, apenas o que os funcionários trabalham mais e os clientes pagam mais; ninguém se beneficia, exceto o proprietário, que logo comprará uma casa de campo em Deauville. Essencialmente, um hotel “requintado” é um lugar onde cem pessoas labutam como o diabo para que duzentas posam pagar os olhos da cara por coisas de que realmente não necessitam. Se o absurdo fosse eliminado dos hotéis e restaurantes, e o trabalho fosse feito com uma eficiência simples, os plongeurs talvez trabalhassem seis ou oito horas por dia, em vez de dez ou quinze.
Vamos dar de barato que o trabalho do plongeur é mais ou menos inútil. Então vem a pergunta: por que alguém quer que ele continue a trabalhar? Estou tentando ir além da causa econômica imediata e examinar que prazer alguém pode sentir ao imaginar homens lavando pratos pelo resto da vida. Pois não há dúvida de que algumas pessoas – confortavelmente situadas na vida – encontram prazer nesses pensamentos. Marcos Cato dizia que um escravo deve trabalhar quando não está dormindo. Não importa se o trabalho é necessário ou não, ele deve trabalhar por que o trabalho é em si mesmo bom – para escravos, pelo menos. Esse sentimento ainda sobrevive e criou montanhas de trabalho enfadonho e inútil.
Creio que esse instinto de perpetuar o trabalho inútil é, no fundo, simples medo da plebe. Essa gentalha (costumam pensar) é constituída por animais tão vis que se tornariam perigosos se tivessem lazer; é mais seguro mantê-los bastante ocupados para evitar que pensem. Se perguntarem a um homem rico que seja intelectualmente honesto sobre a melhoria das condições de trabalho, ele dirá algo assim:
‘Sabemos que a pobreza é desagradável; na verdade, uma vez que é tão remota, gostamos um pouco de nos angustiar com a ideia de sua desagradabilidade. Mas não esperem que façamos alguma coisa a respeito dela. Temos pena de vocês, classe baixas, tanto quanto temos pena de um gato com sarna, mas lutaremos como demônios contra qualquer melhoria de sua condição. Achamos que vocês estão muito seguros assim como vivem. O atual estado das coisas nos convém e não vamos assumir o risco de libertá-los, nem mesmo de uma hora extra por dia. Então, queridos irmãos, uma vez que vocês devem evidentemente sua para pagar nossas viagens à Itália, suem e que se danem.’
Essa é, particularmente, a atitude de pessoas inteligentes e cultas; pode-se ler a substância disso em centenas de ensaios. Muito poucas pessoas cultas têm menos de (digamos) quatrocentas libras esterlinas por ano e, naturalmente, ficam ao lado dos ricos porque imaginam que qualquer liberdade concedida aos pobres é uma ameaça a sua própria liberdade. Prevendo alguma sinistra utopia marxista utopia marxista como alternativa, o homem instruído prefere manter as coisas como estão. É possível que ele não goste muito de seus companheiros ricos, mas supõe que até o mais vulgar deles é menos inimigo de seus prazeres, mais seu tipo de gente, do que os pobres, e que é melhor defendê-los. É esse medo de uma plebe supostamente perigosa que faz com que quase todas as pessoas inteligentes tenham opiniões conservadoras.
O temor da plebe é um medo supersticioso. Baseia-se na ideia de que há alguma diferença fundamental e misteriosa entre ricos e pobres, como se fossem duas raças diversas, como negros e brancos. Mas, na realidade, não existe diferença. A massa dos ricos e dos pobres diferenciam-se por suas rendas e nada mais, e o milionário típico é apenas o lavador de pratos típico com roupa nova. Troquem-se os lugares e adivinhem quem é o juiz e quem é o ladrão. Quem quer que tenha se misturado em termos iguais com os pobres sabe disso muito bem. Mas o problema é que as pessoas inteligentes e cultas, exatamente aquelas que deveriam ter opiniões liberais, jamais se misturam com os pobres. Pois o que a maioria das pessoas instruídas sabe sobre a pobreza? Em meu exemplar dos poemas de Villon traduzidos para o inglês, o editor julgou necessário explicar o verso ‘Ne pain ne voyent qua’aux fenestres ’ em uma nota de rodapé, tão remota é a fome da experiência do homem culto. Dessa ignorância resulta naturalmente um medo supersticioso da plebe. O homem instruído imagina uma horda de sub-homens, desejosos apenas de um dia de liberdade para saquear sua casa, queimar seus livros e pô-lo a trabalhar cuidando de uma máquina ou varrendo um banheiro. ‘Antes qualquer coisa’, ele pensa, ‘qualquer injustiça, a libertar a plebe’. Não vê que, uma vez que não existe diferença entre a massa de ricos e a de pobres, não se trata de libertar a plebe. A plebe, na verdade, está livre agora e – na forma de homens ricos – está usando seu poder para montar enormes moinhos de tédio, tais como os hotéis ‘elegantes’.
Para resumir. O plongeur é um escravo, e um escravo mal utilizado, que executa um trabalho estúpido e, em larga media, desnecessário. Em última análise, ele é mantido no trabalho devido a um vago sentimento de que seria perigoso se tivesse horas vagas. E as pessoas instruídas, que deveriam estar do lado dele, concordam com o processo, porque não sabem nada sobre ele e, em consequência, têm medo dele. Falo do plongeur por que é o caso dele que estou examinando, mas isso se aplicaria também a incontáveis tipos de trabalhadores. Estas são apenas minhas próprias ideias sobre os fatos básicos da vida de um plongeur, apresentadas sem referências imediatas a questões econômicas e, sem dúvida, são obviedades em sua maioria. Apresento-as como uma amostra dos pensamentos que passam pela cabeça de quem trabalha em um hotel.” Pgs. 133-39.       
Enfim, um excelente livro (descontando algumas passagens antissemitas e xenófobas e algumas afirmações naturalizantes sobre as desigualdades de gênero na divisão do trabalho), o principal problema pra mim foram os comentários sobre a mendicância: os moradores de rua eram “fardos” e o autor discorre sobre como transformar esses homens em seres “úteis” para a sociedade e  ou as alegações do autor de que as mulheres eram uma minoria absoluta na mendicância “por que elas tem a opção de se ligar a algum homem” (fiquei pensando: esses dados estão corretos mesmo? E a prostituição???) ou seu deslize grave descrevendo as mulheres como meros objetos para que os homens possam satisfazer seus impulsos sexuais e suas carências emocionais.  Foi um pouco anticlimático, mas é importante levar em consideração que isso tudo foi escrito no início do século XX. 
Essa definitivamente foi uma leitura marcante. Recomendo! Não tem como ler esse livro e não notar a ironia  que é "A revolução dos bichos" ser usada como propaganda anticomunista.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Revolução Russa e o alcoolismo

É, já descobri! A queda da União Soviética não foi causada pelo autoritarismo, a centralização, a corrida armamentista ou mesmo o culto à personalidade, não, foi a caretice:  

“O problema foi especialmente grave com relação às adegas do Palácio de Inverno. O regimento de Preobrajenski, encarregado de tomar conta delas, embebedou-se e já não servia para nada. O regimento de Pavlovski, nosso apoio revolucionário, também não resistiu. Enviaram-se equipes de homens tirados de diversos regimentos: embebedaram-se. Os comitês também não resistiram. Mandou-se dispensar a multidão com carros blindados, mas suas equipes logo cambalearam. Ao cair da noite, era um bacanal. ‘Bebamos os restos dos Romanov’, diziam alegremente no meio da multidão. Afinal, a ordem foi restabelecida pelos marinheiros vindos de Helsigfors, homens de aço, mais dispostos a se matar do que a beber. No subúrbio de Vassili-Osstrov, o regimento da Finlândia, dirigido pelos elementos anarco-sindicalistas, decidiu fuzilar no ato os saqueadores e fazer explodir as adegas de vinho.

Esses libertários não eram homens de meias medidas. Felizmente! Esses excessos eram deliberados. Todos os meios são bons! Coisa semelhante ocorreu por todo o país e, muitas vezes, a mão do inimigo era visível. Um dos combatentes da Revolução de Outubro, na frente e combate da Romênia, relata, por exemplo, o seguinte:
De repente, o álcool apareceu na frente de combate em enormes quantidades (...) As tropas esgotadas com as privações logo ficaram sabendo (...) e se lançavam, batalhões e regimentos inteiros, por vezes, sobre aquela riqueza: havia casos de defenderem seus barris a golpe de baionetas ou a tiros de metralhadoras (...) Até mesmo membros do Comitê Revolucionário haviam cedido à tentação de beber [...]. Formamos um grupo de sete homens de absoluta confiança , bem armados, que trabalharam sem descanso, das dez da noite às onze da manhã, num lugar afastado, para ARREBENTAR OS TONÉIS DE CARVALHO  [:’( ]  comboio.

...
Trotski, falando ao soviete, dizia: ‘ A vodka é uma força política, tanto quanto a palavra. A palavra revolucionária desperta para a luta contra os opressores. Se vocês não conseguire deter a marcha da embriaguez, só nos restará como recurso empregar os carros blindados. Lembrem-se disto: cada dia de bebedeira mais os aproxima da vitória e nos leva de volta à escravidão’. O mal foi vencido em uma semana.”  O ano I da Revolução Russa. Victor Serge. Pgs. 126-27.


Me lembrei agora sobre o que o Hobsbawn escreveu sobre a disciplina dos revolucionários e a condenação que eles faziam das drogas pelo desperdício de tempo e energia que elas representam e o potencial alienante delas, mas enfim...