sábado, 18 de janeiro de 2014

Noite

Uma sombra ao pé da minha cama, talvez uma figura ameaçadora de uma mulher. Algo que uma mente meio adormecida formulou, mas se essa mesma mente for crédula e cheia de religião, provavelmente essa figura é um espírito, visagem ou encosto. Pra mim é só um resquício de uma imagem ou sonho ao qual a minha mente semi-adormecida ainda se agarrava.
Barulhos de choro ou lamento de criança ou bebê me acordam, mas na verdade é só a minha gata no cio brigando com outro felino, entre a tela da garagem, por que a minha irmã deixou a porta de madeira aberta, ao entrar em casa.
Livros, roupas e outros objetos formam contornos ameaçadores de algo à espreita. No entanto, não sou mais um menino e meu lençol não é mais uma armadura que pode me proteger dos demônios de baixo da minha cama ou escondidos nas sombras e me dando nós na garganta.
Sou um homem de 1,90m, meus pés sobram um pouquinho na cama, é um problema que já me acostumei, mas mesmo assim, não tenho a ilusão de que seja tão menos vulnerável do que quando era criança. Agora os monstros e demônios são mil preocupações e projeções que podem ou não se realizar, mil pequenas falas e interações com outras pessoas que poderiam significar um milhão de coisas e que podem implicar em um zilhão de coisas negativas ou positivas, uma infinidade de neuras de “adultescente” passam pela minha mente antes de finalmente adormecer. Não me iludo muito quanto a isso, elas são tão reais quanto os meus terrores da infância e fazem parte da história que eu e as outras pessoas contamos sobre mim mesmo e ela já é tão velha que eu acabo acreditando que seja toda a verdade, mas às vezes ela parece real demais para ser só uma narrativa e outras, parece só uma fábula que espero poder segurá-la com força entre as minhas mãos e moldá-la.


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