Esta obra de
Eric Arthur Blair (e provavelmente a vida dele) tem o mérito de propor um
socialismo horizontalizado, democrático e diretamente ligado com a classe
trabalhadora. Seu nível de compromisso chega a um nível tão alto, provavelmente nunca vou me aproximar nem a milhares de quilômetros dele
(participação na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas). Além disso, sua
autocrítica sobre preconceitos de classe é muito válida e ainda relevante para
qualquer pessoa de esquerda e que seja oriunda da classe média ou de elite, mas
não somente para elas.
A condenação
que o autor faz da visão de mundo de alguns socialistas, seus contemporâneos,
desconstrói a ideia de que a sociedade está dividida entre proletários e elite
e tenta fazer uma reflexão sobre o porquê da classe média e da classe
trabalhadora se afastarem do socialismo. Por outro lado, acredito que ele culpa
excessivamente o dogmatismo e vanguardismo dos socialistas (além de algumas afirmações anti-feministas e uma frase homofóbica, o posfácio do Mário Sérgio Conti já discute isso, recomendo a leitura) e não reconhece que
ambas as classes são influenciadas por instituições bastante conservadoras
(Família, Igreja, Mídia e Escola) e que fazem com que essas pessoas introjetem
valores conservadores e desprezem partidos e movimentos que questionem o status quo.
Eu acho que não
se pode relativizar o conservadorismo do povo brasileiro, especialmente o da
classe trabalhadora. É preciso reconhecer que dificilmente um ambiente
conservador, doutrinário e limitador forma pessoas libertárias, mas também que
simplesmente chama-los de “burros” ou “alienados” não serve para explicar o
nosso contexto histórico. Por outro lado, não engulo a relativização de que a classe
trabalhadora “não é tão conservadora assim” ou que a culpa é da esquerda por
não ter a capacidade de dialogar e atrair as classes oprimidas, ao menos não totalmente.
Bom, depois da
minha vivência nas jornadas de junho de 2013 e de ver os arroubos nacionalistas
e antipartidários (especialmente contra a esquerda), acho que é preciso
reconhecer que boa parte da população (não só a classe trabalhadora) pode ser facilmente
cooptada quando se utilizam conceitos como Nação, Família e Religião, além do
espantalho da corrupção, “nenhum partido presta, mas vote no PSDB”. A esquerda
tem que saber dialogar com diversos segmentos da sociedade, mas acho que não tem
como dialogar com fascistas e conservadores enrustidos. É importante “separar o
joio do trigo” e gastar energia de forma inteligente e estratégica com quem tem
interesse de conhecer uma visão de mundo alternativa à revista semanal ou às
perorações do comentarista da Globo. A alternativa é ficar gritando para os
três ventos e ser engolido pelo mar de reacionarismo e fascismo.
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