segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Alguns pontos sobre "O caminho para Wigan Pier" ou Uma breve reflexão sobre o pobre de direita

Esta obra de Eric Arthur Blair (e provavelmente a vida dele) tem o mérito de propor um socialismo horizontalizado, democrático e diretamente ligado com a classe trabalhadora. Seu nível de compromisso chega a um nível tão alto, provavelmente nunca vou me aproximar nem a milhares de quilômetros dele (participação na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas). Além disso, sua autocrítica sobre preconceitos de classe é muito válida e ainda relevante para qualquer pessoa de esquerda e que seja oriunda da classe média ou de elite, mas não somente para elas.
A condenação que o autor faz da visão de mundo de alguns socialistas, seus contemporâneos, desconstrói a ideia de que a sociedade está dividida entre proletários e elite e tenta fazer uma reflexão sobre o porquê da classe média e da classe trabalhadora se afastarem do socialismo. Por outro lado, acredito que ele culpa excessivamente o dogmatismo e vanguardismo dos socialistas (além de algumas afirmações anti-feministas e uma frase homofóbica, o posfácio do Mário Sérgio Conti já discute isso, recomendo a leitura) e não reconhece que ambas as classes são influenciadas por instituições bastante conservadoras (Família, Igreja, Mídia e Escola) e que fazem com que essas pessoas introjetem valores conservadores e desprezem partidos e movimentos que questionem o status quo.
Eu acho que não se pode relativizar o conservadorismo do povo brasileiro, especialmente o da classe trabalhadora. É preciso reconhecer que dificilmente um ambiente conservador, doutrinário e limitador forma pessoas libertárias, mas também que simplesmente chama-los de “burros” ou “alienados” não serve para explicar o nosso contexto histórico. Por outro lado, não engulo a relativização de que a classe trabalhadora “não é tão conservadora assim” ou que a culpa é da esquerda por não ter a capacidade de dialogar e atrair as classes oprimidas, ao menos não totalmente.

Bom, depois da minha vivência nas jornadas de junho de 2013 e de ver os arroubos nacionalistas e antipartidários (especialmente contra a esquerda), acho que é preciso reconhecer que boa parte da população (não só a classe trabalhadora) pode ser facilmente cooptada quando se utilizam conceitos como Nação, Família e Religião, além do espantalho da corrupção, “nenhum partido presta, mas vote no PSDB”. A esquerda tem que saber dialogar com diversos segmentos da sociedade, mas acho que não tem como dialogar com fascistas e conservadores enrustidos. É importante “separar o joio do trigo” e gastar energia de forma inteligente e estratégica com quem tem interesse de conhecer uma visão de mundo alternativa à revista semanal ou às perorações do comentarista da Globo. A alternativa é ficar gritando para os três ventos e ser engolido pelo mar de reacionarismo e fascismo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.