domingo, 18 de maio de 2014

Trecho de História do Cerco de Lisboa - José Saramago

"Que vem entrando, e diz, Desculpe tê-lo feito esperar, o ruído da porta e s palavras sobressaltaram Raimundo Silva, apanhado de costas voltadas, e agora vira-se precipitadamente, Não tem importância, responde, eu só vim para, não termina a frase, também a este rosto é como se o visse pela primeira vez, tantas vezes, nestes dias, tem pensado na doutora Maria Sara, e afinal, não era numa imagem dela que pensava, o simples nome ocupara todo o espaço disponível da lembrança, progressivamente fora invadindo o lugar dos cabelos, dos olhos, das feições, do gesto das mãos, somente podia reconhecer de longe a macieza da seda, não porque a tivesse tocado alguma vez, já o sabemos, e também há que esclarecer que não estava recorrendo a sensações antigas para morbidamente imaginar o que esta poderia ser, por impossível que pareça Raimundo Silva conhece tudo desta seda, o brilho, o mover brando do tecido, as flutuantes pregas, como areia dançando, embora a cor de agora não seja a de então, também ela emersa nas brumas da memória, se não é desrespeitar o hino pátrio. Trago-lhe aqui as provas (texto revisto), como combinámos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer, à passagem, agora está sentada à secretária, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu, Não vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, tão perto dela está que pode ver-lhe o coração suavíssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do íntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer até a poetas medíocres, O íntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que não se acredite, o roçar inefável as pétalas, ou teria sido o roças da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem a imaginar.
A doutora Maria Sara disse, Muito bem. Apenas estas duas palavras, num tom que não prometia outras falas, e Raimundo Silva, tão bom entendedor até de meias palavras, compreendeu, ditas estas duas, que nada mais tinha que fazer ali, viera para entregar provas, entregara-as, agora só lhe restava despedir-se, Boas tardes, ou perguntar, Precisa ainda de mim, interrogação muito comum que tanto é capaz de exprimir humildade subalterna como uma impaciência refreada, e que, no caso presente, usando o tom adequado, se poderia tornar em irónico remoque, o mau é que muitas vezes o destinatário ouve a frase mas não dá pela intenção, basta que estivesse folheando com profissional atenção umas provas tipográficas, e ainda mais se se tratava de versos, que exigem cuidado especial, Não, não preciso, respondeu, e levantou-se, foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, tão alheio ao acto como às consequências dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefacta, não estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitário (móvel) vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo não se esperaria é que mulher tão segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrível que se possa corar assim no tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, não do corpo. Mas o mais extraordinário de tudo foi que Raimundo Silva corou também, e por mais tempo que  ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridículo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou virá a dizê-lo. Em situações como esta, faltando a ousadia, e não nos perguntemos, Ousadia para quê, a salvação está na fuga, é bom conselheiro o instinto de conservação, o pior vem depois, quando repetimos as horríveis palavras, Que vergonha, todos passámos já por horrores assim, de raiva e humilhação damos socos na almofada, Como pude ser tão estúpido, e não sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale é estarmos protegidos pela escuridão do quarto, ninguém nos vê, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condão mau de tornar irremediáveis e monstruosas até as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraça como a de agora. Raimundo Silva virou costas bruscamente, com a ideia vaga de que tudo se havia perdido na sua vida e que nunca mais poderia voltar a esta casa, É absurdo, absurdo, repetia em silêncio e parecia-lhe que o dizia mil vezes enquanto fugia para a porta, Em dois segundos sairei, estarei fora, longe, quando no derradeiro e preciso instante o deteve a voz de Maria Sara, inesperadamente tranquila, em tal contradição com o que neste momento se está passando aqui que foi como se o significado das palavras se tivesse perdido no ar, se não fosse a certeza final do ridículo Raimundo Silva teria fingido que acreditar que ela dissera mesmo, Saio dentro de cinco minutos, é só o tempo de terminar um assunto na direcção literária, posso dar-lhe uma boleia, se quiser. Com a mão aferrada à maçaneta da porta, ele buscava desesperadamente parecer natural, e quanto lhe estava custando, uma parte de si ordenava-lhe, Vai-te embora, a outra olhava-o como um juiz e sentenciava, Não terás outra oportunidade, todos os rubores e surpreendimentos tinham perdido a importância em comparação com o grande passo dado por Maria Sara, porém em que direcção, meu Deus, em que direcção, e aqui está como nós, humanos, somos feitos, que apesar da confusão em que se debatia, de sentimentos, já se vê, ainda lhe sobrava frieza de espírito para identificar a irritação que lhe causara a palavra boleia, absolutamente inadequada à ocasião pela sua patente vulgaridade de fado corrido, a série foi irresistível e instantânea, boleia tipóia fado, Levo-o aonde quiser, podia ter dito Maria Sara, mas provavelmente não se lembrou, ou achou que devia evitar a ambiguidade duma tal frase, Levo-o aonde você quiser, Levo-o aonde eu quiser, é bem verdade que o estilo elevado costuma falar quando mais precisamos dele. Raimundo Silva conseguiu-se soltar da porta e permanecer firme, observação que pareceria de gosto de duvidoso se não fosse expressão duma ironia amigável enquanto esperamos que responda, Muito obrigado, mas não quero desviá-la do seu caminho, ora aqui vem muito a propósito dizer que o soneto está a sofrer com a emenda e que ao desastrado revisor não restaria mais que morder a língua se o tardio sacrifício servisse para alguma coisa, felizmente não deu Maria Sara, ou fingiu não dar, pela duplicidade maliciosa da frase, pelo menos não lhe tremia a voz quando disse, Não me demoro nada, sente-se, e ele faz quanto pode para que lhe não trema a sua ao responder, Não vale a pena, gosto de estar de pé, pelas palavras que tinha dito antes parecia que recusara a oferta, agora se vê que aceitou. Ela sai, regressará antes de passados os cincos minutos, entretanto espera-se que ambos recobrem o ritmo da respiração, o sentido da avaliação das distâncias, a regularidade do pulso, o que não será certamente pequena proeza depois de tão perigosos cruzamentos. Raimundo Silva olha a rosa, não são só as pessoas que não sabem para o que nascem.
Um dia, talvez por efeito duma luz que fará recordar esta, límpida e fria tarde que vai esmorecendo, se dirá, Lembras-te, primeiro o silêncio dentro do carro, as palavras difíceis, o olhar tenso e expectante, os protestos e as insistências, Deixe-me na Baixa, por favor, tomo aí um eléctrico, Ora essa, levo-o a casa, não me custa nada, Mas sai dos sítios onde vivo, Ao pé do castelo, Sabe onde moro, Na Rua do Milagre de Santo António, vi na sua ficha, depois de um certo e ainda hesitante desafogo, corpo e espírito meio distendidos, mas as palavras sempre acauteladas, até ao momento em que Maria Sara disse, Pensarmos nós que estamos onde foi a cidade moura, e Raimundo Silva a fingir que não percebera a intenção, Sim, estamos, e a tentar mudar de conversa, porém ela, Às vezes ponho-me a imaginar como terá sido aquilo, as pessoas, as casas, a vida, e ele calado, obstinadamente calado agora, sentindo que a detestava como se detesta um invasor (*por que ela queria descobrir se ele estava escrevendo um livro, o primeiro livro dele), foi ao ponto de dizer, Saio aqui, que estou perto, mas ela não parou nem respondeu, o resto do caminho fizeram-no em silêncio. Quando o carro parou à porta, Raimundo Silva, embora sem ter a certeza de ser isto um acto de boa educação, achou que devia convidá-la a subir, e logo se arrependeu, É uma indelicadeza, pensou, e aliás não devo esquecer-me de que sou seu subordinado, foi nessa altura que ela disse, Fica para outro dia, hoje é tarde. Sobre essa frase histórica se há-de fazer extenso debate, pois Raimundo Silva está capaz de jurar que as palavras então ditas foram outras, e não menos históricas, Ainda não é tempo." pg. 169-75.

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