quarta-feira, 23 de março de 2016

Eu escolho viver consciente

Sou um cara branco, hetero, cis e de classe média. Sou prof de escola pública, isso é contraditório? Foda-se. Me sinto feliz e tranquilo por sentir que estou fazendo o que deveria estar fazendo e estou onde deveria estar.
Moro num bairro periférico de Manaus. Subo e desço ladeira todo dia pra dar minha aula. Faço parte da comunidade na qual dou aula.
Hoje, ouvi "Fim de semana no parque" do Racionais. Pensei na primeira escola que fui lotado, onde tinha uma menina na 7a série que é analfabeta, ou na história de uma menina de 14 que se envolveu com um homem de mais de 20 (estupro, né? E/ou pedofilia?) e está grávida; na escola que trabalho tem um garoto que já é pai, outro usa drogas e um terceiro é filho de traficante.
Eu bem poderia ser o playboy que as músicas deles citam, isso me incomodou inicialmente.  Depois parei pra pensar e vi que é a poesia de um povo oprimido e que é preciso contextualizar.
Por outro lado, não acho que tenham desculpa para o machismo escancarado para músicas deles como "Vadias", ou sobre o preto traidor da classe que consome roupas caras e "vadias" loiras. De certa forma, a violência do oprimido serve para nos conscientizar que vivemos em um país brutalmente desigual e segregado.
Não acho que mereça medalhas por desistir de alguns dos meus privilégios de classe, porém essa visão maniqueísta é bem simplista. Não foram (segundo Gabeira), em parte, jovens de classe média que se envolveram na luta contra a ditadura civil militar?  Entretanto, temo que isso soe parecido com um discurso "classe média sofre".
Outro dia ouvi Metallica, "The unnamed felling", depois "Purple Haze" do Jimmi Hendrix. Dias bons e dias ruins. Alguns dias da vida de "adulto" são tão amargos, poderia cuspir fel ou tomar um anti ácido pra ressaca da cerveja ansiolítico. Teoria, nossa formação e nosso aprendizado fora de classe, tudo flui pela privada quando você vomita depois de uma bebedeira de bud água. Um projeto político pedagógico feito em uma tarde e a militarização (privatização) do ensino. Bem poderia ser o Estado vomitando sangue ou chorume.
Subi e desci essas ladeiras de Manaus esses dias. Poderia ser Sísifo condenado a fazer uma tarefa inútil, ou, talvez, quem sabe, Atlas segurando o mundo nos ombros. Porém, esse romantismo juvenil e simplório não me afeta faz bastante tempo. Não sou vítima, pois sou sujeito histórico, e nem sou herói, pois não sou a pessoa que faz milagres para sobreviver em um país desigual, injusto e retrógrado.
Me lembrei de uma citação de Sartre, algo sobre a questão filosófica mais importante ser sobre decidir se você quer ou não se matar. Não li isso (não tenho tempo, energia ou ânimo pra ler mais um bunda mole francês colonialista), vi na série Fargo. Uma jovem cita isso, uma coroa (sempre os coroas com verdades prontas e certezas sobre tudo) diz que isso é bobagem de um francês. Nós temos que interpretar um papel na vida, segundo ela.
Acho que a maioria das pessoas passa pela terra como autômatos, sem saber quem são e nem quem ou o que as oprimem. Não se questionam sobre todas essas criações humanas ao nosso redor. Essas barreiras seriam tão frágeis se existissem mais pessoas que se permitissem voar pelo sonho e utopia. Porém, a realidade capitalista é essa coisa cinzenta, opressora e patética.
Cuspir fel, se embrutecer, virar fatalista, ou tentar achar algum sentido, ou significar as coisas, "racionalizar" tudo isso, me parece mais sensato. A maioria das pessoas que vivem vidas confortáveis e não saem de suas zonas de conforto não sabem que viver é uma escolha. Pra algumas pessoas, é uma batalha diária sair da cama e encarar um mundo limitador, opressivo e cheio de barbárie, pra outras é a urgência de uma barriga vazia, delx ou de seus filho@s.
Robin Williams cometeu suicídio, depois de anos vivendo com a depressão. Ele se enforcou. Pessoas mandaram fotos, via twitter, pra sua filha nas quais seu pai estava morto. Esse é o mundo que vivemos.
Pedro Paulo Funari diz que o mesmo país que produziu Hitler produziu Beethoven. Eu digo, dane-se essa postura colonizada. O Brasil produziu Bolsonaro, mas também "produziu" Cartola, Pagu, Zumbi e outras pessoas anônimas que tombaram em nosso solo e seu sangue formam a capilaridades que vão inundar e afogar fascistas, latifundiários, esquerdistas traidores e a limitação da "realidade" que aceitamos como se fosse imutável e não uma frágil e débil construção humana. Eu escolho viver consciente. Se você também escolher o mesmo, podemos dividir um guarda chuva e talvez os nossos pés molhados nos façam perceber que estamos conscientes.

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