quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

As coisas têm o significado que a gente dá pra elas, ou significar as coisas é o que nos faz humanos

https://www.youtube.com/watch?v=im6hPaxs_qw
Tava andando na rua aqui pelo centro de Manaus, perto do teatro Amazonas. Aí vi a uma placa "Palácio de Justiça" (ou Justice Palace para os gringos que vem pra esses mega eventos, pagos com enxurradas do nosso dinheiro público, e que de fato servem para engordar ainda mais aquela classe de bandidos chamada FIFA) Pensei: que nome apropriado, palácio lembra monarquia e o judiciário é um dos poderes mais antidemocráticos do nosso país, ao contrário do que acontece alhures, aqui ninguém é eleito, as pessoas recebem salários régios (imorais até, se você tiver um pingo de senso crítico).
Eu já até pensei em cursar isso e ser de classe média alta, porém, mesmo hoje em dia com as agruras que estou vivendo e as que ainda estão por vir, não me agrada a ideia de defender o Latifúndio, ser um burocrata sem alma, um gerente das elites ou simplesmente uma engrenagem que funciona no seu lugar predeterminado por Família, Igreja, Classe, tudo isso para manter as coisas exatamente como estão.
Lá estava eu, vi aquela placa e lembrei vários homens brancos que se hospedavam no mesmo hotel que eu, a perfeita imagem da meritocracia, eles e eu. Estavam na cidade disputando uma vaga para promotor público (não deixo de rir dessa classe média esquizofrênica que vota no PSDB, mas quer um emprego público). De todo modo, talvez isso soe recalque para você e se soar, pare de ler esse texto e vá para a puta que te pariu. Pra mim, só soa um pouco como a mesma coisa, os mesmos discursos, repetição e nada de original. Recentemente vi um esquerdomacho falando de burguesia, mas transou com uma paciente dele. Sem falar da multidão de gente que se diz de esquerda, mas o discurso não condiz com a prática, eu incluso.
É engraçado como as nossas mentes fazem conexões. Você já brincou disso? Pense em algo, isso te faz lembrar de algo e assim por diante, esse jogo pode durar um tempão. As vezes, no dia a dia, fazemos conexões com o que não tem nada a ver, desde algo que a tua visão periférica te engana e você pensa que é um espírito, até qualquer outra conexão sem pé nem cabeça que você já pode ter feito, ou podem ter feito sobre você.
Vi um comediante falando que nossas vidas são papéis que introjetamos, e que na verdade eles não passam de papéis, podem ser reescritos e moldados conforme a nossa vontade, bom, apesar do cara ser um europeu privilegiado, isso não deixa de fazer sentido, eu já interpretei o papel do cara endurecido e que não demonstrava afeto pelos meus amigos. Quais você interpreta? 
A vida tem muito de teatro, farsa, absurdo e ridículo. Nós assumimos papéis a maior parte da nossa personalidade, talvez até toda, se não tivermos muito cuidado, é moldada por influências externas.
Entretanto, para além de abstrações, existe a realidade: feia, dura e limitadora. Existe o nosso contexto histórico que não permite que voemos tão alto quanto podemos imaginar. Ainda é preciso explicar o óbvio. Algum coroa saudosista poderia dizer que a tecnologia nos aproxima, mas nos deixa mais isolados. Acho que sempre estivemos isolados, até a pessoa mais bovina e embrutecida está só em seu universo mental pessoal. Você nunca se sentiu rodeado de gente, porém completamente só? 
Divago e desvio do assunto, mas isso não é redação de ensino médio. A questão é que falar é mais fácil do que fazer. Anos e anos de dor, humilhação e disciplinamento nos fazem assumir papéis de gênero, classe e étnicos. Não é tão simples assim moldar isso. Tem gente que pode dizer o contrário, mas duvido que realmente acreditem ou vivem o que falam. Nem tudo é tão cinzento assim, hoje choveu, estava observando a chuva cair, as luzes da cidade e os garotos brincando na praça aqui perto de casa. No meio de tanta insensibilidade e barbárie podemos encontrara a beleza frágil, pude tomar café e compartilhar a chuva com meus semelhantes. No filme "A dama da água", um personagem relaciona a chuva com a purificação, para mim tem o sentido de transitoriedade, além de algo mais que ainda não descobri a palavra certa para a sensação de que passado, presente e futuro se encontram e a tristeza por de tudo que vivemos e todas esses momentos que não tivemos tempo ou sutileza de apreciar. Meu cérebro fez uma conexão e lembrei de uma tempestade de trovões (raios? relâmpagos? Ah! Que seja) no horizonte, enquanto estava num carro de tour, indo para o deserto de Uyuni, na Bolívia. As luzes cortavam o céu e não se ouvia barulho. Esses fenômenos existem há milhares de anos, mas eu presenciei isso. Tudo isso faz parecer surreal as criações humanas: dinheiro, rotina, trabalhos e tecnologias que fazem as pessoas infelizes (quando deveriam ser feitos para o nosso bem estar), classe social, hierarquia e a elusiva liberdade (estou falando de liberdade real e não de um mês de féria, ser um conceito tão assustador e por vezes até parece impossível). Por outro lado, nada disso sempre foi assim. Fatalismo não combina com o ensino de História. Como a chuva, tudo é transitório, no entanto, nós temos a capacidade (até certo ponto) de moldar a nossa vida e a "realidade". Ou não somos sujeitos históricos?





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