quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Meio sentimental e meio racional

Engraçado as substâncias que o nosso cérebro libera quando nos exercitamos. Não sei se foi só impressão minha e estou relacionando coisas sem relação. Os humanos costumam fazer isso, segundo um comediante falou. Cai um raio e as pessoas não sabem que é um rolo lá com eletricidade, então criam deuses e mitologia para explicar isso (para mim o monoteísmo também é isso, só para deixar claro).
Enfim, divaguei, estava voltando da caminhada. Passando pelo ponto que gosto, a Oliveira Belo com a Generalíssimo. Curto por causa das árvores da Oliveira; por causa da Santa Casa e da História que está impregnada ao nosso redor, mesmo que desconheçamos ainda; pelo bar Paladino e também por um relato, contado por um tiozão reaça, sobre como costumava ser a Generalíssimo. Por que isso me fez pensar no passado recente de Belém e da relação da minha família com ele, especialmente os que já se foram, mas também os que, felizmente, ainda estão presente e em todas as pequenas partículas de vida, com seus segredos, sonhos, pesares e alegrias, que fizeram parte da vida da minha mãe.

Durante a caminhada temos alguns momentos de clareza, momentos estáticos ou o que quer que seja, por olhar as pessoas ao redor, o céu e os detalhes da cidade. Bom, lá estava eu naquele ponto, limpando o suor dos olhos, cansado e esperando o sinal abrir. Quando me veio uma lembrança de quando era criança/pré-adolescente. Um garoto mais ou menos da minha idade, pardo ou negro, não me lembro, e provavelmente pobre, furtou a bolsa de uma mulher jovem. Eu voltava do colégio e presenciei o desfecho: um trabalhador braçal, também pardo ou negro, tinha agarrado o garoto e batia nele, enquanto a mulher aflita pedia para ele parar. No momento, não tive maturidade para fazer nenhuma reflexão além do susto e medo da situação. Agora, com alguns anos a mais de vivência e educação formal, já posso avaliar melhor a situação.

Agora é o ponto em que eu poderia discutir sobre o fenômeno do “pobre de direita/conservador”, do papel dos programas policialescos no desenvolvimento dessa mentalidade de turba linchadora, mas prefiro somente reconhecer os meus privilégios de classe, raça/etnia e gênero. Tive acesso à educação de qualidade (bom, ao menos instrumental para formar mão-de-obra qualificada); tenho uma família estruturada; nasci com a cor, gênero, orientação sexual e a classe social certas para meus direitos e dignidade serem reconhecidos. Me pergunto onde esse garoto, que cometeu um crime, mas que não perdeu sua humanidade e nem seus direitos humanos básicos e fundamentais, está hoje? Provavelmente morto ou preso. 
Acho que sou grato pelas oportunidades que me foram dadas e espero fazer algo, por menor que seja, para viver em um país menos desigual e que valorize a vida acima da propriedade privada. 

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