Engraçado
as substâncias que o nosso cérebro libera quando nos exercitamos. Não sei se
foi só impressão minha e estou relacionando coisas sem relação. Os humanos
costumam fazer isso, segundo um comediante falou. Cai um raio e as pessoas não
sabem que é um rolo lá com eletricidade, então criam deuses e mitologia para
explicar isso (para mim o monoteísmo também é isso, só para deixar claro).
Enfim,
divaguei, estava voltando da caminhada. Passando pelo ponto que gosto, a
Oliveira Belo com a Generalíssimo. Curto por causa das árvores da Oliveira; por
causa da Santa Casa e da História que está impregnada ao nosso redor, mesmo que
desconheçamos ainda; pelo bar Paladino e também por um relato, contado por um
tiozão reaça, sobre como costumava ser a Generalíssimo. Por que isso me fez
pensar no passado recente de Belém e da relação da minha família com ele, especialmente os que já se foram, mas também os que, felizmente, ainda estão
presente e em todas as pequenas partículas de vida, com seus segredos, sonhos, pesares
e alegrias, que fizeram parte da vida da minha mãe.
Durante
a caminhada temos alguns momentos de clareza, momentos estáticos ou o que quer
que seja, por olhar as pessoas ao redor, o céu e os detalhes da cidade. Bom, lá
estava eu naquele ponto, limpando o suor dos olhos, cansado e esperando o sinal
abrir. Quando me veio uma lembrança de quando era criança/pré-adolescente. Um
garoto mais ou menos da minha idade, pardo ou negro, não me lembro, e
provavelmente pobre, furtou a bolsa de uma mulher jovem. Eu voltava do colégio
e presenciei o desfecho: um trabalhador braçal, também pardo ou negro, tinha
agarrado o garoto e batia nele, enquanto a mulher aflita pedia para ele parar.
No momento, não tive maturidade para fazer nenhuma reflexão além do susto e medo
da situação. Agora, com alguns anos a mais de vivência e educação formal, já
posso avaliar melhor a situação.
Agora é o ponto em
que eu poderia discutir sobre o fenômeno do “pobre de direita/conservador”, do
papel dos programas policialescos no desenvolvimento dessa mentalidade de turba
linchadora, mas prefiro somente reconhecer os meus privilégios de classe,
raça/etnia e gênero. Tive acesso à educação de qualidade (bom, ao menos
instrumental para formar mão-de-obra qualificada); tenho uma família
estruturada; nasci com a cor, gênero, orientação sexual e a classe social certas para meus direitos e
dignidade serem reconhecidos. Me pergunto onde esse garoto, que cometeu um
crime, mas que não perdeu sua humanidade e nem seus direitos humanos básicos e fundamentais, está hoje? Provavelmente morto
ou preso.
Acho que sou grato pelas oportunidades que me foram dadas e espero
fazer algo, por menor que seja, para viver em um país menos desigual e que
valorize a vida acima da propriedade privada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.