quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A liberdade plastificada e embalada para presente

Ontem assisti “A vida secreta de Walter Mitty”, é um filme divertido e, ao menos eu pensei, uma diversão descompromissada. Entretanto, ao longo do filme senti um incômodo com a mensagem. Esse tipo de desconforto que bate na nossa mente, mas que por mexer com coisas simples e fundamentais da nossa visão de mundo, não sabemos muito bem como botar em palavras esse sentimento.
Eu já tinha relacionado esse filme com “Benjamin Button”, logo depois de assistir, mas hoje acordei inquieto e consegui formular uma explicação. O que me incomoda disso é a mercantilização de buscas legítimas para compreender o mundo e a si mesmo, o esvaziamento do valor desse incômodo bem humano em uma mensagem idiotizante e conformista. Acho que não devo ser o único que já percebeu essa mensagem em filmes enlatados gringos: o pequeno burguês vive uma vida monótona e vazia, aí algo fora do comum (uma voz, uma doença, um amigo ou um evento) o leva a transformar a sua vida “radicalmente”. Em “Walter Mitty” a gente vê essa tentativa. Ele viaja o mundo em busca de uma foto e encontra coisas inesperadas que se encaixam magicamente (ah se esse gringo tivesse que passar pelo perrengue de esperar um dia numa cidadezinha por um ônibus...) para que ele alcance seu “auto descobrimento”, adrenalina, para tentar se sentir vivo nessa sua existência monótona e sem sentido, e a aprovação da mulher que ele quer conquistar. Acho que essa mercantilização distorce e empobrece essas buscas e curiosidades do ser humano. Por quê? Oras, por que o filme resume a questão em um hedonismo vazio ou no clichê do “amor heterossexual redentor”, como já me disseram uma vez.  Eles não questionam mais nada sobre si mesmos e o mundo ao seu redor. É uma espécie de camisa do Che Guevara em versão de longa metragem, uma versão fetichizada de algo real.
Esses tipos de aventuras, descritas nos filmes, geralmente só são possíveis para gringos yuppies. Não me entenda mal, sou um esquerdista, mas pequeno burguês também. Boa parte desses fetiches e ideais já foram introjetados por mim e tenho algumas crises que me fazem sentir culpado (mesmo não devendo), levando em conta que a grande maioria da população brasileira precisa se preocupar principalmente em sobreviver. Por outro lado, não é verdade que essas inquietações e liberdade para sonhar sejam monopólio de uma classe social, nação ou grupo qualquer. Em uma mochilagem pela Bolívia (não sou rico, o custo de vida é mais barato e o real vale quase quatro pesos, viaje também, vale a pena!), conheci um espanhol chamado Carlos, um cara gente boa e amigável, cabeludo e meio careca, sorridente e meio riponga, na faixa dos trinta, que trabalhou 2 anos como garçom, em Ibiza, para poder bancar 6 meses de viagem pelo mundo e para descobrir o que iria fazer da vida em seguida. Guardadas as proporções, afinal de contas o cara é europeu, não acho que essa empreitada é tão elitista assim, quando feita em moldes mais simples.

Não quero dar um tom inquisitorial para o texto. A minha visão de mundo é fruto de um contexto histórico e de uma série de fatores. Ela não é a balança para fazer julgamentos incontestáveis. Essa é uma tentativa de compartilhar um incômodo e incentivar a reflexão. Realmente acho que essas narrativas não dão conta das nossas inquietações e sonhos, essas tem um potencial muito maior. Elas podem ser muito mais libertárias e contestadoras. Se os nossos anseios e angústias nos levam, como foi o meu caso, em viagens pela América Latina: entramos em contato com culturas diferentes, mas com um passado colonial semelhante, como professor de História, isso não tem preço. Podemos perceber, como observadores externos, a vida e relevância do que estudamos nas pessoas que caminham ao nosso redor, em nossas diferenças e similitudes. Em um deserto de sal, sozinho em uma cachoeira ou percorrendo as ruas de Cartagena e vendo o por-do-sol em sua muralha, no silêncio com nós mesmos, podemos refletir sobre a nossa vida, nosso papel no mundo e na sociedade, mas de forma menos claustrofóbica e urgente do que no dia a dia e na repetição das nossas obrigações. Nem tudo é tão monástico e introspectivo assim, podemos comprar um litrão (cerveza, por favor!) de 3 pesos, bater um papo e gargalhar. Podemos nos sentir vivos e nos descobrir, mas também podemos pensar, de forma mais sóbria (sem trocadilho) e menos romântica, em utopias e desejar mudar o mundo. Isso para mim é mais humanístico e válido. E lá se vai o meu desejo de assistir algo sem pensar...







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