sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Os dois cães dentro de mim

Eu me vejo em você. Me vejo sim. Os homens deitados na rua.

Os homens e mulheres com adoecimento mental severo e sem ninguém para cuidar por eles. Me vejo em vocês. E toda vez que vejo meus semelhantes em situação tão degradante e de tanta dor, meu coração se aperta e me pergunto qual o sentido da vida.
Cada vez que eu vejo esse tipo de cena, fica mais difícil ignorar e continuar andando. Nunca senti fome de verdade. Nunca senti abandono de verdade, ao menos não da minha mãe.
Eu sei, políticas públicas e estado, mas em uma plutocracia não importa a dignidade humana. Quanto mais dos animais que o agronegócio tortura e mata.
Animal irracional, taí, talvez desde o início dos primeiros grupos humanos, alguém inventou um termo para segregar e justificar cometer o mal e a crueldade contra nossos semelhantes.
Sou apenas um homem. Falo palavrão. Me contradigo. Me sinto inútil e impotente. Não consigo enxergar sentido para a vida. Choro mesmo quando chorar não me faz sentir melhor, só mais triste e mais vazio.
Queria uma companheira e dois filhos. Queria cuidar da minha família. Queria estender a mão para o meu semelhante, pois fingir que eles não existem é fingir que toda essa dor que sinto não existe.
Queria abraçar minhas irmãs. Queria abraçar meu irmão e conhecer seu filho.
Amo a minha mãe, mas não sei se realmente sei amar. Eu não sei odiar, ou, ao menos, o ódio só me é cansativo e absurdo. Preferia substitui-lo por justiça e dignidade, talvez a minha tia pudesse me ajudar a entender isso.
Eu não preciso alimentar os cães dentro de mim, pois eles estão enlouquecidos e dilacerando minha carne. Não os culpo. Tanto tempo sem saber sentir. Tanto tempo no vazio do pensamento.

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