Ontem, vi um inseto no chão, em frente a grade que estávamos lixando. As asas nuns tremeliques. Pensei que estava agonizando, uma mariposa fez isso perto de mim, há algum tempo atrás.
A prof de Biologia que mora comigo disse que aquilo era somente pois a borboleta estava bebendo a água da vala. Dito e feito, lá foi o inseto batendo suas asinhas e ascendendo, mas seguindo uma lógica diferente do que um ser humano faria. Se algum australopithecus tivesse cruzado com uma ave e o negócio tivesse dado certo.
Fato é que, infelizmente, ou felizmente (imagina o estrago que seres humanos iam fazer com mais membros e mais poder?!) não possuímos essas asinhas feitas de seda ou os ossos ocos das ave s. Imaginei soldados gringos voando e cometendo crimes contra a humanidade sem precisar do auxílio de transporte (acho que ia economizar bastante combustível para cada assassinato).
No Brasil, pensei em samba nos céus, mas gente que perdeu as penas por inanição. Áreas no céu que seriam privatizadas. Uma boate cara de playboy, classe média alta (o que se esforça pra dar a ideia de que é) ou rico (tem tanto dinheiro ensanguentado, poder e privilégios que prefere ser mais discreto. Claro, existem exceções), mantida no ar com puro poder gravitacional da herança escravista, oligárquica e patriarcal.
A borboleta tem as e as usou para ascender em círculos ou o que me pareceu um padrão circular. A criaturinha seguiu sua vida. Nós seguimos a lixar o metal.
Esqueci de mencionar um fato importante: a professora, previamente mencionada, nos contou que aquele inseto também se alimenta de excrementos, algumas espécies até mesmo utilizam nosso suor e sangue como parte de sua nutrição. Creio que se elas pudessem voltar lá na mesa de desenho da evolução das espécies, ia escolher fonte alimentar menos tóxica.
Não deu muito tempo e o namorado da professora disse que tinha um beija-flor no arbusto de Ixora. De fato, era. Filmei enquanto aquele passarinho mágico batia suas asas e se alimentava do néctar.
Relembrei das curiosidades desgastadas: a velocidade das asas e do vôo e quantas vezes por segundo o coração daquele pequeno pássaro bate. Bom, o conhecimento científico não se resume a curiosidades. Exige muito mais leitura, experimentação, observação e mais um zilhão de coisas que englobam a totalidade do conhecimento humano até este exato momento. Não me apetece saber tanto assim sobre estas criaturas. Filmei e nem me lembro se a ave partiu ou eu que perdi o interesse antes dela encher sua barriguinha e seguir adiante. De minha parte, não lhe guardo ressentimentos e lhe desejo sorte e aos seus descendentes em uma área de crescente deflorestação para acomodar condomínios vazios rodeados de periferias lotadas.
Eu poderia continuar com jogos de metáforas ou tentar criar personagens e mundos impossíveis. O texto ficou cinzento. Eu não quero ser uma versão grotesca ou ridícula do Esopo.
A idea inicial era simplesmente dizer: que engraçado. Duas criaturas coloridas e voadoras, mas uma se alimenta de merda e a outra de néctar. Uma é um inseto e outra é uma ave. Boa parte do que se fala, filma ou é gravado é sobre como eu sou um beija-flor e cicrano é uma borboleta. Sempre são os outros a borboletas.
Bom, ocupem os dois papéis e pare de ser tão prepotentes e juvenis. Eu prefiro ser meu próprio paraíso e inferno. Meu próprio herói e vilão. As vezes você só quer uma baladeira e algo pra enxotar borboleta (inseticida mata. Deixa o inseto no seu triste papel de coprofagista). As vezes, muros, cerca elétrica e bolhas de redes sociais parecem não só necessárias, mas como o único modo de se viver.
O sol vai raiar e abrandar a amargura. Uma nova muda minha vai brotar. Vou criar mais e mais motivos pra sorrir e passar repelente (aí, viu, lembrei da palavra) de borboletas humanóides na minha pele. Trabalhar, estudar, comer e depois ouvir música e sonhar em ser um beija-flor. Algo lindo voando em torno de coisas lindas. Nutrindo-se delas e vice versa.
*Primeiro rascunho. Demorou um tempo pra botar isso em palavras e não estou com paciência de corrigir agora.
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