sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O conceito de família e de amor e como se transformaram ao longo do tempo

A minha monografia foi sobre Mulheres chefes de família em Belém no século XVIII. Escolhi o tema unicamente pois fui criado por mãe solo. Entretanto, apesar de demografia histórica e história da família e o sujeito que ministrava as disciplina pudesse ser bastante indigesto, assim como a maioria dos professores universitários e pessoas com algum micro poder, aprendi algumas coisas interessantes sobre famílias dos brancos pobres, as famílias escravas e as famílias das elites.
A família do pobre, acredito que desde o período feudal, era uma forma de produzir mão de obra para cultivar as terras e no período colonial materialmente se aproximava das famílias escravas. Entretanto, falta bibliografia pra respaldar essas afirmações.
As famílias escravas e a as relações que os africanos escravizadas estabeleciam, eram uma forma de buscar a compra da liberdade, coisa que era muito restrita e estatisticamente, as mulheres eram quem mais conseguiam conquistá-la.  Li alguns casos muito impactantes sobre o desejo por liberdade no livro Family and Frontier- Alida C. Metcalf. Por exemplo, um escravo destelhando uma prisão e tentando fugir, ou escravo de 60 anos tentando comprar sua liberdade para finalmente se ver livre da sua "dona". 
A família das elites eram basicamente empresas e o dote era o investimento da dos pais da mulher nessa união. Algo interessante: na legislação portuguesa, a mulher poderia, em alguns casos, ser proprietária de terras (além de ser dona do próprio dote, então dependendo da influência da família da esposa, o marido pilantra que rapinasse o dote teria que responder por esse crime)*, coisa que a legislação inglesa só foi permitir lá pelo século XIX ( Curioso, em Costumes em comum, como Edward Thompson descreve os rituais de divórcio realizado pelos ingleses pobres). Lembro de uma professora de Estudos Sociais do "maternal" falando que se tivéssemos sido colonizados por ingleses ou franceses o Brasil teria dado certo, ou a gente teria olho verde ou azul, enfim, alguma estupidez colonizada e racista.
O amor e o casamento como a gente conhece hoje surgiram no século XIX com o romantismo e uma sociedade industrial cada vez mais individualista. Essas afirmações também estão sem bibliografia para terem algum lastro sequer, talvez eu remedeie isso no futuro. 
O que realmente me interessa é sobre a nossa mentalidade e o nosso contexto histórico. A noção de monogamia e amor romântico e como isso se relaciona com o capitalismo tardio e as últimas décadas de existência da espécie humana. Por puro diletantismo mesmo, pois creio do fundo das minhas vísceras que o meio acadêmico é um mar de lixo tóxico e merda, além de coalhado de gente mesquinha, mau caráter e egocêntrica, assim como muitos outros espaços de poder e privilégio.
*O desaparecimento do dote- Muriel Nazzari

Faltou adicionar alguns pontos:
1) As mulheres de elite geralmente ficavam confinadas nas casas de suas famílias e (se não me engano) em seus aposentos caso estranhos visitassem a casa) , mas as mulheres pobres, livres ou escravas, sempre trabalharam. Lavando roupa nas fontes, como quitandeiras ou carregando tabuleiros vendendo quitutes, como costureiras (profissão listada nos sensos, mas que muitas vezes significava prostituição) e outros ofícios que mulheres pobres e miseráveis exerciam para sobreviver.
Outra estratégia de sobrevivência poderia ser inclusive, o concubinato, até mesmo com homens do clero.

2)como Family and frontier aborda o conceito de fronteira. É bem interessante, (mas o meu livro está em Belém, então nem tem como desenvolver mais nada sobre o conceito em si) pois o livro aborda a expansão da fronteira cafeeira. As elites paulistas e suas proles (pois a terra não dava pra manter todos os ricos como senhores, até mesmo pois raramente a coroa portuguesa fornecia títulos de nobreza para as elites daqui) levando o modelo de latifúndio escravocrata cafeeiro mais adiante.

3) era uma sociedade em constante tensão. Um barril de pólvora prestes a explorar (preciso dos meus livros pra listar o autor que menciona isso). Este autor, que me escapa o nome agora, postula a hipótese de que existia uma espécie de código ou lógica de dominação que os senhores de escravos acreditavam que todos deveriam respeitar. Um senhor de escravos mais brutal do que o comum, podia facilitar a revolta escrava e isso era mau visto e criticado pelos outros senhores, pois era um distúrbio do status quo, causava prejuízo financeiro e instabilidade.
Outro ponto interessante: senhores eram padrinhos dos filhos de escravos, mas geralmente dos escravos de outros senhores. Raramente um senhor realizava essa relação de compadrio com os filhos dos seus escravos.
Para os africanos escravizados, essa era uma estratégia de sobrevivência e proteção real ou imaginada (A Metcalf cita o caso de uma jovem escrava que recorre ao padrinho dela, um senhor, para impedir que ela fosse forçada a se casar com alguém que não era do seu interesse). Provavelmente não tão imaginada, pois existia uma hierarquia entre a população cativa. Alguns trabalhavam na casa grande e recebiam alguns benefícios do senhor, como uma casa e um pedaço de terra para fazer sua própria produção. Então estavam menos propensos a se rebelar.

4)Desviando um pouco de assunto, saindo do café e indo pro açúcar: acho interessante a diferença do escravo que trabalhava mantendo os canaviais e dos cativos mais qualificados que trabalhavam na produção do melaço e que estes poderiam ter mais chance de alcançar a alforria do que aqueles.

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